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Kant

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979

Kant e Platão

1. Ao contrário do hábito de ver em Kant o filósofo antiplatônico por excelência, a referência a Platão está longe de ser rara em seus textos, e sua originalidade consiste em levar esse pensamento a sério apesar do clima intelectual de sua época, marcado pelo desdém de Voltaire e pela incoerência atribuída por Brucker a Platão.

2. Um primeiro indício dessa atitude aparece já na Dissertação de 1770, cujo próprio tema evoca o platonismo por herança da tradição melanctoniana, sendo a distinção radical entre sensível e inteligível a primeira tese que Kant reconhece e aprecia na filosofia platônica.

3. O grande mérito atribuído a Platão é ter sido o primeiro a perceber o enigma das matemáticas, compreendendo o lugar singular que ocupam entre as ciências por não conterem elemento empírico algum, ainda que Kant releia essa intuição platônica à luz de sua própria questão sobre os juízos sintéticos a priori, limitando assim o alcance do elogio.

4. O maior mérito reconhecido a Platão é ter indicado a verdadeira natureza do ideal moral, sendo a República lida como uma Ideia-limite de valor regulativo na esfera da liberdade, o que leva Kant a divergir de Brucker, que considerava ridícula a tese platônica sobre a participação do príncipe nas ideias.

  • Kant vê nessa elevação da contemplação da ordem física à ordenação segundo fins um esforço digno de respeito e de imitação
  • Kant também rejeita a interpretação teofânica das Ideias platônicas atribuída a Schlosser e Jacobi, que as reduziria a ídolos de veneração supersticiosa

5. A questão decisiva é saber qual erro torna a filosofia platônica inaceitável para um filósofo crítico, resposta que os Prolegômenos fornecem ao identificar três temas da crítica kantiana a Platão: a má dedução das Ideias, o salto ao suprassensível e a mistificação.

  • a expressão dedução mística chama atenção pelo caráter aparentemente contraditório dos termos empregados
  • o método regressivo empregado por Platão é reconhecido como legítimo, aproximando-se do próprio método kantiano, ainda que os resultados alcançados sejam considerados errôneos
  • a carta a Marcus Herz de 1772 confirma que Kant via na intuição espiritual da divindade a origem platônica dos conceitos puros do entendimento

6. A interpretação kantiana da reminiscência insiste no aspecto teológico da doutrina das Ideias, compreendendo-as como arquétipos no entendimento divino dos quais a alma humana guardaria apenas cópias, interpretação que deve mais à tradição agostiniana veiculada por Brucker do que a uma leitura direta dos diálogos.

7. O segundo reproche dirigido a Platão é o desprezo do sensível e o salto ao suprassensível, ilustrado pela imagem da pomba platônica que sonha voar melhor sem a resistência do ar, fuga que Kant atribui ao entusiasmo, aliás perdoável, pelas matemáticas.

8. Contrariamente a Platão, que partindo do exemplo matemático teria concluído que nada de sensível pode fundar conhecimento, a Crítica da razão pura sustenta que o caso das matemáticas é particular e que todo o nosso conhecimento provém da experiência.

9. O pensamento platônico desemboca necessariamente numa mística, como o comprova a observação de que Leibniz teria seguido os passos de Platão afastando-se, contudo, de seu sistema místico, o que revela que, para Kant, esse pensamento constitui antes um sistema arquitetônico do que um simples agregado.

  • as Reflexões chamam Platão de pai de todos os místicos, sobretudo dos místicos em filosofia
  • uma classificação kantiana distingue três graus de mística filosófica: Platão e os neoplatônicos, Malebranche, e Spinoza, sendo Platão considerado o mais moderado dos três

10. O exame das referências a Platão ao longo do desenvolvimento do pensar kantiano, tarefa já empreendida por Heimsoeth, confirma que não há evolução sensível na interpretação de Kant, pois elogios e críticas coexistem ao longo das últimas três décadas do século XVIII, revelando que a obra de Platão não é de modo algum determinante para o pensamento kantiano.

11. A Crítica da razão pura autoriza expressamente uma interpretação mais moderada da linguagem sublime de Platão, conforme a natureza das coisas, o que revela uma hermenêutica da liberdade bem distinta daquela que Schleiermacher formularia mais tarde, e que se explica pela concepção kantiana da história da filosofia, herdada em parte de Brucker mas subordinada a uma exigência arquitetônica de racionalidade que situa a origem da filosofia entre os gregos.

12. A interpretação mais moderada que Kant propõe conduz, no entanto, a três incoerências: a noção de Ideia oscila entre intuição intelectual, ideal moral e ideia arquitetônica sem que essas acepções se harmonizem; o uso das intuições intelectuais é ora condenado ora admitido conforme sirva ou não de método regressivo; e a mística platônica é simultaneamente condenada e oposta à simples especulação, evidenciando a ambiguidade fundamental do julgamento kantiano sobre Platão.

13. A associação recorrente entre Platão e Leibniz, herdada em parte do próprio Leibniz e reforçada pela leitura de Brucker, leva Kant a interpretar a monadologia leibniziana como um conceito platônico e a atribuir a ambos os pensadores um acordo quanto à inatismo e à harmonia preestabelecida, evidenciando que Kant compreende Platão antes através de esquemas leibnizianos do que por uma confrontação rigorosa e historicamente precisa, sinal, mais amplamente, da disjunção então vigente entre a filosofia e sua história.

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