Orfismo
Abel Jeannière
O ORFISMO DE HERÁCLITO
Segue-se uma estrada que se eleva em espiral, reta e curva como a do pisoeiro, onde as noções que se acreditava conhecer reaparecem sempre novas em planos diferentes.
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O deus de Heráclito, esse deus que se faz logos no ciclo do fogo, arrasta para um certo estilo de vida, exigindo uma disciplina ascética do pensamento e atraindo para uma espécie de união mística ao logos.
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Examinar o valor religioso dessa divindade aproxima ainda mais do centro das preocupações do Obscuro, sendo a razão última de sua obscuridade talvez o fato de ele aventurar seu pensamento nas zonas mais perigosas do mistério, lucidamente.
A crítica aos ritos mistéricos
O deus se faz logos no ciclo inteligível do fogo, e o logos remonta na concentração do fogo para essa unidade suprema onde tudo se identifica, sendo abolida a distinção dos deuses de cima e dos deuses de baixo.
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Se Heráclito toma emprestada essa identificação às crenças religiosas de seu tempo, provavelmente ao orfismo, ele aí mistura seus sarcasmos para com os ritos impotentes onde o crente tenta se elevar até a participação no mistério.
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Citação do fragmento 14: Pois não há nada de sagrado em sua iniciação aos mistérios celebrados entre os homens.
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Citação do fragmento 15: Se não fosse para Dioniso que eles conduzem o cortejo e cantam o hino fálico, cometeriam a ação mais vergonhosa. Mas Hades e Dioniso, é o mesmo para quem eles estão em delírio e celebram as Bacanais.
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Se a vida e a morte não fazem senão um no próprio elemento do logos, o deus da morte é também o da vida universal, Hades ou Dioniso, um só e mesmo deus.
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A primeira parte do fragmento parece desculpar o culto dionisíaco, mas a desculpa é demasiado ideal para não ser sarcasmo; são desculpados aqueles que sabem o sentido profundo do rito, mas aqueles que sabem têm necessidade dos ritos?
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Com Heráclito, a sabedoria emerge do mito.
A divindade como elemento
A sensibilidade religiosa daqueles que celebram os mistérios está encerrada num universo mítico, mas para Heráclito, como para eles, é o mundo empírico mesmo que é divino, tudo é sagrado, nada é profano, há apenas um universo, onde Heráclito entrevê aspectos ignorados por seus contemporâneos.
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A religião grega não era ainda a de Homero nem a de Hesíodo; os ritos, como os hinos, dirigiam-se não a deuses pessoais, mas a uma divindade tornada magicamente presente à maneira de uma coisa, um elemento concebido ao mesmo tempo como potência e como explicação, a luz por exemplo, ou o sol que pela manhã sai vencedor de seu combate com as trevas.
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A intuição de Heráclito acorda mais grandeza a esse deus, desvela-lhe o sentido ontológico, mas não lhe modifica a natureza: ele é a coisa sábia, o uno, a sabedoria única.
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Esse deus não é saber de si; Heráclito ignora o que é a consciência de si.
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Conhecer é modelar-se sobre o objeto; é no objeto que é preciso buscar a unidade necessária ao conhecimento.
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Heráclito busca a si mesmo, mas encontrar-se é deixar o mundo sensível para entrar num universo inteligível.
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A maravilha, para Heráclito como para os milesianos, é o cosmos, o universo apreendido em sua ordem exemplar, e a maravilha é também o homem, justamente porque ele é esse ser a quem o universo é inteligível, esse ser que pode se pôr à escuta do logos.
A impessoalidade do divino
A questão sobre o deus se coloca novamente: o que pensar desse Uno supremo, o cume da estranha tríade heraclítica, o deus indeterminado, a coisa sábia, que é e não é o fogo, movimento-substância, que é e não é o logos, lei inteligível?
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A tentação de concluir pela personalidade desse deus é forte, mas é uma conclusão fácil para o intérprete moderno; para Heráclito, a questão não pode sequer ser colocada, pois a pessoa como tal ainda não tem nenhuma consistência.
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O deus não é puramente estranho ao homem, mas o homem tampouco é concebido como pessoa; o homem experimenta o influxo nele de forças que o ultrapassam e que caem sobre ele como bênçãos ou como flagelos.
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São forças cósmicas, e as forças do homem, a penetração de seu espírito bem como sua força física, são uma espécie de emanação delas; quanto mais o homem enobrece sua natureza, mais ele comunica com o divino.
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O divino permanece no neutro, permanece um elemento; no entanto ele é inteligente, mas essa inteligência é ela mesma uma força, que tem por papel conhecer e não se conhecer.
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Encontrar a si mesmo é encontrar a unidade do cosmos, e é na medida em que se difunde no elemento do fogo que o divino permite esse conhecimento; ele é um em-si luminoso.
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Parmênides, o primeiro, compreende a interioridade do pensamento, mas de maneira ainda totalmente formal, uma interioridade abstrata, uma identidade lógica, absoluta, apreendida sem que o pensamento saia de si mesmo, vazia mas rica de desenvolvimentos futuros.
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A via da verdade de Parmênides parece um beco sem saída; assim que proclama a identidade, é apenas o caminho do silêncio.
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Em Heráclito, a unidade não é ainda o Espírito, mas apenas a luz; o princípio é o fogo.
