A antiga e a nova Academia

A antiga Academia
Excertos de Jean Brun, “Platão”

A escola que Platão fundou nos jardins de Academo, perto de Atenas, constitui o primeiro instituto verdadeiramente organizado para acolher alunos. Biblioteca, sala de aulas, quartos, etc, conferem aos estudos filosóficos uma nova perspectiva. A escola trabalha segundo programas preestabelecidos e de todo o lado se acorre para assistir às aulas. Muitos alunos saídos da Academia irão espalhar, um pouco por toda a bacia mediterrânica, as ideias de Platão, e talvez, sobretudo, as suas ideias políticas.

Pouco depois, uma outra escola, o Liceu, iria ser fundada por um antigo aluno de Platão: Aristóteles. A partir do século III A. C. vemos surgir mais duas escolas: o estoicismo e o epicurismo. Estas quatro escolas não acabarão com os seus fundadores e durante séculos a sua influência será muito viva, até à Idade Média.

Vimos que em cada uma das suas viagens à Sicília Platão deixara a direção da escola a um substituto; depois da sua morte, os escolarcos irão suceder-se perpetuando com mais ou menos fidelidade o pensamento do fundador. A Platão sucede o seu neto Espeusipo: este dirigiu a escola até à sua morte, em 339; era muito ligado a Dion e participou provavelmente na preparação do desembarque deste último na Sicília. Das muitas obras de Espeusipo nada sabemos; Aristóteles diz-nos apenas que ele substituiu as ideias por números.

Xenócrates sucedeu-lhe até 314; depois foi a vez de Pólemon de Atenas, que morre em 270, e de Crates.

Assinale-se que Heraclides do Ponto, que entrou para a Academia em 367, esteve na direção da escola quando Platão voltou à Sicília em 361 com Espeusipo e Xenócrates; após a morte de Espeusipo, Heraclides regressou à sua pátria, Heracleia, à beira do mar Negro, para aí fundar a sua própria e afamada escola.

A nova Academia
(Cf. Victor Brocharei, Les sceptiques grecs (Paris, 1932), pp. 93 e seg.)

A antiga Academia tratava antes de tudo de expor e comentar uma doutrina que surgia como a expressão da verdade; a nova Academia vai colocar de novo em questão essa verdade fazendo a crítica dela, e é nisso que foi nova e se dirigiu para o cepticismo.

1. Arcesilau. — Após a morte de Crates, Arcesilau passa a dirigir a escola. Arcesilau nascera em Pítane, Ásia Menor, em 315 a. C; vindo a Atenas, criou uma amizade com Teofrasto, o escolarco do Liceu sucessor de Aristóteles, com Pólemon e Crates; é provável que tenha conhecido Pírron, fundador do cepticismo, e Diodoro, o Megárico. Quando tomou a direção da Academia, Zenão de Cício, o fundador do estoicismo, e Epicuro ensinavam em Atenas. Arcesilau nada escreveu e a sua doutrina é pouco conhecida; sabemos, no entanto, que atacou todos os dogmatismos e em particular o estoicismo. Para Arcesilau, que critica Zenão, não pode existir representação compreensiva; representação compreensiva sobre a qual os estoicos apoiavam a certeza ou a ciência. A única saída que se oferece ao sábio é a de suspender o seu juízo (epoche), pois nem os sentidos nem a razão podem alcançar a verdade; o sábio deve portanto abster-se e duvidar sempre. Quais irão ser as consequências deste cepticismo moral? Se devemos sempre duvidar, como agir? Arcesilau reconhece que se põe esse problema e apresenta como critério da vida prática e razoável, (eulogon), entendendo com isso ações que se ajustem entre si, formando um todo coerente e justificável. Por aqui se vê que Arcesilau não é um céptico no sentido rigoroso do termo, visto que se quer sempre filósofo. Também vemos que o pensamento de Platão foi bastante esquecido; se Arcesilau se mostra ainda acadêmico, é pelo seu método de ensino e de discussão, que reserva um lugar importante ao diálogo e aos discursos críticos.

Arcesilau morre por volta de 240 a. C; sucedem-no à cabeça da escola filósofos dos quais apenas conhecemos o nome: Lacldes, Télecles e Evandro, dois foceus, e depois Hegesino (ou Hegesilaos) que foi o mestre de Carnéades.

2. Carnéades. — Carnéades nasceu em Cirene em 219 a. C; para além de Hegesino teve como mestre o estoico Diógenes, o Babilônio, e deve ter lido os escritos de Crisipo. Em 156 foi enviado a Roma como embaixador com Diógenes, o Babilônio, e Critolau para defender a causa de Atenas, que queria evitar pagar uma multa por causa do saque de Orópia. Doente, cegou no fim da vida. Os contemporâneos de Carnéades são unânimes na admiração pelo seu talento e pela sua inteligência.

Classificou-se muitas vezes a filosofia de Carnéades como «probabilismo» dado que a sua recusa de todo o dogmatismo o levava a pedir ao homem e ao filósofo que se mantivessem no provável (pithanon). Carnéades é célebre pelos argumentos que opunha ao dogmatismo dos estoicos e que foram conservados sobretudo por Cícero e Sexto Empírico, que recordam tradições orais, visto que Carnéades nada escreveu.

Carnéades recusa o critério, tão do gosto dos estoicos, da «representação compreensiva» (phantasia kataleptike) . Os nossos sentidos enganam-nos, qualquer percepção implica uma reação do sujeito ao ato pelo qual é apreendido o objeto, que implica que não podemos falar em evidência apreendida, uma imagem não é clara por si. Contrariamente ao que pretende Crisipo, só damos o nosso assentimento a verossimilhanças, a probabilidades; é necessário, antes de nos pronunciarmos acerca de uma impressão, sondá-la longamente através de um trabalho que a põe à prova; ora não podemos nunca estar certos de que o nosso trabalho é suficiente e está acabado, podemos apenas aderir ao provável e nunca ao certo. Em resumo, para Carnéades, existem representações falsas, que não levam a nenhum conhecimento certo; se representações não apresentam entre si qualquer diferença não podemos dizer que umas são falsas e outras verdadeiras — por fim, ao lado de qualquer representação verdadeira, podemos encontrar uma representação falsa e não temos qualquer meio de a distinguir da primeira (nos sonhos, nas alucinações, na ebriedade, por exemplo – acerca de tudo isto, cf. Cícero, Acadêmicas, II). Os estoicos respondem a isto que cabe à dialética ensinar-nos a distinguir o verdadeiro do falso; mas Carnéades retoma a argumentação com o sorites para mostrar que a dialética não nos permite distinguir uma coisa da outra; por exemplo: três, é pouco ou muito? Crisipo responde que é pouco, mas se acrescentarmos um, será quatro muito? Quando é que se dá a passagem de pouco a muito? Não o podemos dizer e no entanto pouco não é muito. Também se pode seguir este raciocínio a respeito do montículo: dois grãos não formam um montículo; três também não; a partir de quantos grãos é que se pode falar de montículo? Quando é que a modificação quantitativa introduz uma modificação qualitativa? Quando é que o descontínuo se introduz no contínuo? Como reproduzir com os nossos conceitos essa evolução criadora? Temos de concluir que tudo se mantém inapreensível (akatalepton). «Varrer das nossas almas esse monstro temível e feroz chamado precipitação do juízo, eis», dizia Clitómaco, «o trabalho hercúleo que Carnédeas realizou.» (Cícero, Acadêmicas, II, XXXI.)

Carnéades desenvolvia igualmente um trabalho de crítica contra a teologia dos estoicos. Para os estoicos, os deuses são seres vivos, o próprio mundo é um vivo divino; o desenrolar do tempo rege-se por uma providência divina à qual o homem se deve submeter aceitando aquilo que acontece, aceitação que não é senão uma aprovação dada à razão providencial do Destino que rege todas as coisas. Se todas as coisas são regidas pelo destino, a divinação é possível.

Carnéades vai recusar este optimismo finalista. Se tudo no mundo é obra da Providência, porquê então flagelos, doenças, animais prejudiciais? Se tudo se faz segundo a vontade dos deuses, será então necessário dizer que estes regem tanto o ritmo das marés do oceano como o dos acessos de febre? Os deuses, dizem os estoicos, são seres vivos que possuem um corpo; mas então devem ser mortais, porque não existem corpos imortais, e então serão eles deuses? Se Zeus é um deus, o seu irmão Posídon também é um deus, assim como o seu filho, o rio Aquelau, e o Nilo e todos os rios e todas as pedras que eles carregam! Carnéades sempre criticou o panteísmo otimista do Pórtico (Cf. Cícero, De natura deorum.), critica também as ideias dos estoicos sobre a divinação (Cf. Cícero, De Divinatione.): as histórias que se contam sobre os adivinhos, os sonhos interpretados, são apenas lendas que só podem perturbar o espírito dos homens, qualquer divinação é ilusória e a religião só ganha em desembaraçar-se de todas essas superstições.

Carnéades ataca ainda as teorias estoicas sobre o destino. Se tudo se encadear segundo o destino, como diz Crisipo, então não se pode falar de liberdade humana: «Se tudo acontece devido a causas antecedentes», diz Carnéades, «todos os acontecimentos estão ligados uns aos outros por um estreito encadeamento natural. Se assim for, a necessidade produz todas as coisas e se assim for nada está em nosso poder. Ora alguma coisa está em nosso poder; mas se tudo acontece segundo o destino, tudo acontece segundo causas antecedentes, e por tanto tudo o que acontece não acontece segundo o destino.» (Cf. Cícero, De Fato, XIV. Acerca deste problema, cf. D. Amand, Fatalisme et liberté dans l’Antiquité, Lovaina, 1945) Para Carnéades os acontecimentos futuros são certos, mas de um modo abstrato, que faz com que ninguém os possa conhecer de antemão com certeza; tudo acontece, de fato, segundo um encadeamento necessário, mas nada é verdadeiro eternamente, o futuro é verdadeiro ou falso, mas ninguém o pode prever. Para salvaguardar a liberdade humana, não é necessário recorrer ao clinamen dos epicuristas e entregar a natureza ao acaso: a causa do movimento voluntário está em nós, na própria vontade que é autodeterminação; por isso uma ação voluntária não é previsível, pretender o contrário seria afirmar que essa ação é determinada.

As ideias de Carnéades sobre a moral são pouco conhecidas. Sabe-se que foi enviado a Roma como embaixador com outros dois filósofos para defender a causa de Atenas condenada a pagar uma multa; a sua defesa teria consistido em falar da justiça muito eloquentemente no primeiro dia e em criticá-la no segundo dia, dizendo que não passava de uma instituição humana e que não havia direito divino ou natural superior às convenções humanas (Cf. Cícero, De republica, III (in Lactance, Divin. Instit., V, 15).; mas é difícil, no estado atual dos textos, dizer com precisão qual era a concepção de justiça de Carnéades. A sua moral parece ter-se reduzido a uma arte de viver (techne tou biou) feita de prudência e de reflexão, doutrina do «justo centro» que recupera a velha fórmula voluptas cum honestate.

Como se pode ver, a filosofia de Carnéades parece ter sido sobretudo uma arma de guerra contra os dogmatismos, criticando os fanatismos e os pedantismos.

Carnéades morre por volta de 129; Clitomaco de Cartago é o seu sucessor à cabeça da escola. Tinha escrito muitas obras cuja memória foi conservada por Cícero, que parece ter-se inspirado nelas para escrever as Acadêmicas. Entre os seus discípulos citemos: Charmadas, célebre pela sua memória e a sua eloquência, e Metrodoro de Estratonice que abandonou a escola de Epicuro para se ligar à Academia. Clitomaco morre por volta de 110 e Fílon de Larissa sucede-lhe na direção da escola.

3. Fílon de Larissa. — Nasceu por volta de 145 a. C, chegou a Atenas com 24 anos e foi aluno de Clitomaco. Na altura da guerra entre Mitridates e os Romanos, deixou Atenas e refugiou-se em Roma em 88. Aí lecionou com grande sucesso e Cícero foi um dos seus auditores.

Não nos resta nenhum livro de Fílon de Larissa, mas Cícero, Estobeu e Santo Agostinho falam-nos elogiosamente do seu talento e do seu sucesso. Os historiadores da filosofia não se entendem sobre o modo de reconstituir a doutrina de Fílon de Larissa; Hermann e E. Zeller tiveram uma discussão sobre esse tema; quanto a nós, iremos seguir as conclusões de V. Brochard. Fílon acreditou na existência da verdade, mas recusou ao homem o direito de afirmar que tem a certeza de a possuir, nunca a verdade pode ser conhecida com certeza. A verdade foi escondida pela natureza, não podemos alcançá-la, mas devemos trabalhar no sentido de nos aproximarmos dela: «Não renunciamos», diz ele, «por fadiga, a buscar a verdade: todas as nossas discussões têm por único fim, pondo em oposição opiniões contrárias, retirar, fazer daí surgir uma faísca de verdade ou algo que dela se aproxime.» Dizendo que a verdade existe, Fílon parece afastar-se de Carnéades e aproximar-se de Platão. Acrescente-se que Cícero alude a um ensino esotérico que teria sido ministrado por Fílon, ensino sobre o qual só podemos conjecturar; Santo Agostinho, por exemplo, acreditava que os alunos de Fílon eram iniciados no tesouro escondido dos dogmas platônicos.

O filósofo, diz-nos Platão, assemelha-se ao médico: deve convencer o doente a aceitar os remédios e deve destruir o efeito das palavras daqueles que lhe querem dar conselhos contrários. O filósofo incita, indica os preceitos mais aptos a assegurar a felicidade e apresenta àqueles que não podem erguer-se até à perfeição bons conselhos, úteis para alcançar a retidão no juízo e a verticalidade na conduta.

Entre os alunos de Fílon de Larissa, cite-se Antíoco de Áscalon; abandonou rapidamente as ideias do seu mestre e acabou por se declarar inimigo da nova Academia. Foi amigo de Luculo e de Cícero.

Fílon de Larissa morre por volta de 85 a. C; como diz V. Brochard: «Depois de Fílon a nova Academia não parou de declinar. Antíoco passou-se para o inimigo. Os outros sucessores de Fílon não tiveram brilho. Fílon de Larissa foi o último acadêmico.» (Loc. cit., p. 208)

Podemos dizer, talvez, que depois de Fílon alguns latinos, entre os quais Cícero e Cota, perpetuaram a memória da Academia em Roma e que em Alexandria tiveram alguns adeptos como Heraclito de Tiro e Eudoro de Alexandria.