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Heráclito (Kostas Axelos)

(Axelos1962)

... e da Totalidade nasce a Unidade, e do Um, o Todo (D. 10).

A relação de origem mútua entre totalidade e unidade é afirmada como um princípio fundamental.

  • A citação apresentada sintetiza um movimento circular onde um termo gera o outro e vice-versa.

Filósofos, historiadores do espírito humano e escritores procuraram encontrar na sabedoria oriental da Índia, na religião do Egito ou na de Zoroastro as raízes profundas da "metafísica" heraclítica, enquanto outros tentaram apreendê-la à luz dos mistérios gregos (1).

A origem da metafísica de Heráclito é investigada por diferentes estudiosos em fontes orientais e nos mistérios gregos.

  • Filósofos, historiadores do espírito humano e escritores procuraram as raízes profundas dessa metafísica na sabedoria da Índia, na religião do Egito ou na de Zoroastro.
  • Outros pesquisadores tentaram compreender essa mesma metafísica à luz dos mistérios gregos.

Heráclito de Éfeso, apelidado de Obscuro, ocupa uma posição central no conjunto da filosofia grega e no conjunto da história universal do pensamento.

Heráclito de Éfeso é reconhecido como uma figura central para a filosofia grega e para a história universal do pensamento.

  • Seu pensamento ultrapassa a cosmologia milesiana, ao mesmo tempo que os eleatas iniciam um diálogo em oposição a ele.
  • Platão e Aristóteles inauguram um grande combate contra seu pensamento.
  • Os estoicos, os céticos e possivelmente os cínicos retomam algumas de suas ideias, transformando-as.
  • Justino, o Mártir, declara Heráclito como cristão.
  • Hegel o redescobre e afirma que não há uma proposição de Heráclito que ele não admitiria em sua própria Lógica.
  • Lênin o proclama pai do materialismo dialético.
  • Kierkegaard se nomeia aluno de Heráclito, e Nietzsche acredita que o mundo, tendo eternamente necessidade da verdade, terá eternamente necessidade de Heráclito.
  • Outros autores destacam sua relação com os filósofos da Renascença e com Pascal, Spinoza, Goethe, Hölderlin, Novalis, Schopenhauer, Proudhon, Bergson, Freud e o surrealismo.
  • Heidegger se volta resolutamente para esse primeiro grande pensador ocidental.

Houve também pesquisadores que tomaram caminhos não históricos, mas sistemáticos, em sua tentativa de encontrar o Efésio.

Pesquisadores adotaram abordagens sistemáticas, em vez de históricas, para estudar Heráclito.

  • Dessa forma, ele foi estudado sob os ângulos da lógica, da física, da teologia, da psicologia e da política.

O pensamento questionador que espera encontrar o de Heráclito corre o risco de se perder nessa floresta de relações.

O pensamento que busca encontrar o de Heráclito corre o risco de se perder na multiplicidade de relações e interpretações existentes.

  • Iluminado em sua marcha por uma tal multidão de luzes, esse pensamento corre o risco de nada ver.
  • A cama de Procusto serviu de instrumento a um grande número dessas empresas, que erigem em absoluto um único aspecto do problema.
  • Heráclito não se explica nem se interpreta por Schopenhauer, e o centro de seu pensamento não é principalmente teológico nem exclusivamente físico.

O caminho a seguir é diferente e impõe um esforço de orientação.

Um caminho diferente precisa ser seguido, exigindo um esforço de orientação metódica que não ignore as grandes etapas históricas do destino do pensamento heraclítico.

  • Situar Heráclito no conjunto do devir da filosofia e do pensamento significa ver todas as relações que podem ligar seu pensamento a outros pensamentos, diferentes pela época e pelo conteúdo, sem nunca perder de vista que essas relações são criadas a posteriori por aqueles que sucederam Heráclito.
  • Todos esses esclarecimentos parciais devem convergir para uma visão que se quer total e sintética, embora consciente de não poder sê-lo.
  • O estudo feito pelo intérprete moderno virá assim se juntar ao estudo do conteúdo da doutrina antiga de Heráclito, tomado em e por si mesmo, e esse estudo será rigorosamente fundado no texto: fragmentos heraclíticos considerados originais e testemunhos doxográficos dos antigos.

Dessa maneira poder-se-á, talvez, presentificar a antiga mas viva sabedoria de Heráclito, que não é uma filosofia de biblioteca, mas um pensamento que exerce hoje, ainda e sobretudo, seu poder poético e especulativo.

A antiga e viva sabedoria de Heráclito pode ser tornada presente, pois não se trata de uma filosofia de biblioteca, mas de um pensamento que ainda exerce seu poder poético e especulativo.

  • Nessa tentativa de atualização e de diálogo com o logos heraclítico, deve-se distinguir, de maneira ora implícita, ora explícita, entre o que Heráclito disse e a interpretação do estudioso, assumindo-se uma parte de aventura ao explicitar o que está implícito.

Todo grande pensamento possui o poder de transcender e de se transcender; efetivamente, o pensamento de Heráclito transcende suas próprias intenções, seus quadros espaço-temporais, e anima outros focos de pensamento, anima os próprios intérpretes.

O pensamento de Heráclito transcende suas próprias intenções e seu contexto espaço-temporal, animando outros focos de pensamento.

  • Para dar conta da transcendência multiforme e polivalente desse pensamento primeiro, é preciso esforçar-se para apreender seu fundamento unitário, dando razão a Montaigne, que, no capítulo Dos Demócrito e Heráclito, dos Ensaios, escreve que não vê o todo de nada.
  • Em vez de fazer a anatomia de um pensamento, busca-se tocar seu centro orgânico e circunscrever os limites extremos de sua periferia.
  • Esse núcleo central é a alma viva de todo pensamento digno desse nome, e o foco radiante pode ser formado por elementos opostos sem que sua unidade seja deslocada, pois é uma unidade dos contrários.
  • A divisão tardia da filosofia heraclítica em Física, Teologia e Política a desnatura e a esquematiza, não sendo absolutamente heraclítica.
  • A filosofia de Heráclito deve ser exposta segundo o movimento de suas esferas concêntricas, esferas que se fundem e fusionam nas dimensões fundamentais do Logos e do Cosmos, do Anthropos e da Polis.
  • Nessa empresa, deve-se também distinguir entre a verdadeira unidade do pensamento unitário de Heráclito e o próprio trabalho de unificação do intérprete.

Imperiosa é a necessidade de uma relação viva com um pensamento que parece morto, o dever de reviver uma visão repensando-a; imperiosa é também a necessidade de uma comunicação envolvente com textos aparentemente distantes.

Há uma necessidade imperiosa de uma relação viva com o pensamento de Heráclito e de uma comunicação engajada com seus textos.

  • Nada se apreende de uma visão e de uma vida sem comunicação com sua tensão dramática.
  • Sem vibração comum, não há diálogo possível; somente por essa participação entusiasta se pode chegar à visão mais lúcida, liberada dos falsos mitos e das mistificações.
  • Essa tarefa não é realizável por um trabalho que se perde nos limites da seca tecnicidade, do tédio acadêmico distinto e do helenismo baixamente helenístico e humanístico.
  • O herói especulativo em questão não é um professor de filosofia, mas Heráclito pensador e poeta arcaico que é preciso estudar, sabendo que o estudo da história da filosofia é ele mesmo estudo da filosofia e pode ser mesmo filosofia pensante.

=== O múltiplo saber não ensina a pensar (D. 40). Pois é importante que os homens que amam a sabedoria (filósofos) sejam investigadores de tantas e tantas coisas (D. 35). ===

Os textos nos quais o trabalho se enraíza — fragmentos originais e, em seguida, documentos doxográficos — foram depurados por um longo trabalho filológico da crítica moderna (principalmente Diels, Kranz, Reinhardt, Gigon, Kirk), trabalho do qual se leva em conta (1).

Os textos fundamentais para o estudo de Heráclito foram depurados pelo trabalho filológico da crítica moderna.

  • O trabalho de filólogos como Diels, Kranz, Reinhardt, Gigon e Kirk é levado em conta.
  • A filologia e a erudição constituem apenas a subestrutura da empreitada, cuja pesquisa se orienta no sentido da apresentação e da interpretação filosófica e sintética do pensamento heraclítico, e não no sentido da crítica filológica detalhada dos textos e dos testemunhos.
  • O texto heraclítico que chegou até o presente é fragmentário, e a ordem dos fragmentos é por essência móvel; pelo estabelecimento de relações entre os fragmentos, permite-se que eles se esclareçam uns pelos outros, para depois interpretá-los.
  • A codificação imutável dos fragmentos, sua classificação e sua ordenação definitivas não existem.
  • A numeração é a de Diels-Kranz, e a tradução é feita a partir do grego, tendo-se consultado, no entanto, as traduções francesas já existentes.

A interpretação não pode senão buscar a unidade, através da polivalência dos significados.

A interpretação deve buscar a unidade do pensamento heraclítico através da polivalência de seus significados.

  • Um mesmo fragmento pode ser interpretado de diferentes maneiras, sem que se chegue a esgotar seu sentido fixando-o de uma vez por todas.
  • Cada um dos fragmentos possui seu próprio sentido, que só se afirma na medida em que se integra na totalidade do pensamento heraclítico.
  • Cada um dos fragmentos deve ser colocado em relação com os fragmentos conexos e com o conjunto dos fragmentos.
  • As perspectivas da interpretação permanecem no entanto abertas, pois o trabalho da interpretação não é definitivo, ele também não.
  • Aos fragmentos vêm se juntar os testemunhos doxográficos, constituindo testemunhas preciosas, mas confusas, da interpretação.

O método do caminhar está assim esboçado e será posto em obra (e à prova) ao longo de toda a obra.

O método proposto é esboçado como questionante e será aplicado em todas as dimensões do pensamento heraclítico.

  • Esse método se inscreve em um horizonte no qual poderiam começar a se tornar visíveis a fundação e a superação da filosofia.
  • O pensamento que o anima se engajará em todas as dimensões do pensamento heraclítico, a do Logos e a do Cosmos, a da Polis e a da Psiquê, tentando não esquecer ao longo do caminho que essas dimensões não se distinguem sistematicamente umas das outras, pois todas criam raízes no mesmo solo.
  • Heráclito deve ser interpretado por ele mesmo e para os intérpretes de hoje, pois um trabalho matematicamente objetivo não é possível nessas matérias; é melhor, portanto, estar consciente da plasticidade dos métodos com os quais se opera.
  • O pensador estudado não permite uma interpretação científica mais ou menos positivista, o que não significa que se deva por isso abrir caminho para as divagações que se servem dele como de um pretexto.
  • A tarefa não consiste em reencontrar o que ali foi projetado, mas em descobrir primeiro o que ali está realmente, para que se possa então ser conduzido até os desenvolvimentos posteriores que provocam continuamente novas questões.
  • Para fazer isso, é preciso esperar, pois citando o fragmento 18: Se não espera, não encontrará o inesperado, pois ele é inexplorável e inacessível.
  • Meditando sobre o inventor da palavra philosophos, sobre o homem que escreve O raio governa tudo (fr. 64), pergunta-se como reintroduzir o elemento fulminante e explosivo no mundo do pensamento filosófico.

Plano

O plano: estudando os textos heraclíticos, vê-se formarem certos conjuntos de pensamentos, expressos em fragmentos que se sustentam; esses conjuntos “parciais” se unificam graças ao vínculo profundo que os mantém em relação com seu centro; eles só existem na e pela unidade global.

O plano da obra é apresentado, organizando-se em três partes que partem de conjuntos parciais de pensamentos para uma unidade global.

  • Há, portanto, esferas no Todo, mas essas esferas expressam o Todo.
  • A unidade absoluta é o pensamento total de Heráclito que expressa, pela linguagem, na cidade dos homens, o ser em devir do Universo.
  • A obra comporta três partes. Na primeira, tenta-se ressuscitar a própria figura de Heráclito no interior de sua época histórica.
  • A segunda parte se compõe de cinco seções, cada uma estudando uma das grandes dimensões do pensamento heraclítico: a dialética, o movimento do logos que se torna conhecimento e conduz ao amor da sabedoria e da verdade, a cosmologia propriamente dita e a divindade que anima o devir cósmico, a atitude religiosa, política e ética, o homem (sua vida, seu destino e sua morte), e a dimensão poética.
  • A terceira parte persegue a pesquisa do destino do pensamento de Heráclito na história universal do pensamento.

Por que estudar Heráclito?

As razões para estudar Heráclito são apresentadas, centrando-se na natureza dialógica e jovem de seu pensamento.

  • Porque seu logos chama o diálogo, porque seu caminho foi e ainda é o caminho do intérprete, porque sua luz continua a iluminar.
  • As fontes do estudo, sejam restritas ou não, estão lá e incitam a explorá-las.
  • Em um diálogo vivo com um pensador cuja voz pertence ao passado e ao futuro, as possibilidades de uma comunicação real permanecem abertas.
  • Não se quer pura e simplesmente remontar a corrente do rio, quer-se prosseguir seu curso, esse curso que carrega o intérprete.
  • Há filosofias para a juventude. O pensamento de Heráclito possui a juventude, e essa juventude se perpetua através da antiguidade grega, do mundo judaico-cristão e dos tempos modernos e fecundará talvez também o pensamento da era planetária.
  • Não se esquece nem que se medita sobre um pensador arcaico, nem que se vive a própria época, aberta para o futuro.

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