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| + | ===== Enéadas ===== | ||
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| + | //La Philosophie de Plotin - Émile Bréhier// | ||
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| + | ***Capítulo II - As Enéadas*** | ||
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| + | * Importância da Forma Literária para a Interpretação Filosófica | ||
| + | * Impossibilidade de interpretar corretamente o pensamento de um filósofo sem considerar a forma literária de suas obras. | ||
| + | * A forma literária testemunha as intenções do autor, variando conforme o gênero (curso, exposição dogmática, ensaio, obra de circunstância, | ||
| + | * Necessidade de levar isso em conta para compreender o alcance pleno das ideias expressas. | ||
| + | * Objetivo: investigar primeiro o que são as **Enéadas**, | ||
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| + | * Estrutura e Ordem Sistemática das Enéadas (por Porphyrio) | ||
| + | * Composição: | ||
| + | * Ordem sistemática dos grupos: | ||
| + | * I: Homem e Moral. | ||
| + | * II e III: Mundo sensível e Providência. | ||
| + | * IV: Alma. | ||
| + | * V: Inteligência (Nous). | ||
| + | * VI: O Um ou o Bem. | ||
| + | * Intenção dogmática visível: partir de si mesmo (I) e do mundo sensível (II-III), ascender gradualmente ao princípio imediato do mundo (Alma, IV), depois ao princípio dessa alma (Inteligência, | ||
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| + | * Aparência Sistemática versus Conteúdo Real dos Tratados | ||
| + | * Progresso sistemático é apenas aparente. | ||
| + | * Os escritos de cada grupo, apesar dos títulos, geralmente tratam de todas as questões ou supõem conhecida toda a doutrina. | ||
| + | * Contraste completo com as produções posteriores da escola neoplatônica (ex: **Manual de Teologia** de Proclo), obras de professores disciplinados por longa tradição escolar, com ordem perfeita. | ||
| + | * Agrupamento sistemático é obra de **Porphyrio**, | ||
| + | * Para entender, é preciso abstrair desse agrupamento póstumo. | ||
| + | |||
| + | * Ordem Cronológica e Contexto de Produção: O Ensino de Plotino | ||
| + | * Graças à **Vida de Plotino** de Porphyrio, conhece-se com precisão a ordem cronológica e a história dos escritos. | ||
| + | * Plotino só começou a escrever tardiamente, | ||
| + | * Produção: | ||
| + | * Aos 59 anos (263), quando Porphyrio chegou, havia escrito 21 tratados. | ||
| + | * Escreveu 23 tratados entre 263 e 268 (período de Porphyrio em Roma). | ||
| + | * Escreveu 9 tratados de 268 até sua morte (270). | ||
| + | * Os escritos são de um professor já muito conhecido, cuja doutrina atingiu completa maturidade. | ||
| + | * Estão ligados de maneira tão estreita ao seu ensino que não podem ser compreendidos sem se imaginar esse contexto. | ||
| + | |||
| + | * Caráter do Ensino de Plotino: Círculo de Amigos e Discussão | ||
| + | * Plotino não era um professor assalariado; | ||
| + | * Círculo de amigos ricos provia suas necessidades materiais. | ||
| + | * Conselheiro ouvido do imperador Galiano, diretor de consciência de aristocratas, | ||
| + | * Auditório: na maioria, **homens maduros**, já instruídos em filosofia, com formações filosóficas ou religiosas diversas (inclusive cristãos gnósticos). | ||
| + | * Discípulos mais próximos: Amelius (ex-estoico) e Porphyrio (já autor de **A Filosofia dos Oráculos** antes de conhecê-lo). | ||
| + | * A maioria dos cursos se passava em **discussões**. | ||
| + | * Relato de Porphyrio: Plotin permitia perguntas; frequentemente a ordem faltava e havia discussões ociosas. | ||
| + | * Método livre chocava ouvintes de passagem habituados a discursos regrados. | ||
| + | * Exemplo: Porphyrio questionou Plotin por três dias sobre a união corpo-alma; um ouvinte externo (Thaumasius) protestou, querendo ouvir só Plotin. Plotin respondeu: se Porphyrio não indicar as dificuldades, | ||
| + | * O pensamento de Plotin só se excita e desperta na discussão. | ||
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| + | * Dinâmica das Conferências: | ||
| + | * O curso geralmente começava com uma **leitura** (comentários de Severo, Cronius, Numênius, Gaio, Ático; obras de peripatéticos como Aspásio, Alexandre de Afrodísias, | ||
| + | * Plotin assimilava rapidamente o conteúdo, depois expunha em poucas palavras as ideias sugeridas por uma profunda meditação. | ||
| + | * O ouvinte era intimamente misturado ao trabalho do pensamento do mestre. | ||
| + | * A filosofia de Plotin é, como quase todas as antigas, uma filosofia **primeiramente falada**. | ||
| + | * O trabalho em sua escola era **coletivo**. | ||
| + | * Exemplo: ao entrar, Porphyrio ouviu uma tese que mal se coadunava com a interpretação ortodoxa de Platão (objetos inteligíveis não externos à inteligência, | ||
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| + | * O Círculo como Comunidade Espiritual e Trabalho Conjunto | ||
| + | * Associados ao trabalho do mestre para convencer novos discípulos. | ||
| + | * Exemplo com cristãos gnósticos: mantinham a tese (contrária a Plotin) de um demiurgo mau. Para convencê-los, | ||
| + | * A escola de Plotin é, antes de tudo, um **círculo de amigos** onde o mestre se esforça por manter uma vida espiritual intensa. | ||
| + | * Amigo exigente, busca a unidade apenas pela doce coerência dos argumentos. | ||
| + | * Surpresa alarmada quando não consegue: expressa vergonha aos gnósticos não convencidos. | ||
| + | * Exigente também com a conduta moral: tenta afastar amigos ricos dos negócios públicos (exemplo do senador Rogatianus, que abandonou bens, criados e dignidades, elogiado como modelo). | ||
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| + | * Caráter das Enéadas: Redação de Discussões Vivas para um Pequeno Círculo | ||
| + | * As Enéadas são apenas a redação das discussões vivas da escola. | ||
| + | * Plotin escreve sobre os assuntos que se apresentam; seus livros muitas vezes dão impressão de uma **estenografia**. | ||
| + | * Não feitos para propaganda religiosa popular, mas para o **pequeno círculo de iniciados** perante o qual foram concebidos. | ||
| + | * Relato de Porphyrio sobre os primeiros 21 tratados: comunicados a um pequeno número, difíceis de obter, entregues com precaução a pessoas julgadas dignas. | ||
| + | * Tratados ligados à vida da escola (ex: tratado contra gnósticos a pedido de Amelius e Porphyrio; tratado **Sobre o Demônio que nos Coube em Sorte** escrito em circunstâncias específicas). | ||
| + | * Mesmo sem informações externas, leitura atenta mostra que os tratados se referem a discussões em curso. | ||
| + | * Exemplo: os três longos tratados sobre a alma (**Enéada** IV, 3-5) precedidos de declaração sobre a necessidade de tratar todas as dificuldades acumuladas, marcando o encerramento de um debate. | ||
| + | * No primeiro deles, combate claramente uma tese de origem estoica sustentada por algum discípulo. | ||
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| + | * Consequências para a Exposição Doutrinal e Procedimentos de Composição | ||
| + | * A doutrina de Plotin não se desenvolveu parte por parte numa sequência de tratados, mas, à maneira de Leibniz, expõe quase em cada tratado **sua doutrina inteira** sob o ponto de vista particular do assunto em exame. | ||
| + | * Procedimentos particulares de composição: | ||
| + | * O ouvinte às vezes se faz presente e pede explicações (ex: após discussão sobre visão à distância: //É suficiente? Então a demonstração está feita. Não? Procuremos outras provas.//). | ||
| + | * Movimentos do auditório frequentes (ex: após longa digressão sobre números: //Mas nos pedem para voltar ao assunto.// | ||
| + | * Às vezes, o ouvinte impaciente com o idealismo transcendente tenta trazer o mestre de volta à terra (ex: crítica sobre termos pomposos como //a vida é um bem, a inteligência é um bem//, argumentando que só o são se forem agradáveis). | ||
| + | * Passagens como essas dão às Enéadas uma fisionomia viva, eco do próprio ensino. | ||
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| + | * Esquema Simples de um Tratado Plotiniano | ||
| + | * Reduzido ao esquema mais simples, um tratado de Plotin geralmente se divide em: | ||
| + | 1. **Aporia**: onde a questão a resolver é posta. | ||
| + | 2. **Demonstração**: | ||
| + | 3. **Persuasão**: | ||
| + | 4. **Elevação** ou **hino** final: que proclama a felicidade de ter acesso ao mundo inteligível. | ||
| + | * Nada de sistemático ou fixo neste plano. | ||
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| + | * Natureza da Aporia e da Demonstração Dialética | ||
| + | * **Aporia**: frequentemente uma questão tradicional nas escolas (ex: //O que é o homem?//; paradoxo estoico sobre felicidade e tempo; questão física sobre visão à distância). Pode ser também uma dificuldade sobre sentido de passagem de Platão ou Aristóteles (ex: tratado sobre virtudes interpretando //a virtude é uma semelhança com Deus//; tratado sobre o mal como exegese de texto do **Teeteto**; | ||
| + | * **Demonstração dialética**: | ||
| + | * Exemplo de dialética sobre a tese de que o Um não tem pensamento ou conhecimento. Troca animada: //O quê? Ele não conhecerá a si mesmo nem as outras coisas? - Não, permanecerá imóvel em sua majestade... - E a Providência? | ||
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| + | * Necessidade de Persuadir além de Demonstrar | ||
| + | * Plotin, conhecedor dos homens, sente necessidade não só de demonstrar para a inteligência, | ||
| + | * Declara várias vezes: é preciso unir a convicção à força constringente das demonstrações. | ||
| + | * Sentimento de que a vida espiritual no homem não pode reduzir-se à de uma pura inteligência. | ||
| + | * Citação: //A demonstração comporta a necessidade, | ||
| + | * Às vezes vai longe nesse caminho, na perigosa inclinação de introduzir na filosofia qualquer argumento que possa seduzir. | ||
| + | * Exemplo: após provas da imortalidade da alma, apela para tradições, | ||
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| + | * Elevações Finais e Estilo de Plotin | ||
| + | * Os desenvolvimentos terminam com **elevações**, | ||
| + | * Estilo de Plotin muitas vezes criticado (negligente, | ||
| + | * Apesar dos defeitos, é um dos mais belos estilos porque **traduz sempre o movimento de um pensamento vivo**. | ||
| + | * Desenvolvimento frequentemente desabrocha em **imagens brilhantes**. | ||
| + | * A imagem não é ornamento exterior, mas **elemento integrante do pensamento**, | ||
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| + | * Tipos de Imagens em Plotin | ||
| + | * Imagens apenas engenhosas e belas: | ||
| + | * Parábola do **dono da casa**: expressa o estado da alma que deixa a inteligência para contemplar o princípio supremo. | ||
| + | * Parábola do **grande rei**: descreve os estados da alma progredindo através do mundo inteligível (cortejo de personagens cada vez mais elevados até o rei). | ||
| + | * Imagem propriamente plotiniana e reveladora de seu gênio: **imagem dinâmica** ou **imagem-tendência**, | ||
| + | * Exemplo: para representar como um mesmo ser pode estar em toda parte ao mesmo tempo, usa a imagem da **mão que segura vários corpos**. A força da mão se estende a todos sem se dividir; suprimindo-se mentalmente a massa corpórea da mão, resta uma força única e indivisível presente no conjunto e em cada parte. | ||
| + | * A imagem, por modificações apropriadas, | ||
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