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Robert Wardy
WARDY, Robert. The birth of rhetoric: Gorgias, Plato and their successors. London: Routledge, 1998.
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A resposta de Platão a Górgias no diálogo homônimo consiste em uma reafirmação enfática do ideal parmenídico, opondo a dialética filosófica, como uma investigação racional superior, à retórica, que é severamente criticada como mera manipulação emocional exploradora.
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No diálogo, Sócrates força Górgias a admitir que a retórica visa a persuasão de multidões ignorantes (ochloi), sendo incapaz de ensinar verdades sobre justiça e injustiça em pouco tempo, o que a torna uma habilidade voltada para a crença falível, não para o conhecimento.
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A definição que ecoa através dos séculos é apresentada: a retórica é a “artífice da persuasão” (453A2), cujo poder reside em “produzir persuasão na psique dos ouvintes” (453A4-5), operando sem o fundamento do conhecimento.
O diálogo platônico, como ficção filosófica, não deve ser lido como um veículo para doutrinas ou mensagens do autor, uma vez que Platão deliberadamente abre mão da asserção direta para frustrar a aceitação passiva do que é dito pelas personagens.-
Atribuir os argumentos de Sócrates diretamente a Platão é um erro que reduz o diálogo a um ornamento ou uma ofuscação perigosa, ignorando que apenas pessoas, não personagens de ficção, são capazes de asserção.
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O leitor ideal platônico é constantemente questionador, e o diálogo serve como um modelo para gerar um diálogo mental próprio, no qual o leitor se compromete ativamente com o trabalho filosófico, aproximando-se do ato da escrita.
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A recusa de Platão em se comunicar diretamente estabelece a oportunidade para uma comunicação indireta e filosoficamente desafiadora, onde o que é comunicado não é uma lição doutrinária, mas um forte encorajamento para superar a frustração e buscar soluções próprias.
A concepção gorgiana de logos como um poderoso déspota (dynastês) que exerce persuasão/compulsão sobre a psique passiva é contestada por Sócrates, que introduz a noção de uma persuasão auto-reflexiva e de uma competição filosófica em prol da verdade.-
Górgias representa a persuasão como uma relação assimétrica e exploradora, onde o orador ativo escraviza a multidão passiva, enquanto Sócrates apresenta a dialética como um esforço conjunto entre parceiros em benefício do próprio logos e do conhecimento compartilhado.
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Sócrates admite competir, mas não contra o interlocutor e sim contra a obscuridade do assunto; a refutação não é uma vitória pessoal, mas uma vitória da verdade, onde derrotado e vitorioso compartilham os espólios da descoberta.
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A passagem que descreve a persuasão que Sócrates exerce sobre si mesmo (“eu me persuadi”) lembra o leitor da possibilidade de uma persuasão não enganosa, contrastando com a persuasão retórica que visa enganar os tolos.
A crítica de Platão à retórica democrática ateniense baseia-se na suposta impossibilidade de educar verdadeiramente as massas e na alegação de que existe uma “persuasão instrutiva” na política, a qual o retórico, que não possui conhecimento, não pode oferecer.-
Sócrates afirma que o orador competente não pode ensinar grandes questões éticas e políticas a uma multidão em pouco tempo, mas apenas persuadi-la, o que condena a prática judicial e política participativa ateniense como desprovida de verdadeira educação.
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A estratégia básica do Górgias real de ser lúdico (jeux d'esprit) é recusada pela seriedade platônica, que opera sob uma presunção racionalista de que o logos (variedade racional) deve ser onipresente no discurso e na realidade.
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A alegação de Sócrates de que o orador só brilha diante do ochlos (multidão) porque um ignorante tem vantagem entre os igualmente ignorantes é baseada na suposição de que a autoridade retórica apela, ou finge apelar, unicamente ao intelecto.
O intelectualismo radical de Sócrates, que sustenta que o conhecimento é suficiente para a virtude, leva Górgias a uma incoerência fatal: se ele ensina valores morais ao retórico, este, por conhecer o justo, não pode cometer injustiça, contradizendo a alegação inicial de que o aluno poderia perverter a retórica.-
Sócrates articula a hipótese contra-intuitiva de que o conhecimento é suficiente para a virtude, extraindo de Górgias a concordância de que quem aprende o justo se torna justo e, portanto, age justamente.
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Górgias, como campeão da dynamis (poder/capacidade), não pode admitir que seu logos seja impotente para reformar valores, mas ao insistir que pode ensinar a moral, compromete-se com a conclusão de que seu aluno treinado não pode abusar de sua dynamis.
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A inconsistência final é que Górgias defendia-se como um professor íntegro ao conceder que seus alunos poderiam usar a retórica para fins pervertidos, mas agora emerge que o retórico treinado, por conhecer os valores próprios, não pode abusar de seu poder.
A refutação dialética socrática opera por meio da coerção lógica, distinta da compulsão retórica, e visa ao bem comum do conhecimento, mas é frequentemente mal interpretada por seus interlocutores como uma forma de violência pessoal e humilhação, devido à sua adesão a valores convencionais.-
Sócrates afirma que a refutação retórica, que usa testemunhas hostis de boa reputação, é inútil para a verdade, enquanto a refutação dialética se submete apenas à força do argumento, que liberta ao invés de aprisionar, confinando o indivíduo dentro dos limites da verdade.
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Cálicles acusa Sócrates de ser um “demagogo” e acusa Polus de ter sofrido (pathos) o mesmo que Górgias: ser forçado (anankasthēnai) a se contradizer, percebendo a argumentação como uma armadilha que amarra e amordaça o indivíduo passivo, em vez de preservar a segurança da verdade.
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A vergonha (aidos) desempenha um papel crucial nas refutações, levando interlocutores como Pólo e Cálicles a cederem, não por convicção lógica, mas por constrangimento social, o que levanta a questão sobre se o elenchos (exame refutativo) pode ser viciado por sentimentos que deveriam ser racionalmente ignorados.
Sócrates é retratado por Platão como possuindo poderes mágicos de encantamento através de seus logoi, uma ambiguidade não resolvida que ecoa a caracterização gorgiana do logos como feitiço, mas que é redimida por seu compromisso com a verdade e a melhoria da alma.-
Embora Sócrates se esforce para negar a analogia entre a medicina somática e a retórica psíquica, classificando esta última como mera lisonja (463B1), ele é frequentemente acusado por seus interlocutores, como Mênon e Alcibíades, de exercer magia e feitiçaria sobre eles.
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Alcibíades compara Sócrates ao sátiro Marsias, afirmando que ele alcança o mesmo efeito de encantamento (215C1) com seus logoi nus, jogando sua psique em completa perturbação emocional, correspondendo à descrição do Encomio sobre os efeitos do logos sobre Helena.
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Platão não emite uma condenação direta dessa dynamis ambígua e sedutora que ele retrata como magia, deixando uma ambiguidade que o leitor ativo deve resolver, em vez de fornecer uma resposta doutrinária pronta.
Sócrates apresenta a si mesmo como o único político verdadeiro de Atenas, pois seu compromisso inabalável com um logos capaz de fazer o bem aos cidadãos, através da dialética privada, subverte completamente a concepção convencional de poder político baseada na retórica.-
Sócrates argumenta que políticos atenienses bem-sucedidos, como Péricles e Temístocles, foram na verdade fracassos abjetos porque não melhoraram os cidadãos, ao contrário, sofreram a hostilidade popular, o que prova que não dominavam nem mesmo a retórica falsa.
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A conclusão chocante é que Sócrates, talvez sozinho entre os atenienses, é um verdadeiro político (521D6-E1), pois é único em seu compromisso com um logos capaz de fazer o bem aos seus concidadãos, legitimando o discurso privado da dialética como o único tipo autenticamente político.
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Se a ideia de Górgias sobre o “logos, o grande déspota” tornou questionável a base retórica das instituições democráticas atenienses, a apresentação platônica da política filosófica é um desafio não menos radical, legitimando o discurso privado da dialética como o único tipo de conversa autenticamente política.
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