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| + | ===== FICINO (CASSIRER) ===== | ||
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| + | A obra-prima de Ficino, a Theologia Platonica de immortalitate animorum, não é, certamente, se a considerarmos externamente, | ||
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| + | A concepção moderna, já desde os tempos do Renascimento, | ||
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| + | Isso explica por que Ficino, mesmo onde sua doutrina parece perseguir única e exclusivamente seu principal objetivo metafísico, | ||
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| + | É preciso reconhecer, acima de tudo, como um grande mérito deste pensador o fato de ter sido o primeiro a transmitir à posteridade, | ||
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| + | Quando Ficino, para provar a imortalidade do espírito, parte sobretudo da infinitude da sua função, segue claramente as pegadas de Nicolau de Cusa. Todo conceito autêntico formado por nós contém um número ilimitado de exemplares concretos; todo ato do pensamento possui e exerce a maravilhosa força de reduzir a unidade uma infinita pluralidade e de fazer com que até a mais simples unidade se dissolva na infinitude. Como poderia o espírito não ser algo ilimitado em sua força e essência, sendo ele quem descobre a própria infinitude e a define de acordo com seu caráter e natureza? | ||
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| + | Todo conhecimento representa a adequação e adaptação do sujeito cognoscente aos objetos com os quais se depara (cognitio per quandam mentís cum rebus aequationem perficitur); | ||
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| + | O postulado da total adequação e “proporção” que deve prevalecer entre o objeto e a função do conhecimento torna-se agora o leitmotiv da doutrina de Ficino. O intelecto e o objeto “inteligível” não se enfrentam como dois elementos estranhos e externos um ao outro, mas têm, pelo contrário, a mesma origem e formam, em sua máxima e suprema perfeição, | ||
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| + | > “Da mesma forma que os corpos vivos mudam, se reproduzem, se nutrem e crescem por meio da semente que abrigam em si mesmos, assim também o julgamento e o sentido interior julgam todas as coisas em virtude das formas inatas que residem neles e que são estimuladas a partir do exterior”. | ||
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| + | Portanto, o conteúdo da consciência não é tanto uma imagem do objeto exterior quanto uma emanação de nossa própria capacidade espiritual, e assim se explica que um mesmo objeto nos pareça diferente, dependendo de quem o contempla e modela esta ou aquela potência do nosso espírito, o sentido, a fantasia ou a razão. | ||
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| + | > “O julgamento se ajusta à forma e à natureza de quem julga, não à do objeto julgado.” | ||
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| + | As próprias “imagens” das coisas concretas traçadas pela fantasia não são “incutidas” diretamente por ela no espírito; com tanta razão devemos ver nos conceitos intelectuais puros, não as cópias da realidade externa, mas os produtos da capacidade do entendimento. Em vão nos daríamos ao trabalho de querer derivar o conteúdo desses conceitos das percepções e imagens dos nossos sentidos. Como poderia o “fantasma” sensorial criar algo mais livre e mais amplo do que ele mesmo? | ||
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| + | O mundo dos corpos forma uma pluralidade desconexa de objetos concretos especiais e limitados, os quais, no entanto, considerados isoladamente, | ||
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| + | > “Assim como uma acumulação de pedras nunca pode se traduzir em algo simples, mas simplesmente em um monte, também uma multidão de coisas concretas pode produzir uma mistura confusa de imagens, mas sem nunca chegar a criar um conceito único e simples.” | ||
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| + | [CASSIRER, E. El problema del conocimiento en la filosofia y en la ciencia modernas. Wenceslao Roces Suárez. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1953.] | ||
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