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Benjamin Jowett

Introdução (resumo)

  • A temperança (sophrosyne) é um conceito grego central no Cármides, sem equivalente único em português, abrangendo moderação, modéstia, discrição e sabedoria ao mesmo tempo.
    • A palavra pode ser descrita como mens sana in corpore sano, a harmonia entre os elementos superiores e inferiores da natureza humana.
    • Na filosofia de Platão, a sophrosyne conserva um elemento intelectual, como também atestou Xenofonte nas Memorabilia, onde Sócrates a identificava com a sophia.
    • Em Aristóteles (Ética a Nicômaco, livro III), a sophrosyne já foi relegada à esfera da virtude moral, perdendo esse caráter intelectual.
  • Cármides, interrogado por Sócrates sobre o que é a temperança, oferece três definições progressivamente mais elaboradas, todas rejeitadas.
    • A primeira definição de Cármides é a quietude, refutada porque a rapidez e a agilidade podem ser tão nobres quanto a calma.
    • A segunda definição é a modéstia, derrubada por uma aplicação sofística de Homero: a temperança é boa além de nobre, e Homero declarou que a modéstia não é boa para o homem necessitado.
    • A terceira definição – fazer o que é seu – é atribuída por Sócrates a Crítias como seu provável autor, e é refutada porque o artesão que faz o calçado de outro pode ser temperante sem fazer o que é seu.
  • Crítias substitui Cármides no diálogo e propõe uma quarta definição, distinguindo fazer de agir com base em Hesíodo.
    • Crítias diferencia os termos gregos para fazer, agir e trabalhar, reservando ao trabalho e ao agir um sentido exclusivamente bom.
    • A definição resultante é que a temperança consiste em agir bem.
  • A quinta e sexta definições introduzem o elemento do conhecimento, culminando na ideia de temperança como ciência de si mesmo e do que se sabe e não se sabe.
    • Crítias, induzido por Sócrates, propõe que a temperança é o autoconhecimento.
    • Como toda ciência tem um objeto – a aritmética tem o número, a medicina tem a saúde –, questiona-se qual seria o objeto da temperança.
    • A sexta definição é que a temperança é o conhecimento do que se sabe e do que não se sabe.
  • A possibilidade de uma ciência da ciência é questionada por Sócrates com base na analogia das relações reflexivas.
    • Não há visão da visão, apenas de coisas visíveis; não há amor do amor, apenas de coisas belas.
    • O que é mais velho, mais pesado ou mais leve o é em relação a outra coisa, não em relação a si mesmo.
    • Mesmo que tal ciência reflexiva existisse, caberia ao grande metafísico determinar se o conhecimento do que se sabe implica necessariamente o conhecimento do que não se sabe.
  • Mesmo admitidas todas as concessões anteriores, uma ciência universal do conhecimento não produziria nenhum bem concreto, pois só o conhecimento do bem e do mal é capaz de gerar felicidade.
    • Crítias responde que a ciência do bem e do mal, assim como todas as demais ciências, seria regulada pela ciência superior do conhecimento.
    • Sócrates replica separando o abstrato do concreto e pergunta de que modo esse conhecimento conduz à felicidade da mesma maneira definida pela qual a medicina conduz à saúde.
    • A conclusão prática é que Cármides, por já ter descoberto a temperança, faria melhor em praticá-la do que se perder nas especulações de Sócrates.
  • O diálogo contém diversos elementos filosóficos e culturais de destaque que antecipam desenvolvimentos posteriores no pensamento de Platão.
    • O ideal grego da beleza e da bondade unidas – a bela alma no belo corpo – está realizado na figura de Cármides.
    • A medicina é concebida como ciência do todo e não apenas das partes, abrangendo a mente além do corpo, como sugerido na história do médico trácio.
    • A tendência da época às distinções verbais, atribuída a Pródico, e às interpretações paródicas de Homero e Hesíodo são características de Platão e de seus contemporâneos.
    • A noção de temperança como fazer o que é seu reaparece na República como definição de justiça, não de temperança.
    • A impaciência de Sócrates com qualquer definição de temperança que exclua o conhecimento percorre todo o diálogo.
    • Surgem aqui os primeiros esboços da metafísica e da lógica: a questão de se pode haver uma ciência da ciência, e a distinção entre o que se sabe e o fato de que se sabe algo (em grego, ha oiden e hoti oiden).
    • Platão já antecipa sua conclusão do Parmênides de que não pode haver uma ciência que seja ciência do nada.
    • A concepção de uma ciência do bem e do mal aparece aqui pela primeira vez, antecipando o Filebo e a República.
  • Cármides e Crítias são caracterizados de maneiras opostas, sem qualquer alusão às suas atuações históricas infames.
    • Cármides apresenta simplicidade e ingenuidade infantis, contrastando com os artifícios dialéticos e retóricos de Crítias.
    • Crítias é o homem de mundo com verniz filosófico, seguidor tanto de Sócrates quanto dos sofistas, e tem laços familiares com Sólon, como também aparece no Timeu.
    • O amor de Crítias pela reputação é descrito como tipicamente grego, contrastando com a humildade de Sócrates.
    • Segundo Xenofonte (Memorabilia, livro III), Cármides foi em certa época tão modesto que evitava falar na Assembleia – e tanto ele quanto Crítias viriam a se tornar dois dos trinta tiranos, embora nada disso transpareça no diálogo.
    • Cármides, com ingenuidade juvenil, frui a exposição de Crítias por Sócrates, percebendo que o guardião foi o verdadeiro autor da definição que tanto lhe interessa defender.
  • As definições de temperança progridem do popular ao filosófico, e nenhuma delas é mero jogo verbal.
    • As duas primeiras definições são simples e parcialmente verdadeiras, como os primeiros pensamentos de um jovem inteligente.
    • A terceira é uma contribuição real à filosofia ética, distorcida pela engenhosidade de Sócrates e mal resgatada por Crítias.
    • As definições restantes buscam introduzir o conhecimento e culminar na união de bem e verdade em uma ciência única – visão que não se realizará sob o nome de sophrosyne, mas no Filebo e na República.
    • Cármides já pratica a virtude do autoconhecimento que os filósofos tentam em vão definir com palavras – situação comparável à de um jovem perturbado por dificuldades teológicas a quem se diz: não se preocupe com essas questões, apenas leve uma vida boa.
  • O Cármides é situado entre os primeiros diálogos platônicos por razões de brevidade, caráter socrático e ausência de doutrinas maduras.
    • O Cármides, o Lisis e o Laquetes partilham brevidade, simplicidade e um papel central da juventude.
    • São diálogos de busca (peirastikai), sem conclusão, de caráter erístico ou socrático.
    • Neles estão ausentes noções caras a Platão como a doutrina da reminiscência, a teoria das ideias e a questão de se a virtude pode ser ensinada.
    • Têm uma beleza e graça juvenis que faltam aos diálogos dos períodos médio e tardio.
    • Nenhuma ordenação dos diálogos platônicos pode ser estritamente cronológica, sendo a ordem adotada destinada principalmente à conveniência do leitor.
  • A relação entre conhecimento e virtude atravessa outros diálogos platônicos, e a oposição entre conhecimento abstrato e particular no Cármides tem paralelos em obras posteriores.
    • As relações entre conhecimento e virtude reaparecem no Lisis, no Laquetes, no Protágoras e no Eutidemo.
    • A oposição entre conhecimento abstrato e particular no Cármides é comparável à oposição entre ideias e fenômenos nos prólogos do Parmênides, embora esta pareça pertencer a uma fase mais tardia da filosofia de Platão.
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