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 //AZARA, Pedro. "Introducción" en FICINO, Marsilio. Sobre el furor divino y otros textos. Barcelona, Anthropos, 1993// //AZARA, Pedro. "Introducción" en FICINO, Marsilio. Sobre el furor divino y otros textos. Barcelona, Anthropos, 1993//
  
-Segundo Ficino, o todo se organiza, de modo geralem cinco graus fases distintosque se referem mutuamente uns aos outros, para retornar por fim, em sua contínua sucessãoao Ser Uno incondicionado.+A capela Médicis do palácio florentino Medici-Riccardi é alegrada por afrescos de tons flamejantes que despertam a imaginação dos visitantes desde o século XIX. Obras de Benozzo Gozzolielas mostram lento e majestoso desfile, entre os campos arados sobrios e recortados próximos a Florença, de potentados exóticos a cavalocobertos de damascos dourados com tocados orientais côncavosacompanhados por pajenssoldados galgos.
  
-A ordenação da realidade empírica se estrutura organiza conforme participação nos dois princípios opostos da pluralidade e da unidade. Partindo do corpo das qualidades corporais, caminho conduz à alma humana destapor sua vezeleva-se às "inteligências" celestes puras e ao ser divino.+O interesse que suscitaram deve-se ao fato de que, durante muito tempo, acreditou-se que ilustravam um acontecimento histórico, excepcional decisivo para o renascimento da cultura europeia: chegada de sábios orientais, com uma aura de magos, à capital da Toscana, no início do século XV; o encontro entre o Oriente e o Ocidente ou o reencontro entre as duas metades do antigo Império Romano e, além dissoa entrada de filosofias antigas, esquecidas ou desconhecidas no Ocidente[1].
  
-Enquanto corpo como tal, graças à divisibilidade ao infinito, se decompõe simplesmente numa pluralidade de elementossem possuir em si um princípio de limitação determinaçãoas qualidadescomo a luz a cor por exemplojá figuram num grau superior. Embora também pareçam estar aderidas à matéria e só se manifestem nas massas extensas, verdadeira origem de sua ação não deve ser buscada, no entanto, no campo do mais ou menos puramente extensivo. Não necessitam da extensão em comprimentoprofundidade larguramas já se contêmem sua totalidade indivisas, em cada uma de suas partespor menores que sejam, em cada ponto da massa.+Costuma-se dizer que uma das principais diferenças entre a Idade Média e Renascimento residia no fato de que a cultura medieval recorria ao aristotelismo para conhecer os segredos do mundo terrestre e ao cristianismo para tudo o que se referia aos problemas da almaenquanto o Renascimento resolveu as relações entre o homem Deuse justificou o comportamento humano graças ao platonismo em detrimento da religião, e recorreu à ciência nascentejustificada pela confiança que o neoplatonismo tinha na capacidade do homem para resolver problemas estritamente materiais ou terrestres. Embora seja verdade que cultura aristotélica não desapareceu a partir do século XV[2]entre a queda do Império Romano do Ocidente no século V o reencontro de Roma com Bizâncio mil anos depoisno Ocidente só se conheciam quatro diálogos de Platão[3], e mesmo assim em versões latinasuma vez que o grego caiu no esquecimento.
  
-São, portanto, na realidade, naturezas e determinabilidades individuais, às quais não afeta em nada a divisão do "sujeito" corpóreo no qual momentaneamente se apresentam. Assimpor exemplo, o branco contido em qualquer parte de um corpo branco não pode ser pensado, rigorosamente, como uma parte da qualidademas apenas como a qualidade de uma partea desintegração afeta apenas substrato material, não a cor em si, que revela por toda parte a mesma natureza e qualidade "indivisíveis". A "ratio albedinis" ou qualidade da brancura é a mesma em todo o corpo e em cada uma de suas partes integrantes.+Nesta introdução à antologia de textos do monge renascentista Marsilio Ficino sobre o conceito de furor divino, pretende-se mostrar quegraças à recuperação dessa noção, o homem deixou de ser um “saco cheio de imundícies e excrementos”, como o qualificava o papa medieval Inocêncio III, e se tornou um poderoso descobridor e dominador de novos mundosbem como o criador de um mundo até então inexistente: o universo da fantasia artística.
  
-Assimencontramo-nos aqui com uma nova relação entre a unidade e a pluralidade: o traço distintivo da qualidade não é obtido por via de síntesemas é captado como uma unidade essencialque só participa das determinações da quantidade de modo mediatoao estender-se sucessivamente, por assim dizersobre as distintas partes de um corpo.+Tentaremos seguir os passos de Ficinodescobrindo junto com ele com mesma inocência alguns dos autores e textos que determinaram sua formação filosófica e sua concepção do furor[5]. Serão feitas breves introduções históricas aos diferentes conceitos que Ficino manejoumostrando como sua poética reúne influências neoplatônicas, herméticas, sobretudo, e cristãs, sobre uma base de sólido platonismoe como em sua concepção do furor poético se unem, por um lado, o furor da alma platônica de qualquer ser humano não embrutecido pelos prazeres quando descobre instintivamente a Verdadee o furor da alma hermético-plotiniana dos religiosos na graça do Ser Supremo, e, por outro ladoo entusiasmo aristotélico dos homens privilegiados, influenciados por Saturno, os poetas.
  
-E é nas qualidades dos corpos que residem todas as suas forças capacidades de açãojá que a simples massa indistinta como tal é totalmente passiva inerte; que significa que toda potência toda atividade atribuídas por nós a um corpo têm sua origem devem buscar seu fundamento último não no material delemas numa "natureza incorpórea".+Sobre o furor divino outros textos está relacionado com o meu ensaio A inspiração artística no Renascimento (a ser publicado). Estes dois volumes constituem a base da minha tese de doutoradoorientada pelo Dr. Eugenio Trías Sagnier lida na ETS de Arquitetura de Barcelona. Graças a uma bolsa do Ministério da Cultura (1987), pude transformar texto principal no ensaio A inspiração artística, graças ao interesse à confiança da Editorial Anthropospude anotar e comentar os textos ficinianos sobre o furor incluídos na presente antologia.
  
-Toda essa discussão de Ficino, embora tenda a chegar a conclusões de ordem metafísica, encerra, no entanto, ao mesmo tempo, na separação conceitual que estabelece entre a quantidade a qualidade, um fundo lógico puroum conteúdo que ressalta com clareza e nitidez quando comparamosolhando para trás, com doutrina de Nicolau de Cusa e, olhando para frente, com de Leibniz (cfrsuprapp. 85 s.).+No entanto, esses dois livros não são redundantes. Enquanto no ensaio a poética do furor, de Ficino, era tomada como ponto de partida para o estudo da poética e da tratadística maneirista barrocaneste presente volume ela aparece como o fim de um movimento iniciado mil anos antesdurante helenismo. No primeiro casovalorizava-se o que teoria da arte clássica devia FicinoAo contrárioagora insiste-se no que Ficino deve ao neoplatonismo e ao hermetismo helenísticos.
  
-O segundo graudesignado pela qualidadeé aquele sobre o qual se elevam as outras forças espirituais do universoEnquanto o corpo representa — segundo o critério dos pitagóricos — a pluralidade pura e simplese a qualidade a pluralidadena medida em que esta se combina com a unidade e participa dela, a alma é a unidade originária, que, no entanto, precisa enfrentar a variedade para nela adquirir consciência de si mesma. Enquanto a cor brancamesmo distinguindo-se conceitualmente do corpo em que se dá, está como presa enredada nele quanto à sua realidade empíricaa alma conserva dentro de sua comunidade com o corpo no qual reside seu próprio ser substantivo e independência de sua própria natureza. Não está contida nele nem como uma parte no todo nem como o ponto na linha.+Ambos os livros devem seu ponto de vista ao ensaio clássico de André ChastelMarsile Ficin et l’art (Genebra/LilleLibrairie EDroz / Librairie R. Giard1954)fundamental para compreender teoria da arte de Ficino como ponte entre dois momentoso helenismo o maneirismoque têm tantos pontos de contato com a modernidade.
  
-Pois o pontomesmo representando uma unidade fechada em si e indivisível, indica uma situação isolada dentro do espaço e expressa, nesse sentido, uma determinabilidade local limitada. A almaao contráriodeve ser concebida como a unidade que encerra e faz brotar de si mesma uma totalidade infinita de determinações; nesse sentidodeve ser comparada não a qualquer ponto, mas, por exemplo, ao centro de um círculo, que pode referir-se igualmente, para que o conceito do círculo se cumpra, a todos os pontos da periferia. É, portanto, de certo modo, "um ponto vivo em si mesmo", não sujeito a nenhuma quantidade nem a nenhuma situação determinada, mas capaz, partindo de dentro, de desenvolver-se livre e ilimitadamente para a variedadesem perder-se nela.+Os estudos sobre Ficino são atualmente muito acessíveis graças às exaustivas pesquisas de Michael J.B. Allenespecialmente em The Platonism of Marsilio Ficino. A study of his Phaedrus Commentaryits sources and genesis (Berkeley / Los Angeles / LondresUcla Center for Medieval and Renaissance StudiesUniversity of California Press1984).
  
-São também alguns dos motivos fundamentais da filosofia de Nicolau de Cusa os que aqui seguem influenciando Ficino. A alma é ao mesmo tempo divisível e indivisível, igual por sua essência à suprema unidade absoluta e constantemente orientada para pluralidade as mudanças do mundo dos corpos. Constitui a verdadeira e mais profunda maravilha da criaçãopois todas as demais coisaspor mais perfeitas que as representemospossuem e encarnam sempre um ser especialenquanto ela representa e contém o universo em sua totalidade.+Minha leitura da poética de Ficino e sua influência nas artes plásticas é necessariamente influenciada por minhas pesquisas sobre influência da teurgia na pintura na escultura renascentistasrealizadas no Warburg Institute de Londres (1990)que deram origem ao ensaio Imagem do invisível (BarcelonaAnagrama1992).
  
-> "A alma abriga em si as imagens das entidades divinasdas quais depende, como os fundamentos os protótipos das coisas inferioresque de certo modo cria por sua própria conta. É o centro do universo nela se cifram condensam as forças de tudo. Adentra-se em tudomas sem abandonar uma parte quando se dirige à outra, pois é o verdadeiro elo das coisasDaí que possamos chamá-la com razão o centro da naturezao foco do universoa cadeia do mundo, a face de tudo o nexo e o vínculo de todas as coisas."+Gostaria de agradecer os conselhos do Dr. Eugenio Trías sobre a filosofia helenística (cristãórfico-hermética neoplatônica). Por acaso, e com objetivos ambições diferentesconsultamos os mesmos livrosSeus ensinamentosperspicazes e pertinentesenfatizaram autores como Filon Clemente de Alexandria, amplamente comentados pelo próprio Ficino.
  
-Toda coisa sensível tendepor virtude de sua própria natureza, a remontar-se à sua origem espiritual e superiormas essa reversão interior não pode operar-se nas coisas mesmas nem nas substâncias espirituais que estão sobre nós ou ao nosso redormas somente na alma do homem. Somente ela pode impregnar-se plenamente com a consideração do concreto do material sem deixar-se aprisionar por isso; somente ela pode elevar as mesmas percepções dos sentidos ao plano do geral e do espiritual.+Agradeço igualmente os conselhos filológicos desinteressados do Dr. Darío Lópezque teve a gentileza de revisar várias das traduções dos textos ficinianossugerindo possíveis novas vias de investigação sobre cultura filosófica de Ficinobem como a presente introduçãocontribuindo com numerosos esclarecimentos precisões.
  
-> "E assimo raio divino que se derrama sobre o mundo inferior volta a projetar-segraças ela, para as regiões mais altas... É espírito humano quem restaura o universo estremecido, pois graças à sua atividade depura-se esclarece-se continuamente o mundo corpóreo, aproximando-se cada dia mais do mundo espiritual, do qual um dia emanou."+Não esqueço as facilidades concedidas pelo pessoal da Biblioteca de Letras da Universidade Central de Pedralbesem Barcelonae do Warburg Institute, em Londres (Biblioteca e Arquivo Fotográfico), especialmente François Quiviger, e impassibilidade (inglesa) que demonstraram quando eu devastou as prateleiras que abrigam neoplatonismo Ficino.
  
-Nessas palavras, nas quais se afirma singular posição e significação cósmica da alma humanareside o fundamento mais profundo e substancial da influência que a Academia platônica exerce sobre toda a cultura filosófica e artística dessa época; os pensamentos que aqui Ficino expressa ressoarão, com o tempo, no discurso de Pico della Mirandola sobre a dignidade do homem e, animados por uma força e profundidade extraordinárias, nos sonetos de Michelangelo.+E uma lembrança agradecida Félix de Azúa, que me encorajou embarcar novamente na fúria.
  
-No entanto, por muito que nos movamos aqui sob o influxo de Plotino e de suas doutrinas estéticas fundamentais, vemos já transparecer neste ponto um novo interesse que aponta para uma nova abordagem, para uma abordagem moderna do problema. O neoplatonismo indica, sem dúvida, o caráter geral da doutrina de Ficino, mas não esgota a totalidade de seu conteúdo nem sua significação histórica. Quantos até agora estudaram o platonismo de Ficino detiveram-se exclusivamente nesse traço, mas isso os levou a perder de vista justamente os germes mais vigorosos e fecundos que esse pensador aporta à filosofia e à ciência do futuro. +{{indexmenu>.#1|nsort}}
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