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Émile Chambry

TEXTO ORIGINAL

  • Sócrates narra a conversa do dia anterior no Pireu, na casa de Polemarco, filho de Céfalo, na presença de Céfalo, Lísias, Eutidemo, Trasímaco de Calcedônia, Carmântida de Peaneia, Clitofonte, Adimanto e Glauco.
    • Céfalo, ali para um sacrifício doméstico, ficou pouco tempo com os presentes.
    • A conversa se inicia quando Sócrates, repreendido por suas visitas raras, conduz o diálogo para o tema da velhice.
    • Céfalo afirma que a velhice lhe é suave, pois, nas palavras de Sófocles, ao apaziguar a fúria dos sentidos, ela liberta o homem.
    • Sócrates sugere que a riqueza de Céfalo explica sua serenidade, ao que o velho responde que a riqueza só auxilia os sábios, sendo seu maior benefício afastar os temores do além.
    • Surge então a questão: seria a justiça definida como dizer a verdade e devolver a cada um o que lhe pertence?
    • Polemarco intervém invocando Simônides, e Céfalo retira-se, deixando o filho como “herdeiro do discurso”.

Sócrates e Polemarco

  • O debate entre Sócrates e Polemarco, de tom cortês, examina a definição de justiça proposta por Simônides e a decompõe até revelar suas contradições internas.
    • Simônides, tratado como poeta sábio e divino que fala por enigmas, teria dito que se deve dar a cada um o que lhe convém: bem aos amigos, mal aos inimigos.
    • Sócrates demonstra que esse princípio, aplicado ao caso do justo, torna a justiça útil apenas para guardar o que não se usa, diminuindo seu valor.
    • O mais hábil em guardar seria igualmente o mais hábil em roubar, levando à conclusão paradoxal de que a justiça seria a arte de roubar para servir os amigos e prejudicar os inimigos.
    • Tal conclusão ecoa o Hípias Menor, onde Sócrates forçava Hípias a admitir que o homem bom é aquele que comete voluntariamente a injustiça.
    • A discussão avança para o conceito de amigo: como nos enganamos ao tomar maus por amigos e bons por inimigos, propõe-se chamar amigos os que são bons.
    • Sócrates refuta que o justo possa fazer mal a alguém, pois assim como cães ou cavalos não melhoram sendo espancados, o homem prejudicado não melhora em sua virtude, que é a justiça.
    • A máxima “fazer bem aos amigos e mal aos inimigos” é atribuída não a sábios, mas a Periandro, Perdicas, Xerxes, Isménias tebano, ou a qualquer um que se julgue todo-poderoso por ter muito ouro.
    • O argumento resgata a polêmica do Górgias, onde Sócrates contesta a Polo que ser todo-poderoso seja poder matar, espoliar ou exilar quem se queira.

Trasímaco

  • Trasímaco, que durante toda a discussão anterior se continha com dificuldade, irrompe furioso como uma fera e exige que Sócrates abandone o jogo de perguntas e respostas e apresente uma definição precisa.
    • Proibindo definições por termos como conveniente, útil ou vantajoso, Trasímaco aceita expor sua própria concepção de justiça apenas após ser abrandado pelas súplicas de Sócrates e da assistência, além de sua própria vaidade.
    • A discussão que se segue, a mais longa do Livro I, é dramaticamente pontuada por um debate entre Clitofonte e Polemarco, por uma violência grosseira de Trasímaco seguida de um “banho de eloquência” e uma falsa saída, por um breve diálogo entre Sócrates e Glauco sobre o fardo do poder para os homens de bem.
    • Trasímaco, comparado a um touro desencadeado, esgota-se diante da calma implacável de Sócrates: sua entrada em cena, tumultuosa como a de um advogado de tribunal, termina em rendição, e ele permanece silencioso e apaziguado num canto.
    • Sua presença posterior no diálogo reduz-se a uma menção no meio da grande apologia do filósofo, quando Sócrates declara: “Ah! não me indisponham com Trasímaco, pois somos doravante amigos e nunca fomos inimigos.”
    • Glauco considera sua retirada precipitada e fácil demais, embora reconheça que a tese de Trasímaco não é original, sendo banal e repetida por milhares de outros.
    • Diferentemente do Górgias, onde Cálicles reveste a tese do direito do mais forte com grandiosidade romântica do super-homem em revolta, aqui a tese é despida de toda poesia, reduzida à questão de vantagem e interesse.
    • O próprio Sócrates enuncia o núcleo da questão: trata-se de saber de que forma se deve viver para viver com o maior proveito, e se a injustiça é mais vantajosa que a justiça.

Natureza e valor da Justiça

  • Trasímaco define a justiça como a vantagem do mais forte, e Sócrates decompõe essa definição em sucessivas refutações que conduzem à tese oposta.
    • Se o mais forte pode enganar-se sobre seu próprio interesse e legislar mal, o governado que obedece agiria contra o interesse do mais forte: Trasímaco responde que o técnico verdadeiro é por definição infalível, cometendo falha apenas quando deixa de ser técnico.
    • Sócrates replica que nenhuma técnica busca seu próprio bem, pois este lhe é intrínseco quando sã e perfeita; ela busca apenas o bem do sujeito a quem se aplica, de modo que o médico, o piloto e o governante visam ao bem dos governados, não ao próprio.
    • Trasímaco compara os governantes a pastores que engordam ovelhas para seu próprio proveito, concluindo que a justiça é vantagem real do forte que manda e prejuízo do fraco que obedece, sendo o tirano, realizador da injustiça integral, invejado até por quem o censura.
    • Sócrates demonstra que toda técnica exige remuneração suplementar, pois sua eficácia própria é consagrada ao bem do sujeito; governar é exercido no interesse dos governados, e os honestos só aceitam o poder para evitar ser governados por maus.
    • Numa cidade de pessoas honestas, ser simples governado suscitaria tanta disputa quanto hoje ser governante.
    • Trasímaco sustenta que a injustiça é sabedoria e virtude, especialmente quando subjuga cidades e nações, mas Sócrates retorque que nenhum técnico age para superar todos os outros: o músico não tensiona as cordas além do ponto que o técnico perfeito tensionaria.
    • Uma cidade, um exército ou uma quadrilha de ladrões só alcança seus fins injustos se preserva entre seus membros suficiente justiça para mantê-los em harmonia: a justiça é condição indispensável de harmonia e poder no grupo e em cada um de seus membros.
    • Cada coisa tem sua obra própria e necessita da virtude adequada para realizá-la: a obra própria da alma é pensar, deliberar e viver, e sua virtude própria é a justiça; portanto, a alma injusta vive mal e infeliz, enquanto a alma justa vive bem e é ditosa.
    • Essa conclusão é declarada prematura pelo próprio Sócrates: antes de decidir se a injustiça é mais vantajosa, era preciso responder à questão deixada sem solução em que consiste a justiça.

O Livro I e a crítica

  • O Livro I da República dá a impressão de diálogo acabado, o que levou a crítica, pelo menos desde Hermann, a inferências que chegam ao extremo de supor sua existência independente como diálogo autônomo intitulado Trasímaco.
    • Ferdinand Dümmler, primeiro a propor o título Trasímaco para o suposto diálogo, recusava-se a considerá-lo completo tal como se apresenta, argumentando que uma apologia platônica da justiça sem ao menos uma abertura para as recompensas do além é inimaginável.
    • Dümmler julgava também que a comparação inevitável com o Górgias prejudica o Livro I, e por isso propunha que o Trasímaco fosse anterior ao Górgias, o qual seria citado apenas uma vez e após o fato, segundo seu argumento.
    • Von Arnim retomou e ampliou essa comparação, acentuando a inferioridade do Trasímaco em relação ao Górgias.
    • A mesma impressão de obra acabada acometeria o leitor do Górgias se este fosse dividido em dois livros e o leitor tivesse apenas o primeiro, encerrado após a disputa entre Sócrates e Polo: faltaria a maior metade do diálogo, a mais trágica e bela, mas o tema aparentaria tratamento suficiente.
    • A suposta inferioridade do Livro I só existe como tal se se tem o direito de compará-lo ao Górgias como unidades da mesma ordem, o que pressupõe já provada a existência independente do Trasímaco.
    • A independência do Livro I não conta com nenhum testemunho antigo; o único argumento restante é estilístico.
    • Desde as Untersuchungen de Ritter, a juventude estilística do Livro I em relação aos demais é fato estabelecido, e Lutoslawski reuniu numa página clara as particularidades do estilo tardio ausentes desse primeiro Livro e comuns a todos os seguintes.
    • Essa juventude relativa não prova necessariamente a existência independente: Platão pode ter concebido o Livro I desde o início como prelúdio da República, tendo em mente o plano geral, as ideias mestras e as grandes divisões, sem estar pronto para preencher completamente o quadro.
    • Os críticos que admitem publicação por frações sucessivas dos Livros II-X, com intervalos de alguns anos, não deixam de afirmar sua unidade e continuidade de plano, e nada impede que essa continuidade englobe o Livro I.
    • O Livro I adapta-se admiravelmente aos demais, sendo-lhes prefácio exemplar: formula a questão fundamental, apresenta os futuros grandes papéis, semeia discretamente as ideias que formarão a estrutura da obra, e prepara-a tanto por seus silêncios e lacunas quanto por suas sugestões.
    • Explicar tudo isso por uma adaptação posterior equivaleria a exigir que Platão tivesse reescrito inteiramente o Trasímaco primitivo.
    • Quanto à suposta anterioridade do Livro I em relação ao Górgias, os esforços de von Arnim nesse sentido deixaram incrédulos os especialistas: o método estilístico, fundado na proximidade linguística com as Leis, perde segurança à medida que se afasta desse termo de referência e nos primeiros diálogos só pode constituir grupos.
    • Isolado do todo que prepara, o Livro I parece inferior ao Górgias onde é simplesmente diferente; e quanto mais se aproximar do Górgias por sua data, mais se justificará por não querer parecer-lhe, mesmo que pretendesse ser um diálogo completo e autossuficiente.
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