autores:torrano:quatro-linhagens-e-combates

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 +===== Quatro linhagens - Quatro combates =====
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 +//TORRANO, Jaa. O Sentido de Zeus. São Paulo: Iluminuras, 1996.//
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 +A unidade unicamente inteligente não anui e anui à interpelação do nome de Zeus.
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 +Em consonância com a ambiguidade fundamental do nome de Zeus, a unidade unicamente inteligente não anui e anui. Essa ambiguidade se deve a que o nome de Zeus, por indicar o momento em que o todo (pre)pondera (sobre) as partes, implica também o sentido de parte preponderante que mantém como tais as partes ponderadas - como se lê, por exemplo, na Ilíada:
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 +e aí é que áurea o Pai estende a balança,
 +nela põe duas Cisões de longidolente morte:
 +a de Aquiles e a de Heitor domador de potros
 +(II. XXII, 209ss)
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 +No sentido dessa ponderação de Zeus, os "desígnios do grande Zeus" (Diòs megálou dià boulás, T. 465), mencionados na Teogonia no mito de Crono como a causa do comportamento pedofágico de Crono, e a "decisão de Zeus" (Diòs... boulé, II. I, 5), de que fala a Ilíada como da causa dos acontecimentos, dizem o mesmo que dizem as Motrai, "Partes" que presidem a participação de cada imortal e de cada mortal em ter e em ser. Entretanto, o nome de Zeus também implica o sentido de uma parte preponderada pelo todo: justamente a parte de um Zeus que não pode - enquanto se mantiver como mantenedor - subtrair seu filho Sarpédon à parte que cabe aos mortais como o quinhão que lhes cabe em comum (II. XVI, 431ss).
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 +A inserção na linhagem genealógica é o modo de o pensamento teogônico determinar a essência de cada Deus. Assim se dão os termos que determinam a essência de Zeus não só nos mitos de Céu e de Crono mas também no catálogo de esposas e de filhos de Zeus.
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 +A Oceanina Métis ("Astúcia"), "a mais sábia, dentre os Deuses e os homens mortais" (T. 886), e sua filha Atena de olhos glaucos (T. 924) principiam e fecham o catálogo (T. 886-929). Neste círculo assim principiado e fechado, primeiro vêm Thémis ("Lei") e suas duas tríades de filhas: 1) Hórai, as "Sazões", "que sazonam as lavouras dos morituros mortais", a saber: Eunomíe ("Eqüidade"), Díke ("Justiça") e Eiréne Tethaluia ("Paz viçosa"); e 2) Moirai "as Partes, a quem mais deu honra o sábio Zeus", a saber: Klothó ("Fiandeira"), Lákhesis ("Distributriz") e Átropos ("Inflexível"), por cujos dons "os homens mortais têm o bem e o mal" (T. 904ss).
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 +Esta última tríada - gerada por Zeus em união com Thémis e honrada por Zeus Metíeta ("sábio", no sentido de sua união com Métis) - é inserida também na linhagem de Caos, na qual se inscrevem todas as formas da negação de presença e da privação de ser. Esta dupla filiação das Moiras ("Partes"), nascidas da união amorosa de Zeus e de Thémis ("Lei") e nascidas por cissiparidade da Noite imortal (T. 217), figura a ambígua unidade da relação de identidade e de alteridade entre Céu e Terra, e entre Terra e Tártaro, esta última aliás repetida com seu caráter privativo na relação entre Eros e Caos. Esta dupla filiação das "Partes" aliás ainda figura a ambiguidade fundamental do nome de Zeus que: 1) ora soa como o todo que predomina sobre as partes, 2) ora soa como parte predominante que mantém as partes dominadas tais quais por essência necessária elas se têm.
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 +As quatro fases e quatro zonas, centradas no plano terrestre, fundadas por Deusa Terra, configuram na imagem visível do eidos do Mediterrâneo a unidade complexa das quatro diversas linhagens divinas, cujos seres são bem e sabiamente definidos por Zeus mediante quatro combates; e assim esta quádrupla tétrada, tomada como fio condutor da descrição do devir dos Deuses, figura o modo originariamente helênico de pensar o fenômeno do mundo.
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