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| Excertos de Umberto Eco, "Arte e Beleza na Estética Medieval" | Excertos de Umberto Eco, "Arte e Beleza na Estética Medieval" |
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| Marcílio Ficino, que traduzirá e comentará tanto os [[platao:start|Diálogos de Platão]] como as [[neoplatonismo:plotino:tratados-eneadas:start|Enéadas]] de [[neoplatonismo:plotino:start|Plotino]], empreende por ordem de Cosimo de Medici a tradução do Corpus, que ele traduzirá de forma incompleta com o título de [[helenismo:corpus-hermeticum:ch-tratados:ch1:poimandres:start|Pimander]]. Ficino - e com ele todo o ambiente humanístico - considera o Corpus documento de uma antiga sabedoria pré-egípcia, talvez obra do próprio Moisés. Mas, diferentemente do relato bíblico, a gênese do mundo, da qual se fala no primeiro texto do Corpus, sublinha o fato de que o homem não só é criação de Deus, mas ele mesmo é divino. Sua queda não se deve ao pecado, mas a sua capacidade de inclinar-se para a Natureza, movido pelo amor por ela. | Marcílio Ficino, que traduzirá e comentará tanto os Diálogos de Platão como as Enéadas de Plotino, empreende por ordem de Cosimo de Medici a tradução do Corpus, que ele traduzirá de forma incompleta com o título de Pimander. Ficino - e com ele todo o ambiente humanístico - considera o Corpus documento de uma antiga sabedoria pré-egípcia, talvez obra do próprio Moisés. Mas, diferentemente do relato bíblico, a gênese do mundo, da qual se fala no primeiro texto do Corpus, sublinha o fato de que o homem não só é criação de Deus, mas ele mesmo é divino. Sua queda não se deve ao pecado, mas a sua capacidade de inclinar-se para a Natureza, movido pelo amor por ela. |
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| O [[helenismo:corpus-hermeticum:start|Corpus hermeticu]]m, sendo uma compilação, contém ideias que frequentemente se contradizem de livro para livro. De resto, toda a tradição à qual o humanismo se remete tem caráter sincrético; os próprios humanistas, a começar por Ficino e Pico della Mirandola, pretendem demonstrar a fundamental concordância entre as sabedorias tradicionais que, a despeito das aparentes contradições, reafirmariam as verdades fundamentais do cristianismo. Um gosto historiográfico por um depósito de verdades contraditórias funde-se com os fermentos da metafísica da contradição já expressa por Nicolau de Cusa. A fusão do neoplatonismo, cabalismo, hermetismo leva os estudiosos da nova era a ver na contradição só o infinito desdobramento da sabedoria divina, da própria ação de Deus no cosmo. | O Corpus hermeticum, sendo uma compilação, contém ideias que frequentemente se contradizem de livro para livro. De resto, toda a tradição à qual o humanismo se remete tem caráter sincrético; os próprios humanistas, a começar por Ficino e Pico della Mirandola, pretendem demonstrar a fundamental concordância entre as sabedorias tradicionais que, a despeito das aparentes contradições, reafirmariam as verdades fundamentais do cristianismo. Um gosto historiográfico por um depósito de verdades contraditórias funde-se com os fermentos da metafísica da contradição já expressa por Nicolau de Cusa. A fusão do neoplatonismo, cabalismo, hermetismo leva os estudiosos da nova era a ver na contradição só o infinito desdobramento da sabedoria divina, da própria ação de Deus no cosmo. |
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| O neoplatonismo humanístico é, em relação ao medieval, um neoplatonismo forte, que não foi revisto pela exigência de salvaguardar a racionalidade e a não-contraditoriedade do princípio divino. Reconectando-se ao neoplatonismo das origens, de Plotino e Proclo, recolocam-se uma metafísica e uma ontologia pelas quais, no topo da escala dos seres, está um Uno inacessível e obscuro, que, não sendo suscetível a nenhuma determinação, contém todas elas e é, portanto, o lugar, fecundíssimo, da própria contradição. Mas como este Uno não é transcendente ao mundo - identifica-se com ele em um movimento de criação contínua - todo elemento do mobilamento mundano participa desta riqueza de sua origem. Na própria vida da realidade criada realiza-se, continuamente, e sob aspectos sempre novos, a coincidência dos opostos. | O neoplatonismo humanístico é, em relação ao medieval, um neoplatonismo forte, que não foi revisto pela exigência de salvaguardar a racionalidade e a não-contraditoriedade do princípio divino. Reconectando-se ao neoplatonismo das origens, de Plotino e Proclo, recolocam-se uma metafísica e uma ontologia pelas quais, no topo da escala dos seres, está um Uno inacessível e obscuro, que, não sendo suscetível a nenhuma determinação, contém todas elas e é, portanto, o lugar, fecundíssimo, da própria contradição. Mas como este Uno não é transcendente ao mundo - identifica-se com ele em um movimento de criação contínua - todo elemento do mobilamento mundano participa desta riqueza de sua origem. Na própria vida da realidade criada realiza-se, continuamente, e sob aspectos sempre novos, a coincidência dos opostos. |