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1 Ciência

GADAMER, Hans-Georg. Plato’s dialectical ethics: phenomenological interpretations relating to the Philebus. New Haven , Conn.: Yale Univ. Pr, 1991.

Sobre a Dialética de Platão

Parte I: A Conversação e o Modo Como Chegamos a uma Compreensão Compartilhada

Seção 1: A Ideia de Ciência

1. O processo de alcançar uma compreensão compartilhada da coisa em questão através da conversação (Sachliche Verständigung im Gespräch) visa ao conhecimento, derivando tanto sua ideia quanto seu modo de realização da ideia de conhecimento e de ciência desenvolvida pela filosofia grega, sendo possível reunir, a partir de sua forma desenvolvida, os momentos produtivos de sua origem e o significado de seu aspecto dialógico; a abordagem do problema da dialética platônica a partir do rigoroso conceito aristotélico de episteme (conhecimento), a apodeixis (demonstração), em vez do conceito aristotélico de dialética — este último inequivocamente remetido, ainda que por radical reavaliação (na verdade, desvalorização), à dialética platônica e aos exercícios práticos da Academia —, encontra justificativa no fato, já reconhecido, de que a linha histórica de desenvolvimento corre diretamente da dialética platônica à apodítica aristotélica, permanecendo menos claro por que a dialética platônica, de gênese inequivocamente socrática no diálogo, constitui, historicamente, o estágio intermediário de um desenvolvimento que conduz precisamente à episteme aristotélica, a qual deixa para trás tanto a dialética quanto o diálogo — pois a ciência aristotélica caracteriza-se por dispensar todo acordo explícito de um interlocutor, sendo um mostrar fundado numa necessidade alheia ao acordo efetivo de outros, ao passo que a dialética vive da força do chegar-a-um-entendimento dialógico, sustentando-se a cada passo na garantia do acordo do interlocutor.

2. As análises que se seguem não retraçam o curso histórico do desenvolvimento do conceito de ciência — que tem seus paralelos, do ponto de vista da história das formas, na transição da conversação oral socrática, pelo diálogo platônico, até o diálogo discursivo aristotélico, terminando na pragmateia (tratado) aristotélica —, mas buscam tornar esse curso inteligível a partir de uma análise substantiva daquilo que liga, de modo unitário, o diálogo socrático e platônico à apodítica aristotélica.

3. O ponto de partida reside no reconhecimento de que, entre os gregos, a dialética não é fenômeno uniforme, podendo aparecer sob formas diversas, não coincidindo o que Platão chama de “dialética” — associada à figura de Sócrates — com toda a extensão do que vivia entre os gregos como dialética, sendo conhecida sua origem na crítica eleática dos sentidos, bem como a relação de Górgias com esta; a dialética possui, nesse sentido, caráter essencialmente negativo, não apresentando a própria realidade, mas buscando o que fala a seu favor e o que fala contra ela — isto é, tomando posição não pela explicitação progressiva do objeto visto, mantendo-o sempre à vista, mas desenvolvendo em si mesma todos os lados das explicitações através das quais encontra o objeto, envolvendo-as em contradições, de modo que sua distância do objeto venha à tona.

  • Toma tais explicitações como ponto de partida, formulando uma hipótese e desenvolvendo-a até consequências manifestamente impossíveis, para em seguida assumir o oposto e desenvolvê-lo também até que se cancele a si mesmo.
  • O objetivo desse exercício (gymnasia; Parmênides 135d) é, exibindo o que fala a favor de uma e de outra suposição, tornar acessível o próprio objeto.
  • A dialética relaciona-se a um ver do objeto que deve ser preparado precisamente pelo desdobramento dos ta dokounta (as aparências) — as formas sob as quais já o encontramos nas explicitações públicas incorporadas na linguagem — a fim de dissolvê-las, conseguindo, pela refutação, desnudar o campo do objeto, sem contudo dispor, em si mesma, de meios para provar positivamente os ta dokounta por referência ao objeto.

4. Nessa essência da dialética — caracterizável, com base nos relatos aristotélicos e com vistas aos eleatas (cf. também o Parmênides platônico) — descobre-se uma qualidade caracteristicamente positiva, sendo precisamente esta a contribuição platônica: a refutação zenoniana da multiplicidade e da unidade correspondente encontra aplicação universal a todo logos, pois o fato de que uma única criatura (por exemplo, um ser humano) possa ser designada como tal, e como tal de muitos modos — quanto a sua cor, figura, magnitude, caráter etc. —, torna-a um múltiplo (Sofista 251a), sem que isso coloque em questão a possibilidade de designar um ente como algo; antes, impõe a tarefa de justificar positivamente essa possibilidade.

  • Essa capacidade do logos de multiplicar o uno revela-se positiva pelo fato de o logos possibilitar que as pessoas alcancem compreensão compartilhada.
  • Há um tipo de discurso que revela progressivamente o objeto, designando-o continuamente como algo diferente, a despeito da contradição entre o uno e o múltiplo nele inerente — fato decisivo do qual a dialética, em sentido platônico, recebe alcance incomum.
  • Tudo o que é definido pelo logos, e está por isso dentro do âmbito sobre o qual um saber dispõe, obtém da dialética sua certeza vinculante, sendo toda ciência e toda techne (arte, habilidade) essa espécie de dialética positiva.

5. Disso decorre, por mais paradoxal que soe, que a dialética platônica não encarna a dialética contingente da discussão, o questionar e responder da synousia (o estar-junto, o encontro), com sua animação específica à situação, não significando sua apresentação por meios literários nos diálogos — mesmo nos tardios — que a forma dialógica se torne barreira que constranja a tendência platônica à exposição positiva, nem, inversamente, que o diálogo platônico tenha tomado o caráter da dialética exibida na Academia — o caráter da discussão prática — e lhe conferido certa uniformidade estilizada; o fato decisivo, antes, é que, no esforço de desvelar as coisas em questão, reconheceu-se no próprio diálogo socrático o meio — e o único meio — de alcançar postura verdadeiramente segura frente às coisas.

  • O diálogo socrático distingue-se de toda técnica de disputa por não ser um falar desordenado e disputativo que retoma e contrapõe argumentos ao sabor do momento, possuindo ele mesmo uniformidade estilizada.
  • Encarna, pela primeira vez, o que fundamentalmente distingue o logos da ciência: um discurso que exibe as coisas em sequência lógica (folgerichtig sachaufweisende Rede).
  • Não obstante a mudança em seu caráter negativo/maiêutico, é como desenvolvimento da positividade nele já inerente, e não contrariamente à sua própria natureza, que o estilo elêntico da conversação socrática se tornou o recipiente da doutrina platônica, caracterização brilhantemente formulada por Hegel ao descrever jovens e homens de tal temperamento que suprimiriam calmamente suas próprias reflexões e opiniões, nas quais o pensar por si mesmo (Selbstdenken) tanto se impacienta por se manifestar, para atender apenas à coisa em questão.

6. A intenção do esboço que se segue é, assim, tornar inteligível a derivação do conceito grego de ciência — que alcança sua forma madura na apodítica aristotélica — a partir da dialética platônica, mostrando sua origem substantiva na forma específica da condução socrática da conversação; o problema do Sócrates histórico permanece inteiramente à parte dessa questão, não sendo necessário tomar posição quanto à tentativa de Stenzel de demarcar o âmbito socrático dentro do platônico, uma vez que o empenho aqui reside em tornar fecunda a conexão entre diálogo e dialética também, e especificamente, para a compreensão da forma tardia da dialética platônica.

7. No início da Metafísica (A 1-2) descreve-se a gênese da ideia de ciência e seu enraizamento num motivo original do Dasein, recurso a um motivo situado no próprio Dasein que não tem caráter de explicação histórica da ciência nem de argumento justificativo em seu favor, mas torna inteligível o “fato da ciência” apenas como fato — mostrando como é o caso que algo para o qual a existência humana contém a potencialidade é a ciência; o horizonte não expresso dessa exposição é o de que todo Dasein está num mundo, e o está de tal modo que “tem” seu mundo, isto é, sempre já se encontra numa compreensão de si mesmo e do mundo em que vive.

8. Esse mundo em que o Dasein vive não é apenas seu entorno, mas antes o meio no qual realiza sua própria existência, mundo no qual o Dasein se implementa, o que significa também o mundo no qual se tem a si mesmo; toda autocompreensão é dada ao Dasein a partir de sua compreensão do mundo em que vive e que “compõe” e determina seu Dasein, sendo o cuidado (Sorge) mais primordial do Dasein estabelecer-se em seu mundo.

  • Realizar esse cuidado não tem caráter apenas de desempenho prático que provê algo, com a circunspecção (Umsicht) nele incluída, mas inclui igualmente, e de modo igualmente primordial, o puro ver daquilo que é.
  • Não é o caso que o Dasein, ao tornar-se familiarizado com seu mundo, se realize, primordialmente, apenas na circunspecção prática — na dissecção do mundo circundante que, ao manipulá-lo, o elucida e classifica quanto à sua utilidade para algo, em última instância para o próprio Dasein.
  • Estando o Dasein em casa em seu mundo, encontra-se sempre já munido de um saber sobre onde se encontra em relação a tudo, não apenas quanto a uma futura manipulação para fins de provisão, mas inteiramente à parte disso, tão somente para assegurar que nada desconhecido ou estranho permaneça no horizonte de sua visão.

9. Essa tendência primordial ao conhecimento como remoção de toda estranheza inquietante em torno de si revela-se, com clareza variável, na análise aristotélica, ao afirmar-se explicitamente que a preeminência da visão sobre os demais sentidos deve-se não tanto a seu funcionamento superior na circunspecção que guia o desempenho de tarefas, mas a seu desempenho superior em simplesmente nos familiarizar com o que existe e as múltiplas diferenças nele contidas, não igualando nenhum outro sentido a visão nesse aspecto, já que todas as coisas têm cor, de modo que, ao ver, as características comuns como figura, magnitude, número e movimento fazem sempre parte do que é visto (De sensu 437a3), sendo assim a visão o que mais contribui para familiarizar-nos com as coisas.

10. Essa mesma tendência ao conhecimento, como modo do cuidado do Dasein independente da capacidade de desempenhar tarefas cotidianas, exprime-se na capacidade característica para techne e logismos (arte e raciocínio), reservada, entre todas as criaturas vivas, ao Dasein humano: o trato com o mundo que provê coisas envolve um modo de ver que se desenvolve, por retenção na memória, em experiência (Erfahrung), retendo-se e reconhecendo-se o objeto como o mesmo a cada nova instância de desempenho, ao prover repetidamente pela execução da mesma tarefa, emergindo assim da multiplicidade de lembranças a unidade de uma capacidade, um estado de ter experiência.

  • O essencial em ter experiência está em que, pela retenção do que é o mesmo em cada caso, o ter feito algo muitas vezes conduz a uma circunspecção mais ampla.
  • A tendência do desenvolvimento dessa circunspecção dirige-se a um modo de ver que não apenas se comprova, de fato, em cada novo caso de desempenho de tarefa cotidiana, mas que sabe em geral, de antemão, o que fazer em todo caso possível do desempenho em questão.
  • Esse aprimoramento, ou elevação, da experiência ao nível da techne já não visa ao desempenho como tal, pois, para fins de provisão em casos individuais, não constitui aprimoramento algum, já que não desenvolve ainda mais a circunspecção que governa o próprio processo de provisão — podendo, aliás, quem se vale apenas de sua experiência ser o melhor praticante, e mesmo quem domina a techne não pode prescindir da experiência quando se trata da prática.

11. O que há de excelente na techne, em comparação com a experiência, não se manifesta na execução de um desempenho individual, mas consiste no fato de a techne ser conhecimento em sentido novo — não a capacidade, conforme a experiência, de escolher, diante da tarefa de produzir algo concreto, o meio certo e o momento certo para executar o processo, mas já dispor de antemão, e com segurança antecipada, sobre a execução para todo caso possível do desempenho em questão, o que significa que essa descoberta prévia e essa disposição descobriram e colocaram à disposição algo geral, em sentido mais estrito do que aquele em que a própria experiência é também capacidade geral — uma coisa única que, derivando de muitas coisas retidas, se tornou capacidade.

  • A generalidade dessa capacidade que acompanha a experiência comprova-se, em cada caso, apenas pela produção concreta: ao ver-se uma coisa individual no presente, vê-se ao mesmo tempo sua identidade de espécie (sua não-diferença) com muitas outras coisas vistas anteriormente.
  • A experiência funda-se, assim, na retenção de coisas passadas e no reconhecimento do retido como o mesmo no presente, ao passo que na techne alcança-se uma disposição antecipatória sobre o processo de produção, disposição geral que precede todo desempenho concreto de tarefa e não precisa ser demonstrada através dele.
  • Quem possui a techne não sabe apenas o que é o caso (que este doente aqui pode ser curado por este meio, tal como em casos anteriores), mas também por que é o caso (por que todas as pessoas doentes desse modo podem ser curadas pelo mesmo meio), dispondo-se sobre a produção dessas coisas porque seu saber se estende além da questão de como agir em cada caso.

12. O praticante desprovido de techne também pode chegar a seu curso de ação à luz do resultado que busca, sendo, nisso, igual ou mesmo superior, em autoconfiança prática, a quem sabe; essa autoconfiança pessoal e sua confiabilidade objetiva em acertar o alvo, contudo, não significam livre poder de disposição sobre a coisa a ser produzida: o praticante experiente sabe fazer o trabalho, mas não tem o poder de justificar o que sabe senão precisamente pelo sucesso em fazê-lo, tornando-se evidente que seu conselho é correto apenas quando posto à prova, já que seu saber, tal como foi obtido por tentativa e erro, também se comprova ao ser tentado, faltando-lhe a razão ou causa que sustentaria a ação para a qual sua experiência o dirige e justificaria a expectativa confiante de seu sucesso.

13. O praticante age como um médico, vendo o que falta ao doente — o que inclui uma antecipação da saúde da pessoa, do modo como deveria aparecer; o verdadeiro médico não age de modo diferente, mas sua compreensão dessa conexão é distinta: para ele, a saúde — o que ela é e como é — constitui a razão ou causa em que se funda sua ação, sabendo o que sempre constitui o estar saudável e, com base nisso, procurando identificar o que falta ao doente, formando para si um quadro da doença — que tipo de evento corporal de fato levou ao distúrbio — e, então, escolhendo um remédio com base nessa compreensão da natureza da doença e da natureza do remédio particular.

  • É apenas na medida em que age com base em tal compreensão que o médico age como quem sabe — isto é, que tem certeza antecipada de que sua ação curará o paciente, porque sabe o que a saúde sempre é e, desse saber antecipado, obtém a capacidade de identificar seus distúrbios e as possíveis vias de restauração.
  • Essa disposição sobre a razão ou causa é, primariamente, um saber daquilo em vista de que se realiza a tarefa; essa razão ou causa contém também a causa no sentido do eidos, ou forma (a aparência daquilo que há de ser produzido), a causa no sentido daquilo de que algo é feito (a matéria), e a causa no sentido do começo do processo de produção (onde se deve iniciar esse processo).
  • É precisamente a disposição antecipatória sobre a razão ou causa, desdobrada nesses quatro sentidos, que constitui o caráter geral e necessário da disposição sobre o processo de produzir coisas.

14. Sem necessidade de análise mais detalhada desse assunto (Metafísica A 3 e outros), importa reter que o conceito de techne já é governado por uma ideia de conhecimento que, em seu sentido mais característico, vai além do que a techne realiza na produção de coisas e no desempenho de tarefas, representando já um novo modo do cuidado do Dasein: ao estabelecer-se no mundo, o Dasein incluiu em seu cuidado a certeza de sua disposição sobre o mundo, manifestando-se esse cuidado pela certeza, primariamente, na techne, como disposição antecipatória sobre o que há de ser produzido, disposição caracterizada, em sua execução, pelo saber da razão ou causa desdobrada de modo quádruplo, estando o próprio ser do que é produzido sob nossa disposição através dessa disposição sobre suas causas.

  • Parte da tendência desse cuidado é obter, do mesmo modo, disposição sobre o ser de tudo o que existe — isto é, tendo descoberto e conhecendo a razão ou causa, compreender os entes com base nessa razão ou causa como o que sempre e necessariamente são —, surgindo assim o conceito verdadeiramente científico de ser dentro do horizonte primário da produção pela techne.
  • Na compreensão (inerente à disposição do Dasein sobre ele) daquilo de que e como algo é produzido, o ser do que é produzido é independente de sua presença factual na percepção sensível em qualquer momento dado.
  • Essa mesma tendência do Dasein à disposição certa sobre o mundo em que vive dá origem à ideia de theoria, saber do mundo baseado nas razões ou causas de seu ser; na fuga da ignorância, o motivo do conhecimento revela-se, independentemente de qualquer uso prático, como motivo separado e governante de um cuidado especial, ainda que este dependa, de fato, como precondição, da satisfação de todas as necessidades práticas do Dasein — não devendo, porém, a possibilidade de deter-se assim criada, o ócio (a schole) que por sua vez é pré-requisito da prática da theoria, ser interpretada como simples ausência de cuidado, sendo a ciência, a theoria, ela mesma um modo específico de realização do cuidado do ser-no-mundo, cuja precedência sobre as technai deve-se ao fato de o saber nela buscado não sê-lo em vista de nada mais, mas puramente em vista de sua própria realização de descoberta e conhecimento, por não ser aplicável em nenhum desempenho prático.

15. Também a techne não se caracteriza, em seu motivo mais primordial, pelo que a distingue das ciências teóricas (sua relação com a aplicação prática), mas pelo que tem em comum com elas: a capacidade de dar conta do porquê de algo dever ser feito e do porquê de dever sê-lo de determinado modo, com este material, por este meio (kata to logon echein autous kai tas aitias gnorizein, Met. 981b6), sendo o sentido primário do logos o ser responsável, dar conta no sentido de enunciar a razão ou causa.

  • O domínio de uma techne caracteriza-se, em sua execução, pela disposição antecipatória sobre a coisa a ser produzida, sob a forma de compreender e (em discurso explicativo) explicar a coisa a ser produzida em termos de suas razões ou causas.
  • Essa disposição sobre as coisas tem o caráter de universalidade e necessidade na medida em que a razão ou causa (ou o sistema delas, quando analisado) é universal e fornece razões necessárias válidas para todo caso possível do desempenho em questão — como, por exemplo, em vista da saúde (cuja aparência, ou eidos universal, é o que a arte médica tem em vista), um doente com determinado tipo de enfermidade deve ser tratado com remédios que restauram sua saúde.
  • Na execução da techne essa conexão é evidente, isto é, pode ser exibida em discurso; correspondentemente, nos casos em que o cuidado do Dasein se relaciona a tornar visíveis e a dispor sobre entes que não precisam ser produzidos, mas que existem por si mesmos, é a exibição das razões ou causas que explicam por que um ente desse tipo sempre e necessariamente é como é que confere disposição sobre ele, sendo o ente, ao descobrir-se e apropriar-se a razão ou causa enunciando-a, designado como algo que necessariamente é como é.

16. Na possibilidade de designar entes como coisas que necessariamente são como são radica-se a característica ensinabilidade que distingue a techne e a ciência da experiência prática, podendo o ser de algo conhecido com base em sua razão ou causa ser posto também à disposição de outras pessoas mediante a enunciação da causa.

  • O ser-para-o-objeto alcançado no conhecimento reivindica necessariamente ser comunicável, e é por isso também reivindicável, na direção inversa, pelo outro, de modo que, enunciada a razão ou causa, o ente se torna inteligível, em seu ser, para todos, tendo o discurso, como forma de realização do conhecimento, o caráter de tornar o ente disponível ao exibi-lo a si mesmo e aos outros, mantendo-se assim fixado em seu estado descoberto.
  • Todo dar razões ou causas pressupõe familiaridade com o ente para o qual as razões ou causas são dadas: o “que” precisa estar estabelecido antes que se possa perguntar significativamente pelo “porquê”, sendo o cuidado que acompanha o conhecimento um cuidado que diz respeito a dar razões ou causas, pressupondo a compreensão primária do ente como algo dado juntamente com a compreensão do mundo que faz parte da própria compreensão do Dasein.
  • A coisa para a qual as razões ou causas são dadas está à disposição de quem sabe, seja na certeza de sempre poder produzi-la, seja na certeza de sempre encontrá-la quando presentes suas razões ou causas, apropriando-se uma coisa como algo compreendido na medida em que se mostra que aquilo como que é compreendida pertence necessariamente à coisa assim compreendida (Met. Z 17), não sendo compreensível pelo logos da ciência o que não pertence necessariamente a um ente (cf. o exame do kata symbebekos, o acidental, Met. E 2).
  • Ao apresentar algo juntamente com suas razões ou causas, o discurso reivindica, de modo distintivo, afirmar algo universal e necessário sobre um ente individual, sendo, ao fazê-lo, de modo distintivo, um discurso que também deixa o outro falar.

17. No que se segue, contrasta-se a estrutura das asserções científicas, que dão razões ou causas, com as asserções pré-científicas, buscando a análise, valendo-se como fio condutor da função do outro no falar uns com os outros, esclarecer como o discurso científico se realiza como modo de chegar a uma compreensão compartilhada sobre a realidade, apreendendo com mais precisão a estrutura das asserções científicas — das asserções que dão razões ou causas —, preparando-se com isso também a base para trazer à luz o horizonte histórico em que o desenvolvimento da ideia de ciência entre os gregos alcançou clareza teórica, justificando-se assim também o uso dos conceitos explícitos aristotélicos de ciência e techne para esclarecer a doutrina platônica do logos.

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