renascimento:ficino:azara:start
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| + | ===== FICINO (AZARA) ===== | ||
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| + | //AZARA, Pedro. " | ||
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| + | A capela Médicis do palácio florentino Medici-Riccardi é alegrada por afrescos de tons flamejantes que despertam a imaginação dos visitantes desde o século XIX. Obras de Benozzo Gozzoli, elas mostram o lento e majestoso desfile, entre os campos arados sobrios e recortados próximos a Florença, de potentados exóticos a cavalo, cobertos de damascos dourados e com tocados orientais côncavos, acompanhados por pajens, soldados e galgos. | ||
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| + | O interesse que suscitaram deve-se ao fato de que, durante muito tempo, acreditou-se que ilustravam um acontecimento histórico, excepcional e decisivo para o renascimento da cultura europeia: a chegada de sábios orientais, com uma aura de magos, à capital da Toscana, no início do século XV; o encontro entre o Oriente e o Ocidente ou o reencontro entre as duas metades do antigo Império Romano e, além disso, a entrada de filosofias antigas, esquecidas ou desconhecidas no Ocidente[1]. | ||
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| + | Costuma-se dizer que uma das principais diferenças entre a Idade Média e o Renascimento residia no fato de que a cultura medieval recorria ao aristotelismo para conhecer os segredos do mundo terrestre e ao cristianismo para tudo o que se referia aos problemas da alma, enquanto o Renascimento resolveu as relações entre o homem e Deus, e justificou o comportamento humano graças ao platonismo em detrimento da religião, e recorreu à ciência nascente, justificada pela confiança que o neoplatonismo tinha na capacidade do homem para resolver problemas estritamente materiais ou terrestres. Embora seja verdade que a cultura aristotélica não desapareceu a partir do século XV[2], entre a queda do Império Romano do Ocidente no século V e o reencontro de Roma com Bizâncio mil anos depois, no Ocidente só se conheciam quatro diálogos de Platão[3], e mesmo assim em versões latinas, uma vez que o grego caiu no esquecimento. | ||
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| + | Nesta introdução à antologia de textos do monge renascentista Marsilio Ficino sobre o conceito de furor divino, pretende-se mostrar que, graças à recuperação dessa noção, o homem deixou de ser um “saco cheio de imundícies e excrementos”, | ||
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| + | Tentaremos seguir os passos de Ficino, descobrindo junto com ele e com a mesma inocência alguns dos autores e textos que determinaram sua formação filosófica e sua concepção do furor[5]. Serão feitas breves introduções históricas aos diferentes conceitos que Ficino manejou, mostrando como sua poética reúne influências neoplatônicas, | ||
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| + | Sobre o furor divino e outros textos está relacionado com o meu ensaio A inspiração artística no Renascimento (a ser publicado). Estes dois volumes constituem a base da minha tese de doutorado, orientada pelo Dr. Eugenio Trías Sagnier e lida na ETS de Arquitetura de Barcelona. Graças a uma bolsa do Ministério da Cultura (1987), pude transformar o texto principal no ensaio A inspiração artística, e graças ao interesse e à confiança da Editorial Anthropos, pude anotar e comentar os textos ficinianos sobre o furor incluídos na presente antologia. | ||
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| + | No entanto, esses dois livros não são redundantes. Enquanto no ensaio a poética do furor, de Ficino, era tomada como ponto de partida para o estudo da poética e da tratadística maneirista e barroca, neste presente volume ela aparece como o fim de um movimento iniciado mil anos antes, durante o helenismo. No primeiro caso, valorizava-se o que a teoria da arte clássica devia a Ficino. Ao contrário, agora insiste-se no que Ficino deve ao neoplatonismo e ao hermetismo helenísticos. | ||
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| + | Ambos os livros devem seu ponto de vista ao ensaio clássico de André Chastel, Marsile Ficin et l’art (Genebra/ | ||
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| + | Os estudos sobre Ficino são atualmente muito acessíveis graças às exaustivas pesquisas de Michael J.B. Allen, especialmente em The Platonism of Marsilio Ficino. A study of his Phaedrus Commentary, its sources and genesis (Berkeley / Los Angeles / Londres, Ucla Center for Medieval and Renaissance Studies, University of California Press, 1984). | ||
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| + | Minha leitura da poética de Ficino e sua influência nas artes plásticas é necessariamente influenciada por minhas pesquisas sobre a influência da teurgia na pintura e na escultura renascentistas, | ||
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| + | Gostaria de agradecer os conselhos do Dr. Eugenio Trías sobre a filosofia helenística (cristã, órfico-hermética e neoplatônica). Por acaso, e com objetivos e ambições diferentes, consultamos os mesmos livros. Seus ensinamentos, | ||
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| + | Agradeço igualmente os conselhos filológicos desinteressados do Dr. Darío López, que teve a gentileza de revisar várias das traduções dos textos ficinianos, sugerindo possíveis novas vias de investigação sobre a cultura filosófica de Ficino, bem como a presente introdução, | ||
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| + | Não esqueço as facilidades concedidas pelo pessoal da Biblioteca de Letras da Universidade Central de Pedralbes, em Barcelona, e do Warburg Institute, em Londres (Biblioteca e Arquivo Fotográfico), | ||
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| + | E uma lembrança agradecida a Félix de Azúa, que me encorajou a embarcar novamente na fúria. | ||
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