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78C-79D — Objeto do saber é imutável, o da sensação mutável

Phédon, 78c-79d, trad. M. Dixsaut, GF-Flammarion, 1991, p. 240-242.

— Então, disse Sócrates, voltemos ao ponto em que havíamos chegado em nosso raciocínio anterior. Essa essência — cuja maneira de ser é que estamos descrevendo com precisão, tanto quando questionamos quanto quando respondemos —, será que ela se comporta sempre da mesma forma, permanecendo fiel a si mesma, ou será que ora é assim, ora é de outra maneira? O igual (45) em si mesmo, o belo em si mesmo, o “o que é” cada coisa em si mesma, o verdadeiramente existente, será que isso pode alguma vez acolher em si uma mudança, seja qual for essa mudança? Ou então, como o que cada um desses seres é comporta em si e por si uma forma única, isso não permanece sempre semelhante a si mesmo, sem acolher em nenhum momento, em nenhum ponto, de nenhuma maneira, nenhuma alteração? — Que permaneçam semelhantes e iguais a si mesmos é uma necessidade, Sócrates — respondeu Cebes.

— E quanto às múltiplas coisas que são belas, homens, cavalos, vestimentas, por exemplo, ou quaisquer coisas do mesmo gênero que possam ser consideradas iguais ou belas; enfim, quanto a todas aquelas que são designadas pelo mesmo nome que os seres de que falo? Elas permanecem as mesmas? Ou, ao contrário desses seres, elas nunca são, por assim dizer, de forma alguma as mesmas, nem em relação a si mesmas nem nas relações que as ligam umas às outras? — No caso delas, disse Cebes, acontece o seguinte: elas nunca permanecem semelhantes.

— Ora, algumas delas, você pode percebê-las ao mesmo tempo pelo tato, pela visão e por todos os outros sentidos; mas as outras, aquelas que permanecem iguais a si mesmas, é absolutamente impossível apreendê-las de outra forma que não seja pelo ato de raciocínio próprio da reflexão; pois são invisíveis, as realidades desse tipo, elas não se revelam à vista. — Isso é perfeitamente verdade, disse ele.

— Suponhamos, então, se você não se importa? duas espécies entre as coisas que existem: uma que se pode ver, enquanto a outra é invisível.

— Suponhamos, disse ele.

— Suponhamos também que aquela que é invisível é sempre igual a si mesma, enquanto aquela que se pode ver nunca o é.

— Suponhamos isso também, disse ele.

(…)

— Mas esse ponto, não o havíamos justamente (46) estabelecido já há algum tempo, quando dizíamos: sempre que alguém recorre ao corpo para examinar algo, utilizando seja a visão, seja a audição, seja qualquer outro sentido (por “recorrer ao corpo” entendo: “utilizar os sentidos para examinar algo”), então ela é arrastada pelo corpo na direção daquilo que nunca permanece senão a si mesmo, e eis que ela fica à mercê da errância, da confusão, da vertigem, como se estivesse embriagada, tudo isso porque é com esse tipo de coisa que ela está em contato?

- Sim, absolutamente.

- Quando, ao contrário, é a própria lâmina, e somente por si mesma, que conduz seu exame, ela se lança para lá, em direção ao que é puro e que é sempre, que é imortal e sempre semelhante a si mesma? E como ela está ligada a esse modo de ser, permanece sempre em sua companhia, sempre que, concentrando-se em si mesma, isso se torna possível para ela. Fim, então, de seu vagar: na proximidade desses seres, ela permanece sempre semelhante a si mesma, já que está em contato com eles. Esse estado da lâmina é, de fato, o que chamamos de pensamento?

- É realmente muito belo e muito verdadeiro o que você diz, Sócrates.

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