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Corpo Humano

PLATÃO (TIMEU:69B-70D)

Julián Marías

(…) Mas todas estas coisas (o Deus) as pôs primeiro em ordem. Depois formou de todas elas o todo, o ser único que contém em si mesmo todos os seres mortais e imortais. Dos imortais ele mesmo foi o artífice. Quanto aos seres mortais, encarregou suas próprias criaturas de sua formação. Aquelas, lembrando-se da obra de seu criador e recebendo de suas mãos o germe imortal da alma, moldaram a seu redor oi corpo mortal que a acompanha, dando-lhe todo ele como veículo. E construíram ainda, dentro do corpo, outra classe de alma mortal, em que se achavam concentradas paixões inevitáveis e terríveis, o prazer em primeiro lugar, o mais poderoso engodo para o mal; a seguir, as penas que nos servem de pretexto para fugir do bem. E entre outras paixões, a audácia e o medo, conselheiros pouco razoáveis; a cólera que não atende a razões, e a esperança enganadora. Estas coisas foram mescladas com as sensações desordenadas e com o amor, que é todo ousadia, e assim formaram, até onde é necessário, a alma mortal.

E como temiam contaminar com estas paixões a alma divina, na medida em que isto fatalmente não haveria de ocorrer, instalam a alma perecível longe daquela, em outro compartimento do corpo, erguendo como uma espécie de corredor, de limite entre a cabeça e o peito, e pondo o pescoço para distanciá-los. No peito e no que se chama tórax fixam a alma de natureza mortal. E como nesta alma havia nascido uma parte melhor e outra pior, dividem em dois compartimentos a cavidade do tórax, delimitando-a como se faz com a habitação das mulheres, que se coloca longe e separada da dos homens, e no meio colocam como limite o diafragma. A porção da alma em que o valor e a coragem residem, a porção devotada à vitória, situaram-na no alojamento que está mais próximo da cabeça, entre o diafragma e o pescoço, a fim de que, prestando ouvido atento à razão e em colaboração com ela, fizesse frente à legião das paixões, quando estas se negassem a obedecer espontaneamente à razão e às ordens que emanam daquela elevada fortaleza; e o coração, que é o nó e a encruzilhada das veias e o manancial do sangue que, rapidamente, vai a todas as partes do corpo, puseram-no como â entrada em função de vigia, a fim de que se a coragem e o ardor se acendessem, ao anunciar a razão que alguma ação inconveniente sobrevinha ao corpo a partir de fora, ou a executava a partir de dentro alguma das paixões do homem, no mesmo instante, através dos condutos das veias, tudo o que é sensível no corpo, escutando os avisos e as ameaças, cada vez mais aguçasse sua atenção e se dispusesse a obedecer. Desta maneira, a porção mais excelente da alma mortal dirigiria o resto.

Mas tratando de procurar um alívio para as palpitações que se produzem no coração quando tem o pressentimento dos perigos ou quando a ira irrompe no homem, e sabendo que é o fogo que produzirá toda essa inchação das partes irritadas, envolveram o coração nos pulmões, que são macios e não têm sangue e ademais estão cheios de pequenas cavidades, como as esponjas, a fim de poderem receber o ar e as bebidas e ao mesmo tempo, ao respirar, proporcionarem frescor e descanso ao fogo de dentro. Por isso traçaram sobre os pulmões os condutos da artéria e colocaram os pulmões em torno ao coração, como um corpo emoliente; dessa maneira, quando a explosão da cólera chegasse ao ponto máximo, rebatendo sobre uma coisa que cede e refrescando-se, o coração sofreria menos e poderia ser mais útil à razão com auxílio da cólera. (Timeu, 69 b-70 d.)

Brisson

(…) Mas, em relação a tudo isso, o deus começou por pôr ordem, e depois serviu-se disso para constituir este universo, que é um ser vivo único, abrangendo em si todos os seres vivos, tanto mortais quanto imortais. E, dentre os seres vivos divinos, ele próprio se tornou o demiurgo, enquanto confiou a tarefa de gerar os seres vivos mortais àqueles que nasceram dele.

Estes últimos, imitando-o, empreenderam, depois de terem recebido o princípio imortal da alma, moldar para ela um corpo mortal e, a esse corpo, deram como veículo o corpo inteiro, ao mesmo tempo em que estabeleciam nele outro tipo de alma, aquela que é mortal e que comporta em si mesma paixões terríveis e inevitáveis: primeiro o prazer, o isco mais importante que leva ao mal; depois as dores, que afastam do bem; e ainda a temeridade e o medo, um par de conselheiros pouco sábios; a impetuosidade rebelde às exortações; e a esperança, fácil de desiludir. Tendo feito uma mistura com essas paixões, a sensação irracional e o desejo de quem provém toda empreitada, eles constituíram a espécie mortal ao submeterem-se à necessidade.

É exatamente por isso que, temendo manchar a espécie divina, eles aproveitam o fato de que a coação exercida pela necessidade não era total, para estabelecer à parte, em outra morada situada no corpo, a espécie mortal, após tê-la separado por um istmo e por uma fronteira erguidos entre a cabeça e o peito, colocando, entre os dois, o pescoço, a modo de separação. Foi no peito e no que se chama tórax que eles instalaram a espécie mortal. E, como uma de suas partes é naturalmente melhor e a outra menos boa, eles estabelecem na cavidade do tórax uma nova separação, como se separa o local de permanência dos homens do das mulheres, e erguem entre eles o diafragma para servir de divisória.

Assim, a parte da alma que participa da coragem e do ardor, aquela que busca a vitória, eles a estabeleceram mais perto da cabeça, entre o diafragma e o pescoço, para que prestasse ouvidos à razão e pudesse se unir a ela para conter à força a multidão dos desejos, sempre que estes se recusassem categoricamente a se submeter às prescrições transmitidas pela razão do alto da cidadela. Quanto ao coração, o nó das veias e a fonte do sangue que circula impetuosamente por todos os membros, eles o colocaram no posto de guarda, para que, quando a parte agressiva fervesse de raiva, porque a razão tivesse sinalizado que uma ação injusta se preparava por parte dos membros externos ou ainda que uma ação injusta tivesse origem nos apetites internos, imediatamente, por toda a rede de passagens estreitas, tudo no corpo capaz de sentir, tudo o que é suscetível de perceber avisos e ameaças, se tornasse dócil e seguisse em tudo a parte melhor, permitindo-lhe assim dominar todos os membros.

E quanto ao estremecimento do coração, quando um perigo ameaça e a raiva cresce, eles, sabendo que é pela ação do fogo que se produziria todo esse inchaço nas pessoas iradas, providenciaram um reforço, enxertando no coração o pulmão, que é, antes de tudo, uma substância mole e sem sangue e que, além disso, possui, perfuradas em seu interior, cavidades como as de uma esponja, para que, recebendo tanto ar quanto líquido, ele possa refrescar o coração, quando este se aquece, permitindo-lhe respirar e relaxar: e, se abriram os canais da traqueia que conduzem ao pulmão, se dispuseram o pulmão ao redor do coração como uma almofada, foi para que, quando a ira, no coração, estivesse no auge, este, por ricochetear contra um objeto que cede e por se refrescar, pudesse, sofrendo menos, colocar-se mais ao lado da espécie agressiva, a serviço da razão.

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