autores:szlezak:mito-da-escrita
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| + | ===== Mito da escrita ===== | ||
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| + | Em 274 a6, Sócrates começa a extrair das explanações feitas até aí as conclusões a respeito da conveniência ou inconveniência do escrever. Aqui, ele se orienta pela aprazibilidade a deus da relação humana com os “discursos” (λόγοι) (274 b9). Sobre aquilo que apraz a deus, ele afirma ter sido informado apenas por ouvir dizer (cl), mas logo enuncia também — sem nada prometer — a possibilidade de obter conhecimento próprio sobre aquilo que nos tomaria independentes das opiniões humanas (c2-3). | ||
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| + | Esse “ouvir dizer” consiste numa pequena história sobre o antigo deus Thoth, narrada no Egito, como diz Sócrates. Fedro percebe que a história não é autêntica (275 b3) — e é imediatamente repreendido por essa crítica: pouco importa de onde vem a história e quem a narra; só conta se o que é dito está certo (b5-c2). Com efeito, não se trata de um ouvir dizer, mas do conhecimento próprio. A interpretação desse conhecimento sob máscaras alheias perturba apenas o indivíduo não filosófico. | ||
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| + | A história “egípcia” narra como o deus Thoth apresentou suas invenções ao rei Thamus, entre elas a escrita (γράμματα). O crítico rei julgou a nova aquisição de modo menos favorável do que o orgulhoso inventor: a escrita não tornará aquele que a aprende mais sábio nem fortalecerá sua memória, como crê Thoth. Ao contrário, ela promoverá o esquecimento nas almas, pois o indivíduo confiará no auxílio externo da escrita, em vez de exercitar a memória interna. A escrita é um veículo do recordar, não da memória. E a escrita não produzirá sabedoria, pois por meio dela o indivíduo poderá “ouvir” muita coisa sem o acompanhamento do ensinamento (διδαχή), | ||
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| + | A sentença de Heráclito, “a multiplicidade de noções não ensina a ter inteligência” (πολυμαθίη νόον ’ἔχων ού διδάςκει), | ||
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| + | Após a já citada repreensão de Fedro, Sócrates estabelece, como conclusão da história, que seria muito simplista achar que se pode transmitir uma “arte” (τέχνη) por meio de letras ou receber delas algo claro e confiável. Tudo o que os λόγοι escritos podem fazer é lembrar ao conhecedor aquilo de que trata o escrito (275 c5-d2). | ||
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| + | Na formulação sintética do que se deve aprender com a história de Thoth, o significado de “arte” (τέχνη) aqui deve ser o mesmo que está na própria história. As “artes” que o deus havia inventado são jogo de tabuleiro, dados, escrita, aritmética, | ||
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| + | O serviço prestado pela escrita consiste em lembrar àquele que sabe as coisas comunicadas (275 c8-d2). O “que sabe” (ó είδώς) não pode ser outro senão o σοφός, o sábio, do qual ο δοξόσοφος se distingue pelo fato de ter continuado sem ensinamento ἄνευ διδαχής. A história de Thoth quer mostrar que o despertar primário do verdadeiro conhecimento está ligado ao ensinamento, | ||
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