autores:armstrong:fundo-eneadas

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
autores:armstrong:fundo-eneadas [06/01/2026 18:22] – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1autores:armstrong:fundo-eneadas [06/01/2026 18:22] (current) – ↷ Page moved and renamed from neoplatonismo:plotino:varia:the-philosophical-and-religious-background-of-the-enneads-armstrong:start to autores:armstrong:fundo-eneadas mccastro
Line 1: Line 1:
 +===== Fundo filosófico e religioso das Enéadas =====
 +
 +  * Platonismo Médio como Tradição Imediata e Fundação Doutrinária
 +    * Ressurgimento do ensino filosófico positivo na Academia com Antíoco de Ascalão (século I a.C.), superando o ceticismo da Nova Academia.
 +    * Desenvolvimento, nos séculos I-II d.C., de uma nova versão do platonismo, conhecida como Platonismo Médio, essencial para a tradição filosófica europeia posterior.
 +    * Caráter erudito e livresco desta filosofia, com ênfase crescente no comentário aos textos de Platão e Aristóteles e na doxografia.
 +    * Postura eclética seletiva: permanência do núcleo platônico com incorporação crítica de elementos estóicos e, sobretudo, aristotélicos.
 +    * Figuras representativas de uma ampla gama intelectual:
 +      * Plutarco: cultura ampla e personalidade atrativa, porém sem profunda originalidade filosófica.
 +      * Albino: filósofo profissional típico, contribuinte sólido para a construção doutrinária.
 +      * Apuleio e Máximo de Tiro: representantes de uma pseudo-filosofia popular e retórica.
 +      * Difusão das ideias em níveis intelectuais inferiores: gnósticos, hermetistas, magos e alquimistas.
 +    * Filo de Alexandria: tentativa pioneira de interpretar as escrituras judaicas através de conceitos do platonismo médio, ainda que de forma inconsistente.
 +    * Neopitagorismo como movimento difícil de distinguir do platonismo médio, formando com este um grupo intelectual único. Numênio como figura de transição (pitagorizante-platônico).
 +
 +  * Principais Tendências Doutrinárias do Platonismo Médio
 +    * Primeiro Princípio: Deus-Mente (//Nous//) transcendente.
 +      * Início da teologia negativa (descrição por negações).
 +      * Em certos neopitagóricos, antecipações da doutrina plotiniana do Uno.
 +    * Lugar das Ideias/Formas: localizadas na Mente Divina, como "pensamentos de Deus" (conceito de extrema importância histórica para a teologia cristã posterior).
 +    * Hierarquia de Hipóstases abaixo do Princípio Supremo:
 +      * Por vezes, uma Segunda Mente ou Deus com função cosmogônica ou ordenadora.
 +      * A Alma do Mundo.
 +      * Importância, nas versões populares, dos daemones como seres intermediários.
 +    * Matéria e Origem do Mal: tendência a soluções dualistas.
 +      * Mal originado em uma Alma má (Plutarco) ou na própria matéria (Numênio).
 +    * Conclusão: A filosofia de Plotino é, em suas linhas essenciais, um desenvolvimento (por vezes ousado e original) da tradição escolar do platonismo médio.
 +
 +  * Influência e Crítica do Estoicismo em Plotino
 +    * Combate intenso, nos escritos plotinianos, à concepção estóica do ser espiritual como corpórea (//pneuma//, fogo artístico).
 +    * Este combate levou Plotino a uma clara compreensão da diferença entre ser espiritual e material.
 +    * Influência positiva do estoicismo em aspectos fundamentais:
 +      * Ênfase na Vida (//zôê//): o mundo inteligível plotiniano não é estático (como pode parecer em Platão), mas "fervilhante de vida", com poder infinito e superabundância espontânea de formas vivas.
 +      * Visão organicista da realidade: ambos os mundos (espiritual e material) são organismos, unidades-na-diversidade mantidas por uma única vida.
 +      * A libertação do esquema corpóreo estóico permitiu a Plotino originalidade ao desenvolver este senso vitalista, que muito deve ao dinamismo e vitalismo estóicos.
 +
 +  * Relação com Platão: Fidelidade, Interpretação e Transformação
 +    * Autopercepção plotiniana: sua filosofia não é uma inovação, mas a exposição do sistema platônico verdadeiro, a ser encontrado através da interpretação correta dos Diálogos.
 +    * Diferença fundamental: Platão não é um pensador sistemático no sentido plotiniano. Plotino constrói seu sistema a partir de passagens selecionadas (sobretudo dos diálogos tardios), forçando relações e interpretando-as de modo arbitrário, seguindo uma tradição escolar.
 +    * Pontos de genuína concordância com Platão:
 +      * Divisão da realidade em mundo eterno/inteligível e mundo temporal/sensível.
 +      * Esquema de valores e visão da vida humana decorrentes dessa divisão.
 +      * Convicção de que o mundo sensível é bom, ordenado e tem realidade própria.
 +      * A alma tem um trabalho a fazer no mundo, embora não seja sua verdadeira morada.
 +      * Natureza e destino da alma humana são essencialmente platônicos (com a crucial exceção da união mística final).
 +    * Doutrinas como desenvolvimentos genuínos de ideias platônicas:
 +      * Princípio transcendente do Mundo das Ideias.
 +      * Distinção nítida entre Nous (Inteligência) e Alma.
 +    * Transformações radicais do platonismo, com origem em outras fontes:
 +      * Colocação das Ideias na Mente Divina.
 +      * Ênfase na vida e visão organicista da realidade.
 +      * Doutrina das Ideias dos Indivíduos.
 +      * Doutrina da Infinitude Divina.
 +
 +  * Relação com Aristóteles: Crítica, Apropriação e Compreensão
 +    * Atitude mais independente e crítica que em relação a Platão. Reconhece divergências e considera Aristóteles equivocado quando diverge.
 +    * Compreensão mais precisa do pensamento aristotélico real, favorecida pelos comentaristas peripatéticos (ex: Alexandre de Afrodísias), que mantinham maior fidelidade ao texto.
 +    * Aristotelismo como filosofia de comentário, sem grande desenvolvimento, contrastando com o platonismo como filosofia em evolução. Diferença devida à natureza sistemática do pensamento aristotélico vs. natureza sugestiva e não-sistemática do pensamento platônico.
 +    * Apropriação significativa da metafísica e psicologia aristotélicas por Plotino.
 +
 +  * O Enigma de Amônio Sacas e sua Influência
 +    * Questão central e provavelmente insolúvel: qual o conteúdo do ensino de Amônio Sacas, mestre de Plotino?
 +    * Escassez de informações (Amônio não escreveu, relatos como o de Hierocles são de autenticidade duvidosa).
 +    * Possíveis elementos de seu ensino, conforme tradição indireta:
 +      * Concordância fundamental entre Platão e Aristóteles.
 +      * Doutrina sobre a alma e sua relação com o corpo semelhante à de Plotino (segundo Nemésio).
 +      * Possível defesa de uma criação do universo a partir do nada (doutrina judaico-cristã, não grega), indicando influência residual de sua formação cristã.
 +    * Se correta a última hipótese, implicaria que a distinção entre Uno e Nous seria uma invenção original de Plotino, não derivada de Amônio.
 +    * Conclusão prudente: quase nada se sabe ao certo, impossibilitando avaliar a originalidade exata de Plotino frente a seu mestre. Longino, contemporâneo, considerava Plotino um pensador original.
 +
 +  * Relação com as Religiões Contemporâneas: Mistérios, Cristianismo e Gnosticismo
 +    * Cultos públicos oficiais: pouco significado para Plotino, usado apenas como fonte para interpretações alegóricas dos mitos.
 +    * Religiões de Mistério:
 +      * Não contribuíram com ideias doutrinárias, sendo religiões de culto e emoção.
 +      * Emprestou-lhes apenas simbolismo decorativo (ex: linguagem da luz, embora este seja um símbolo universal da época).
 +    * Cristianismo Ortodoxo:
 +      * Nenhuma evidência de contato direto ou influência consciente por parte de Plotino.
 +      * Incompatibilidades fundamentais entre seu sistema e o cristianismo, pertencendo a tipos diferentes de pensamento religioso.
 +      * O valor encontrado nele por pensadores cristãos (de Agostinho em diante) decorre de ressonâncias parciais, não de identidade.
 +    * Gnosticismo (ataque explícito em En. II, 9):
 +      * Rejeição veemente por considerá-lo irracional, inconsistente, arrogante e imoral.
 +      * Oposição radical na visão do cosmos:
 +        * Gnóstico: mundo visível é prisão má, resultado de uma queda, a ser rejeitado e escapado via //gnosis// secreta.
 +        * Plotiniano (fiel a Platão): mundo visível é bom, imagem material da beleza inteligível, resultado da expansão espontânea do Bem divino.
 +      * Similaridades linguísticas e conceituais (ex: matéria como escuridão/mal, transcendência do Princípio Supremo) explicadas por um "espírito da época" (//Zeitgeist//) comum, não por empréstimo direto.
 +    * Conclusão Sintética do Contexto (segundo G. Quispel): a Antiguidade Tardia é uma terra de três rios distintos — Gnose, Neoplatonismo e Cristianismo — com interconexões, mas com fontes e direções diferentes. O cristianismo, ao assimilar elementos, não se torna um sincretismo, mas assimila e permanece ele mesmo.