autores:freire:socrates-e-seu-daimonion
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| — | autores:freire:socrates-e-seu-daimonion [07/01/2026 09:49] (current) – created - external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== Sócrates e o seu daimonion ===== | ||
| + | |||
| + | //" | ||
| + | |||
| + | Para os antigos como para os modernos, o daimónion de Sócrates tem sido um enigma, verdadeira crux philosophorum. O daímon começou por ser o destino. Para os Gregos primitivos era daimónion, «demoníaco», | ||
| + | |||
| + | Já no tempo de Cristo e na linguagem evangélica da Koiné popular, «possessões do demónio» designavam pessoas afligidas por doenças, cuja etiologia era desconhecida, | ||
| + | |||
| + | Polignoto, imbuído de doutrinas órficas, pintou um demónio «que comia as carnes dos mortos, deixando apenas os ossos...». | ||
| + | |||
| + | Em Platão, os daímones eram seres intermediários entre os deuses e os homens: levavam até aos deuses as preces dos homens e traziam dos deuses graças para os homens. Na Apologia, o daimon era apenas uma divindade inferior; no Banquete, em que o amor (Eros) era um desses espíritos, o daimon é um colaborador do homem: Deus não se confunde com o homem, mas em virtude do mediador, estabelece-se certo comércio entre um e outro. O Eros torna o homem participante da divindade e esta presente no homem. O homem, invadido pelo amor, torna-se divino (theios on). | ||
| + | |||
| + | Para Heraclito, para Demócrito e para Epicarmo, o daímon era uma metáfora: o daímon do homem era o seu génio pessoal, o seu carácter ou modo de ser. Corria quase como aforismo de Heraclito a Epicarmo a frase: «o carácter é o démon do homem»; ou: «o carácter é para os homens um demónio bom, e para outros um demónio mau». | ||
| + | |||
| + | Em Menandro, o daímon assume o papel de bom guia, vive ao lado de cada homem, desde que nasce, e condú-lo pela senda da vida. Já Platão, uns decénios antes, dissera que cada um, ao morrer, é levado pelo daímon, que lhe tocara em sorte na vida, ao lugar do Hades ou morada dos mortos, onde há-de ser julgado. Num e noutro caso, o daímon assemelha-se ao Anjo da Guarda do pensamento cristão. | ||
| + | |||
| + | Em Sócrates, o daimónion é completamente diferente. É no interior do filósofo, o que o oráculo da Pítia era no mundo exterior: comunicação com o sobrenatural, | ||
| + | |||
| + | Trata-se, pois, dum sentido interior que punha Sócrates em comunicação com o divino; é uma verdadeira interiorização dessa tradicional inspiração divina que se manifestava mais vaga e confusamente em oráculos e outras formas normais do culto. | ||
| + | |||
| + | A natureza do daimónion foi entendida por Sócrates como essencialmente negativa. É essa uma das diferenças fundamentais que distinguem Sócrates de tantos iluminados. O daimónion socrático nunca lhe dava ordens; só o dissuadia. Impedia-o, ora de que se fosse sem reparar uma falta, ora de que tratasse com certas pessoas, ora de que exprimisse a Alcibíades a sua afeição, ora de que se metesse em política. | ||
| + | |||
| + | A voz do daimónion socrático servia também para advertir os amigos. Assim, advertiu Timarco de que não saísse; e, se ele lhe tivesse dado ouvidos, não teria cometido homicídio. Igualmente preveniu Cármides de que não devia participar nos Jogos nemeus: se ele tivesse feito caso, não teria perdido o tempo no treinamento. Parece, até, que Sócrates previu, graças ao seu daimónion, a grande catástrofe da Sicília. | ||
| + | |||
| + | Quanto a si, Sócrates actuava com tranquilidade, | ||
| + | |||
| + | As interpretações do daimónion de Sócrates acumularam-se a partir de Dicearco. Os Estóicos, fiéis à sua ideia de ordenar todo o fenómeno religioso dentro da religião tradicional, | ||
| + | |||
| + | O daimónion não é mais do que um desses intermediários que estabelecem a comunicação entre os deuses e os homens, apenas mais pessoal que os sonhos ou as visões adivinhatórias. S. Agostinho, na Cidade de Deus, considera o «demónio» socrático como um princípio fundamental do paganismo: influía nessa interpretação o demonismo tremendo que predominava no tempo do bispo de Hipona. | ||
| + | |||
| + | O que importa sublinhar é que, com o seu daimonion Sócrates nem negava Deus nem introduzia divindades novas. O que tinha, isso sim, era uma concepção já muito depurada e muito superior da verdadeira divindade; vivia em comunhão com ela; não se contentava com o primeiro grau helénico da atitude do homem para com Deus, que consistia na syngeneia ou parentesco, mas alcandorava-se ao cume ideal da religiosidade teológica grega (tão fortemente vincada em Platão), que consistia na semelhança com Deus (homoiosis theo) o mais íntima possível. Na Teologia cristã, Deus não se revela directamente a cada cristão, | ||
| + | |||
| + | Não seria o daimonion de Sócrates (sem pretensões ridículas de cristiianizar o que ainda estava longe de ser cristão) uma espécie de intuição de que Deus se manifesta ao homem, particularmente ao homem que o procura mais com o coração do que com a inteligência, | ||
| + | |||
| + | Decidiu-se a pôr à prova o oráculo. Interrogou um homem político, e verificou que aquele sabia menos do que ele. Talvez nem um nem outro entendessem lá muito da política; mas, enquanto aquele se julgava sabedor de tal ciência, embora de facto nada soubesse a respeito dela, ele, Sócrates, reconhecia a sua ignorância e mostrava o seu desejo de se instruir. De inquérito em inquérito, sempre com o mesmo resultado, Sócrates chegou à conclusão que a falsa sabedoria é a pior das ignorâncias; | ||
| + | |||
| + | Não menos do que o tão discutido daimónion de Sócrates, interessa para a história do pensamento teológico de Sócrates e Platão a criação da teoria das Ideias ou das Formas. Esta passa, geralmente, por platónica. A verdade, porém, é que foi Sócrates quem a criou: é, pois, criação socrática, embora a sua elaboração seja platónica. É possível que Sócrates a tenha recebido dos Pitagóricos. Aparece mencionada, pela primeira vez, no Fédon. Símias diz que, depois da morte de Sócrates, já não haveria quem a comentasse. A. Tovar afirma que a teoria das Ideias é «inteiramente platónica». Pelo contrário, Rafael Arrillaga Torréns não hesita em contraditá-lo, | ||
| + | |||
| + | Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | Que Sócrates admitia ideias inatas, como Platão, parece evidente, a julgar pelos seus famosos métodos da ironia e da maiêutica. No Ménon refere Platão um caso típico do processo maiêutico. Sócrates consegue, mediante uma série de perguntas apropriadas, | ||
| + | |||
| + | Como Platão, Sócrates era contemplativo. Não assim Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | Em Platão, a contemplação é o remate de toda a dialéctica. Esta e o conhecimento através dos seres e objectos sensíveis. Culmina-a a contemplação que, embora seja «caça à realidade» (tou ontos thera), traduz já contacto com essa «realidade» por excelência, | ||
| + | |||
| + | A theoria diz mais: implica um sentimento de «presença», | ||
| + | |||
| + | Mas só mediante a catarse (katharsis) ou purificação de tudo o que é corpóreo é que a alma pode atingir a contemplação pura do mundo ideal, contemplação essa de que gozara já antes de se unir ao corpo. | ||
| + | |||
| + | Qual seja esse mundo ideal e qual a sua relação com Deus é o que veremos seguidamente em Platão. | ||
