Ousia enquanto idea
BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.
1. A filosofia de Platão configura-se fundamentalmente como uma busca pelo ser do ente, assumindo ora a forma da investigação do ser ou da essência de uma realidade determinada, ora, como no Sofista, a forma mais geral da interrogação pelo ser do ente enquanto tal, e essa orientação não constitui uma peculiaridade platônica, mas exprime, na interpretação heideggeriana, a determinação própria da filosofia enquanto movimento de procura (Suchen) que se encaminha (unterwegs) para o ser do ente (Sein des Seienden), isto é, para o ente precisamente sob o aspecto de seu ser.
2. A filosofia propriamente dita nasce historicamente quando a questão essencial “o que é o ente?” passa a conduzir explicitamente a investigação do ser do ente, aparecendo relativamente tarde com Sócrates e Platão, enquanto Heráclito e Parmênides, considerados por Heidegger pensadores ainda maiores, permaneciam anteriores à própria filosofia porque pensavam em consonância originária (Einklang) com o Logos e com o Hen Panta, o “Um-Tudo”, sem que seu pensamento já tivesse ingressado no âmbito metafísico que posteriormente encobriria a verdade do ser.
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A grandeza de Heráclito e Parmênides não é entendida como superioridade de realizações doutrinárias, mas como pertencimento a uma dimensão mais originária do pensamento, anterior à constituição da filosofia como disciplina metafísica.
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A ausência de “filosofia” em Heráclito e Parmênides não representa deficiência alguma, mas indica que sua maneira de pensar ainda não havia sido capturada pelo domínio histórico da metafísica, no interior do qual a verdade do ser viria posteriormente a permanecer encoberta.
3. A transformação histórica que conduz do pensar pré-filosófico à philosophia manifesta-se na mudança de sentido do philosophein, pois, enquanto em Heráclito o amar (philein) significa concordar e corresponder originariamente ao Logos, permanecendo numa harmonia ou consonância (Einklang) em que pensamento e ser pertencem reciprocamente um ao outro, na filosofia inaugurada em reação à sofística esse acordo originário converte-se em esforço, desejo e busca dirigida ao ser e à verdade, passando o sophon — o ente no ser (das Seiende im Sein) — de presença imediatamente correspondida a objeto expressamente procurado (gesucht).
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O philosophein heraclítico caracteriza aquele que se harmoniza com o Logos e, portanto, com o próprio ser, sem que entre pensamento e ser se interponha ainda uma busca investigativa que os separe.
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A filosofia surge quando essa consonância originária é rompida pela sofística e a verdade já não se oferece numa correspondência imediata, exigindo que seja procurada, preservada e defendida contra a pretensão de um entendimento capaz de fornecer explicações prontamente compreensíveis para tudo.
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No philosophein filosófico já não domina a harmonia originária, mas o desejo, o esforço e a tensão interrogativa em direção ao sophon, sendo essa busca determinada por Eros.
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Filosofar passa, assim, a significar procurar incessantemente saber o que é o ente ou uma determinada realidade, sem possuir previamente aquilo que se procura, razão pela qual a filosofia se desenvolve sobre o fundamento de um não saber essencial.
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A situação propriamente filosófica encontra-se entre a posse plena do saber e a ignorância absoluta: os deuses não filosofam porque já sabem, quem possui efetivamente o saber tampouco precisa buscá-lo, e o ignorante completo não filosofa porque desconhece sua própria ignorância.
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A filosofia instala-se, portanto, na pobreza e na falta, como pesquisa inquieta do ser ou da entidade do ente, e essa busca atribui a cada vez ao ser uma determinação específica, fazendo com que a maneira platônica de compreender o ser se diferencie, por exemplo, daquela que posteriormente será estabelecida por Aristóteles.
4. O termo fundamental no qual se concentra o platonismo é idea, compreendida como o aspecto ou aparência (Aussehen) em que o ente se mostra como aquilo que é, de modo que Platão não encontra propriamente o ser ou a entidade do ente — a ousia — no ente sensível tomado em si mesmo, mas para além dele, na Ideia, que se converte no lugar em que o ser, no início histórico da filosofia, encontra abrigo e a partir do qual a tradição metafísica passa a determiná-lo.
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A Ideia não constitui inicialmente uma representação subjetiva existente na mente, mas aquilo no qual se torna visível o que uma coisa é em seu ser.
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A determinação platônica da ousia como idea desloca o fundamento ontológico do ente concreto para aquilo que lhe confere sua aparência essencial e inteligível.
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Esse deslocamento constitui uma decisão histórica fundamental porque estabelece o horizonte no qual a tradição ocidental posterior continuará a procurar o ser.
5. A Ideia designa em Platão o ser do ente não no sentido de sua simples existência factual, isto é, do fato de que ele seja, mas no sentido de sua essência ou quididade, daquilo que ele é enquanto tal, razão pela qual a multiplicidade das coisas particulares — belas, boas ou pertencentes a qualquer outra espécie — remete sempre a uma Ideia única que exprime aquilo que todas elas são em sua essência, como o Belo em si relativamente às coisas belas ou a Ideia de cama relativamente às camas particulares produzidas pelo artesão.
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A distinção decisiva estabelece-se entre afirmar simplesmente que uma coisa existe e perguntar o que ela é, sendo a Ideia resposta à segunda questão e não à primeira.
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A multiplicidade sensível pode conter inúmeros exemplares particulares, mas aquilo que constitui sua essência permanece uno: às numerosas coisas belas corresponde a Ideia única do Belo, assim como às diversas camas corresponde a essência una da cama.
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O artesão fabrica uma cama individual, mas não produz sua essência; ele trabalha tendo como referência aquilo que faz com que uma cama seja cama.
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A terminologia metafísica posterior conservará essa distinção ao denominar essentia a quididade e existentia a existência, embora a prioridade platônica recaia nitidamente sobre a primeira.
6. Ao caracterizar o ser como Ideia, Platão privilegia sua significação essencial em detrimento de sua significação existencial, prolongando e consolidando uma orientação já contida na forma socrática da pergunta “o que é?”, que procura apreender aquilo que uma coisa é em sua essência sem interrogar primeiramente se ela existe, de modo que a teoria platônica das Ideias não inaugura isoladamente esse essencialismo, mas leva à determinação ontológica explícita uma redução do ser à essência previamente preparada pelo questionamento socrático.
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A pergunta socrática ti esti dirige-se ao que a coisa é e, portanto, à determinação universal de sua essência, e não ao simples fato de sua existência.
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A transformação platônica do ser em idea consagra ontologicamente esse direcionamento ao fazer da quididade o lugar privilegiado do verdadeiro ser.
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A chamada teoria das Ideias deve ser compreendida, nesse horizonte, como resultado histórico de uma maneira de interrogar que já havia colocado a essência no centro da investigação filosófica.
7. A interpretação platônica do ser como idea torna-se decisiva para toda a história posterior do pensamento ocidental porque, em primeiro lugar, estabelece a matriz do idealismo metafísico segundo a qual o ser é procurado na Ideia, no ideal ou na dimensão inteligível, matriz que permanece dominante inclusive quando a filosofia pretende invertê-la ou combatê-la, como ocorre no positivismo e especialmente em Nietzsche, de modo que metafísica, idealismo e platonismo acabam designando estruturalmente a mesma orientação fundamental da filosofia ocidental.
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A culminação dessa tradição aparece em Hegel, para quem a realidade efetiva e o ser absoluto são concebidos como Ideia, embora a Ideia absoluta hegeliana já não seja a forma imediata e abstrata da Ideia platônica, mas o resultado de um desenvolvimento dialético.
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A concepção hegeliana segundo a qual a Ideia absoluta é ser, vida imperecível e verdade consciente de si mesma permanece historicamente enraizada na decisão platônica de compreender o ser a partir da Ideia.
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Mesmo as filosofias que pretendem inverter o platonismo continuam determinadas pela estrutura que combatem, pois substituir o inteligível pelo sensível ou o ideal pelo real não significa abandonar a oposição fundamental instaurada pelo próprio platonismo.
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O projeto nietzschiano de inversão do platonismo permanece, portanto, secretamente platônico porque conserva como horizonte determinante justamente a estrutura metafísica que procura subverter.
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A metafísica ocidental pode, nesse sentido, ser chamada de platonismo porque desde sua fundação procura o ser no âmbito da Ideia, ainda quando suas diversas figuras históricas produzem inversões, deslocamentos e contracorrentes relativamente ao modelo platônico.
8. Aristóteles representa uma exceção parcial no interior dessa história porque sua determinação do ser como energeia, entendida como ato ou efetividade, parece realizar um movimento de retorno à experiência grega mais originária do ser e afastar-se do predomínio platônico da Ideia, mas esse retorno somente se torna possível mediante o confronto com a determinação platônica da ousia como idea e, por isso, permanece também condicionado pelo horizonte aberto pelo platonismo.
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A metafísica aristotélica conserva, apesar da distância que a separa do começo do pensamento grego, um impulso de retorno à origem e apresenta-se sob certos aspectos como retomada daquele começo no interior da própria filosofia grega.
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Aristóteles pensa em determinado sentido de maneira mais grega do que Platão ao compreender o ser como energeia, mas somente consegue fazê-lo em oposição à caracterização platônica da ousia como idea.
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A filosofia aristotélica desenvolve-se, assim, simultaneamente a partir do platonismo e à sua sombra, sem poder simplesmente regressar a uma experiência pré-platônica intacta do ser.
9. Em segundo lugar, a interpretação platônica do ser como idea inaugura propriamente, segundo Heidegger, o acontecimento histórico da metafísica, pois é com essa interpretação (Auslegung) que começa a metafísica e se estabelece a estrutura determinante de toda a filosofia ocidental posterior, cuja história, de Platão a Nietzsche, coincide essencialmente com a história das transformações, desenvolvimentos e inversões da metafísica.
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Platão torna-se, nesse sentido, simultaneamente o primeiro filósofo em sentido estrito e o primeiro metafísico.
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O nascimento histórico da filosofia e o advento da metafísica coincidem porque a filosofia, desde sua configuração platônica, passa a interrogar o ente a partir de uma determinação do ser que privilegia a Ideia.
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A permanência dessa estrutura permite afirmar que toda filosofia posterior a Platão conserva, em seu fundo, uma determinação metafísica, ainda quando pretende ultrapassá-la ou inverter suas hierarquias.
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A história da filosofia permanece marcada pelo caráter metafísico recebido desde seu nascimento platônico e que continua operando até sua culminação e inversão em Nietzsche.
10. Em correlação com a inauguração da metafísica, a determinação platônica do ser como idea constitui uma etapa essencial no advento daquilo que Heidegger denomina niilismo, entendido fundamentalmente como esquecimento do ser (Seinsvergessenheit), pois no idealismo platônico o ser, ao ser interpretado a partir da Ideia e da entidade do ente, recua para a sombra, torna-se não pensado enquanto ser e permanece encoberto justamente pela determinação metafísica que pretende esclarecê-lo.
11. A compreensão adequada das consequências históricas do idealismo platônico — tanto a instauração da tradição metafísica quanto o desenvolvimento do niilismo — exige esclarecer previamente o sentido próprio da idea platônica no horizonte do pensamento grego, evitando projetar retrospectivamente sobre Platão o significado do idealismo moderno e permitindo determinar com maior precisão como a transformação do ser em Ideia pôde produzir simultaneamente a constituição da metafísica e o progressivo esquecimento do próprio ser.
