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Fragmentos

KAHN, Charles H. The art and thought of Heraclitus: an edition of the fragments with translation and commentary. Cambridge New York Port Chester [etc.]: Cambridge university press, 1989.

Heráclito é, como o definiu Diels, “o autor de prosa mais subjetivo e, em certo sentido, o mais moderno da Antiguidade” — solitário entre um povo gregário, parece não ter tido discípulos nem associados pessoais.

  • Uma anedota o descreve fugindo da sociedade humana em repúdio e indo viver como eremita nas montanhas
  • Numa era literária ainda primariamente oral, sua influência se fez sentir exclusivamente pelo poder de sua palavra escrita
  • Em uma ou duas gerações seu livro adquiriu tal fama que produziu partidários de sua doutrina chamados heraclitianos

O mais conhecido dos heraclitianos do século V é Crátilo de Atenas, participante taciturno do diálogo platônico que leva seu nome, cujas ideias excêntricas são relatadas mais amplamente por Aristóteles.

  • Aristóteles nomeia Crátilo como um dos mestres de Platão, talvez por considerá-lo fonte da influência heraclitiana que reconhecia no pensamento platônico
  • O impacto estilístico do livro de Heráclito está bem documentado na literatura do século V, notadamente nos fragmentos de Demócrito, vários dos quais parecem compostos como resposta direta a enunciados de Heráclito
  • O tratado hipocrático Sobre o Regime, provavelmente do mesmo período, mostra tentativa sistemática de imitar o estilo enigmático e antitético da prosa de Heráclito
  • A história de que foi o próprio Eurípides quem entregou o livro a Sócrates pedindo sua opinião é, se não literalmente verdadeira, ao menos perfeitamente plausível

É nas obras do século IV de Platão e Aristóteles que se encontra a primeira discussão detalhada da doutrina heraclitiana, mas com poucas citações literais e vista de uma perspectiva muito distante do clima intelectual do início do século V.

  • Para Platão, Heráclito é o teórico do fluxo universal — “tudo flui” — em contraste com Parmênides, partidário de uma realidade fixa e estável
  • Para Aristóteles, Heráclito era um monista material que derivava todo o mundo físico do fogo como elemento subjacente
  • Ambas as caracterizações lançaram longa sombra sobre leituras posteriores do texto

Uma exposição completa da doutrina de Heráclito foi fornecida por Teofrasto na grande compilação doxográfica Opiniões dos Filósofos Naturais — obra perdida, mas cujo bom excerto está preservado na Vida de Heráclito de Diógenes Laércio, IX.7–11.

  • O auge da influência filosófica de Heráclito foi atingido uma geração depois na obra de Zenão, fundador da escola estoica no início do século III a.C., e na de seu sucessor Cleantes
  • Cleantes escreveu um comentário de Heráclito em quatro livros, do qual nenhum traço certo foi preservado — mas as seções sobreviventes do seu Hino a Zeus contêm elaborados ecos da fraseologia e das imagens heraclitanas
  • Os estoicos viram Heráclito pela lente deformante de seu próprio sistema, mas esse sistema baseava-se num estudo profundo das palavras escritas do Efésio — são os verdadeiros heraclitianos da Antiguidade

O interesse em Heráclito permaneceu intenso ao longo do período helenístico, em parte como resultado da influência estoica — Diógenes lista sete outros autores que escreveram comentários sobre o livro, e já no século IV a.C. Heráclito havia adquirido o estatuto de clássico literário.

  • O mais antigo autor a citar extensamente Heráclito é Plutarco, filósofo platônico e biógrafo do final do século I d.C.
  • No século seguinte Luciano faz uma paródia espirituosa que pressupõe no leitor um conhecimento preciso do texto
  • As citações mais abundantes e mais fiéis encontram-se nas obras de dois bispos cristãos por volta do ano 200 d.C.: Clemente de Alexandria e Hipólito de Roma
  • Orígenes de Alexandria também preserva boas citações verbatim — às vezes, porém, obtidas de segunda mão, como quando declara estar citando Heráclito a partir do filósofo pagão Celso
  • A última fonte importante de fragmentos originais é a antologia de João Estobeu, do século V d.C., quase um milênio após a composição original do livro

Os primeiros editores, como Bywater, tentaram agrupar os fragmentos por tema — mas após 1901 a disposição padrão tornou-se a de Diels, que os lista em ordem alfabética pelo nome do autor que os cita.

  • Diels quis evitar impor qualquer interpretação pessoal à sua edição, mas pelo caráter atomístico de sua disposição acabou por impor sua própria visão de uma obra sem estrutura literária
  • Inspirado pelo Zaratustra de Nietzsche, Diels sugeriu que as sentenças haviam sido anotadas num caderno filosófico sem forma ou unidade literária ligando-as entre si
  • Na obra de Heráclito, disposição e interpretação são inseparáveis — o erro de Diels foi imaginar que sua própria ordem poderia ser uma exceção

A disposição dos fragmentos aqui apresentada baseia-se numa premissa diferente: o discurso de Heráclito como um todo foi tão cuidadosa e artisticamente composto quanto suas partes preservadas, e a ordenação formal do conjunto era tão parte de seu significado total quanto em qualquer ode lírica do mesmo período.

  • O verdadeiro paralelo para compreender o estilo de Heráclito não é Nietzsche, mas seus próprios contemporâneos Píndaro e Ésquilo
  • Os fragmentos revelam um domínio da ordem das palavras, da imagética e da ambiguidade estudada tão eficaz quanto o de qualquer obra desses dois poetas
  • A unidade intelectual da composição de Heráclito era em certo sentido maior do que a de qualquer poema arcaico, pois sua intenção final era mais explicitamente didática e seu tema central uma afirmação direta de unidade: “todas as coisas são uma”
  • O efeito literário visado pode ser comparado ao da Oresteia de Ésquilo: o desdobramento solene e dramático de uma grande verdade, passo a passo, em que o sentido do que veio antes é continuamente enriquecido pelo eco do que vem depois

A impressão de que a obra original seria um caderno de anotações deve-se em grande parte ao fato de Heráclito usar o estilo proverbial dos Sete Sábios e invocar os tons enigmáticos do oráculo délfico — mas ele tem muitos recursos literários e não fala sempre em enigmas ou aforismos.

  • O fragmento I é um proêmio cuidadosamente elaborado, sugerindo o início de um livro bem planejado
  • O fragmento XXX exibe estrutura literária complexa com jogos de palavras, ressonância fonética e ambiguidade sintática
  • O fragmento XXII relata uma história tradicional num estilo narrativo que sugere a maneira ingênua de um conto popular
  • O fragmento CXVII é singular em seu sarcasmo irrestrito sobre a purificação pelo sangue e as orações a deuses feitos por mãos humanas

A diversidade de técnica artística, se não prova que a obra como um todo foi cuidadosamente composta, indica que Heráclito era senhor de seu meio e podia impor-lhe forma artística — e uma consideração geral milita fortemente a seu favor: nas artes plásticas e literárias da Grécia arcaica seria difícil encontrar uma obra de arte finamente elaborada nos detalhes mas disforma como um todo.

A disposição presente é em grande parte uma construção do editor, resultado de muita tentativa e erro, sem título especial à autenticidade histórica, mas baseada em alguns pontos de referência formais.

  • A existência de uma introdução é garantida pelo fragmento I, que sugere que a ênfase inicial de Heráclito recaía sobre a incapacidade dos homens de apreender o logos universal
  • O fragmento XXXVI é tomado, seguindo uma sugestão de Reinhardt, como a transição da introdução para a exposição propriamente dita
  • Uma evidência externa muito contestada informa que “o livro está dividido em três discursos: sobre o universo, sobre a política e a ética, e sobre a teologia”
  • A psicologia de Heráclito sendo inseparável de sua teologia, a maioria dos fragmentos sobre a psique foi colocada imediatamente antes da seção final sobre os deuses
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