Néstor Luis Cordero
GREDOS. Diálogos de Platón.
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O Sofista foi escrito provavelmente entre 367 e 362 a.C., entre a segunda e a terceira viagem de Platão à Sicília, integrando, junto com o Parmênides, o Teeteto e o Político, uma tetralogia ligada não apenas por certa continuidade na ficção — da qual o Parmênides ficaria excluído — mas também por um enfoque que se poderia denominar “crítico” em relação aos diálogos anteriores.
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No Parmênides, em que Sócrates ainda é jovem, a teoria das Formas é submetida a uma crítica impiedosa, e três quartos do diálogo destinam-se a mostrar que o filósofo deve dedicar-se a uma “ginástica” de raciocínios.
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No Sofista, recoloca-se o problema da estrutura do âmbito das Formas e reivindica-se a “existência” do não-ser, o que implica uma nova concepção também do ser.
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No Político, assiste-se a um brilhante exercício de metodologia e a uma nova definição do papel do legislador na sociedade.
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O Sofista é, sem dúvida, o diálogo mais enigmático da tetralogia, e as incógnitas começam já pelo título.
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Desde a Antiguidade foi acrescentado o subtítulo Do Ser, o que levanta a questão sobre o verdadeiro tema do diálogo: o sofista ou o ser?
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Um leitor otimista responderia: ambos; um crítico pessimista diria: nenhum dos dois, pois o tema é o não-ser; um observador imparcial reconheceria que as duas posições são corretas, já que o Sofista se ocupa do ser, do não-ser, do sofista e de muitas outras coisas.
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Uma leitura rápida do resumo proposto na edição — cujo único objetivo é permitir que o leitor, depois de familiarizado com o diálogo, possa localizar a discussão que deseje aprofundar — evidencia que, fiel ao seu título, a obra começa com uma série de definições do sofista, abrangendo quase um terço do diálogo, e que a conversa deriva em seguida para outras latitudes: análise do valor das imagens, comunhão das Formas, refutação de Parmênides.
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Há evidentemente um fio condutor que leva, até com certo suspense, de um problema a outro, mas o percurso geral é demasiado sinuoso.
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Todos os estudiosos consideram que o diálogo tem pelo menos duas partes: a dedicada às definições do sofista, com uso exclusivo do método da divisão, e a referida à comunhão dos gêneros e ao não-ser; mas, após assinalar a dificuldade de compatibilizar as etapas dispersas, terminam por elogiar a unidade da obra.
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Sem pretender originalidade, os organizadores da edição afirmam não encontrar unidade alguma no Sofista.
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O diálogo registra talvez os desenvolvimentos mais depurados e definitivos de Platão, os que mais influenciaram seus sucessores e ficaram como aquisições básicas da história da filosofia, independentes até de seu próprio sistema ontológico — entre eles, a definição da essência pela identidade e a diferença, ou a relação entre negação e falsidade.
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Porém isso não chega a justificar a apresentação de sete definições do sofista, uma das quais, a sexta, nega o que as outras afirmaram, a ponto de o Estrangeiro ser obrigado a indicar a Teeteto que o indivíduo que acabou de descrever, embora pareça um filósofo, é um sofista (230e).
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Essa observação denota um problema dos intérpretes, não de Platão; até hoje não se ofereceu uma explicação satisfatória do objetivo e da composição dos diálogos platônicos.
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O livro I da República foi escrito como obra independente do restante? Por que Parmênides não sustenta teses “parmenídeas” no Parmênides? A que se deve o eclipse parcial de Sócrates em alguns diálogos e total em outros? Platão subscreve a cosmologia apresentada no Timeu por um pitagórico?
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Certamente um contemporâneo de Platão não teria se colocado essas perguntas, pois conhecia as respostas.
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Da perspectiva dos intérpretes modernos, várias incógnitas subsistem no Sofista.
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Por que perguntar a um estrangeiro como veem em sua pátria o sofista, se a definição há de ter valor geral? Por que fazer com que um eleata refute Parmênides? Por que há uma personagem, Sócrates o Jovem, que assiste à cena e nunca fala? Por que, diante de Sócrates, o Estrangeiro trata de “sofista” quem pratica o método… socrático?
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A vítima do parricídio seria então Sócrates e não Parmênides? Por que nunca é citado Melisso, verdadeiro autor da tese monista criticada com tanta veemência?
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As definições do sofista parecem obedecer pura e simplesmente — como no caso do Político — a um exercício do método da divisão.
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É verdade que esse método mostra a relação entre gêneros e espécies, que cada etapa da divisão separa o universo do discurso em duas espécies “complementares”, uma “diferente” da outra, e que Platão retomará todos esses elementos na parte substancial do diálogo; mas, se a unidade do diálogo residisse nesse “adiantamento” de noções na primeira parte da obra, uma única definição teria bastado — a quinta, por exemplo, que apresenta o problema da falsidade.
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Esses mesmos aportes Platão os extrai de sua revisão dos sistemas anteriores ao seu, que já fazem parte da seção dedicada ao não-ser.
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Em resumo, enquanto não se estiver a par dos meandros da vida intelectual dentro da Academia, toda resposta sobre a “unidade” do Sofista poderá consolar o intérprete, mas nada acrescentará à riqueza de uma obra que é o melhor exemplo “ao vivo” da tarefa filosófica, com suas idas e vindas, seus atalhos e sua obsessiva busca da verdade.
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Por essa razão, os organizadores da edição decidiram não comentar na Introdução os momentos fundamentais do diálogo, o que resultaria numa série de quadros a visualizar um após o outro, como numa exposição, optando em vez disso por desenvolver as notas, que seguem o ritmo próprio do debate, recolhem as interpretações alheias mais destacadas e constituem a fonte principal da bibliografia.
Estrutura
216a-218b. Apresentação feita por Teodoro, o Estrangeiro de Eleia, e acordo sobre o tema da discussão: a definição do sofista. O Estrangeiro propõe seguir o método interrogativo outrora praticado por Parmênides. Escolha de Teeteto como interlocutor.
218b-221c. Conveniência de exercitar o método em um modelo reduzido: o pescador com vara. Aplicação —sem definição prévia— do método da divisão e obtenção da definição do pescador com vara.
221c-232a. Aplicação do mesmo método para definir o sofista. Obtenção das seis primeiras definições:
1) caçador, por salário, de jovens abastados (222a-223b);
2) mercador do conhecimento da alma (223b-224d);
3) comerciante varejista de conhecimento (224d);
4) fabricante ou produtor e comerciante de conhecimentos (224e);
5) polemista profissional (225a-226a);
6) «refutador» e purificador da alma (226a-231c). Recapitulação das seis definições.
232a-237b. Novo aprofundamento da definição a partir da noção de «contraditório». Relação entre «contraditório» e «imitador»: esboço de uma sétima definição (o sofista, mago e ilusionista). O problema do status da imitação e da imagem. A imagem implica a existência do não-ser, o que viola os axiomas clássicos estabelecidos por Parmênides.
237b-239c. Questionamento dos axiomas de Parmênides. Tentativas de demonstrar que o não-ser existe e consequentes fracassos. Impossibilidade de definir o sofista como criador de imagens.
239c-249d. Nova abordagem do status da imagem. «Coexistência» do ser e do não-ser na imagem: refutação da tese de Parmênides. Breve revisão das teorias anteriores sobre o ser: pluralistas e monistas; materialistas e idealistas.
249d-259d. Nova definição do ser: a comunhão dos gêneros. Definição da dialética como ciência do conhecimento das relações mútuas entre as Formas. Definição do não-ser como «o diferente». «Existência» do não-ser e nova refutação da tese de Parmênides. Esclarecimento de que o não-ser não é o contrário do ser.
259d-268d. Relação entre o não-ser e a falsidade no discurso e no juízo. O juízo falso diz algo “diferente” do que é. Continuação da sétima definição do sofista: o sofista é um mago que produz ilusões e fantasias.
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