renascimento:nicolau-cusa:metafora-relogio
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| renascimento:nicolau-cusa:metafora-relogio [05/01/2026 12:42] – created mccastro | renascimento:nicolau-cusa:metafora-relogio [05/01/2026 13:02] (current) – mccastro | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| ====== | ====== | ||
| + | |||
| + | DUCLOW, Donald F. Engaging Eriugena, Eckhart and Cusanus. London New York (N.Y.): Routledge, 2024. | ||
| A invenção do relógio mecânico na Idade Média constitui um marco tecnológico de grande impacto cultural e simbólico. | A invenção do relógio mecânico na Idade Média constitui um marco tecnológico de grande impacto cultural e simbólico. | ||
| Line 19: | Line 21: | ||
| * Duração infinita (eternidade): | * Duração infinita (eternidade): | ||
| * Percepção humana vs. conceito divino: o que nos aparece em sucessão não existe de modo subsequente ao conceito de Deus, que é a eternidade. | * Percepção humana vs. conceito divino: o que nos aparece em sucessão não existe de modo subsequente ao conceito de Deus, que é a eternidade. | ||
| - | * Coincidência na eternidade: na eternidade, toda sucessão temporal coincide no mesmo *agora* (*nunc*) eterno. Nada é passado ou futuro onde futuro e passado coincidem com o presente. | + | * Coincidência na eternidade: na eternidade, toda sucessão temporal coincide no mesmo //agora// (//nunc//) eterno. Nada é passado ou futuro onde futuro e passado coincidem com o presente. |
| * Peso ontológico da análise: Deus cria ao conceber e falar. A sucessão "antes e depois" | * Peso ontológico da análise: Deus cria ao conceber e falar. A sucessão "antes e depois" | ||
| * Limite da linguagem temporal: pensamento e linguagem, imersos no tempo, só podem expressar relação tempo/ | * Limite da linguagem temporal: pensamento e linguagem, imersos no tempo, só podem expressar relação tempo/ | ||
| Exemplo paradoxal: Adão e um nascido hoje. | Exemplo paradoxal: Adão e um nascido hoje. | ||
| - | * Parece impossível que Adão tenha existido há tanto tempo porque Deus assim o quis *então*, e que, no entanto, Deus não tenha querido a existência de Adão *antes* de querer a existência do nascido hoje. | + | * Parece impossível que Adão tenha existido há tanto tempo porque Deus assim o quis //então//, e que, no entanto, Deus não tenha querido a existência de Adão //antes// de querer a existência do nascido hoje. |
| * Estratégia de Cusa: em vez de evitar contradição, | * Estratégia de Cusa: em vez de evitar contradição, | ||
| Introdução da metáfora do relógio para ilustrar unidade do conceito divino e variedade de sua manifestação sucessiva. | Introdução da metáfora do relógio para ilustrar unidade do conceito divino e variedade de sua manifestação sucessiva. | ||
| * O " | * O " | ||
| - | * Distinção fundamental: | + | * Distinção fundamental: |
| * Experiência sensorial: ouvimos o relógio bater a sexta hora antes da sétima. | * Experiência sensorial: ouvimos o relógio bater a sexta hora antes da sétima. | ||
| - | * O conceito do relógio: envolve (*complicat*) toda sucessão temporal. No conceito único do relógio, nenhuma hora é anterior ou posterior a outra. | + | * O conceito do relógio: envolve (//complicat//) toda sucessão temporal. No conceito único do relógio, nenhuma hora é anterior ou posterior a outra. |
| - | * Governo do conceito: o relógio só bate a hora quando o conceito assim o ordena. Ao ouvirmos a sexta hora, é verdade dizer que ela soa *então* porque o conceito do mestre assim o quer. | + | * Governo do conceito: o relógio só bate a hora quando o conceito assim o ordena. Ao ouvirmos a sexta hora, é verdade dizer que ela soa //então// porque o conceito do mestre assim o quer. |
| Transposição da metáfora para o problema especulativo maior. | Transposição da metáfora para o problema especulativo maior. | ||
| - | * Polaridade central: complicação (*complicatio*) e explicação (*explicatio*), adaptada de Boécio e Thierry de Chartres. | + | * Polaridade central: complicação (//complicatio//) e explicação (//explicatio//), adaptada de Boécio e Thierry de Chartres. |
| - | * O conceito do relógio | + | * O conceito do relógio |
| * Aplicação teológica: o conceito de Deus envolve todos os movimentos, sons e tempos numa unidade simples e eterna, que se desenvolve na multiplicidade da criação e na sucessão das horas. | * Aplicação teológica: o conceito de Deus envolve todos os movimentos, sons e tempos numa unidade simples e eterna, que se desenvolve na multiplicidade da criação e na sucessão das horas. | ||
| * Relação recíproca: a própria sucessão do tempo manifesta e desenvolve a eternidade divina. | * Relação recíproca: a própria sucessão do tempo manifesta e desenvolve a eternidade divina. | ||
| - | Reflexão sobre o *agora* presente como unidade que envolve o tempo. | + | Reflexão sobre o //agora// presente como unidade que envolve o tempo. |
| * O presente envolve o tempo. O passado foi presente, o futuro será presente. | * O presente envolve o tempo. O passado foi presente, o futuro será presente. | ||
| * Nada se encontra no tempo exceto o presente ordenado. | * Nada se encontra no tempo exceto o presente ordenado. | ||
| Line 48: | Line 50: | ||
| Diferença crucial da metáfora cusana em relação à metáfora comum do " | Diferença crucial da metáfora cusana em relação à metáfora comum do " | ||
| * Metáfora comum (ex.: Oresme): Deus como relojoeiro que projeta um relógio (universo) que depois se move por si mesmo, sem intervenção contínua. | * Metáfora comum (ex.: Oresme): Deus como relojoeiro que projeta um relógio (universo) que depois se move por si mesmo, sem intervenção contínua. | ||
| - | * Metáfora de Cusa: enfatiza interação entre o relógio e seu *conceito*. O conceito possui duplo papel: (1) mantém o relógio e todos os tempos dentro de seu presente unificado; (2) permanece presente e ordena o bater das horas sucessivas. | + | * Metáfora de Cusa: enfatiza interação entre o relógio e seu //conceito//. O conceito possui duplo papel: (1) mantém o relógio e todos os tempos dentro de seu presente unificado; (2) permanece presente e ordena o bater das horas sucessivas. |
| * Mensagem teológica diferenciada: | * Mensagem teológica diferenciada: | ||
| Conexão com a antropologia filosófica de Cusa: a mente humana como medida viva. | Conexão com a antropologia filosófica de Cusa: a mente humana como medida viva. | ||
| - | * Definição em *Idiota de mente*: a mente (*mens*) é uma medida viva (*viva mensura*) que mede por si mesma, como um " | + | * Definição em //Idiota de mente//: a mente (//mens//) é uma medida viva (//viva mensura//) que mede por si mesma, como um " |
| * Objetivo da atividade medidora: autoconhecimento. A mente atinge sua própria capacidade medindo outras coisas. | * Objetivo da atividade medidora: autoconhecimento. A mente atinge sua própria capacidade medindo outras coisas. | ||
| - | * Criatividade técnica em *De Ludo Globi*: a alma "cria novos instrumentos para discernir e conhecer", | + | * Criatividade técnica em //De Ludo Globi//: a alma "cria novos instrumentos para discernir e conhecer", |
| * O relógio mecânico se encaixa neste esquema: ano, mês, horas são " | * O relógio mecânico se encaixa neste esquema: ano, mês, horas são " | ||
| - | * Inversão da prioridade aristotélica: | + | * Inversão da prioridade aristotélica: |
| * Dependência do tempo em relação à alma: seguindo Agostinho, Cusa afirma que a alma não depende do tempo, mas o tempo depende da alma que o mede e que existe " | * Dependência do tempo em relação à alma: seguindo Agostinho, Cusa afirma que a alma não depende do tempo, mas o tempo depende da alma que o mede e que existe " | ||
| Interesse prático de Cusa pela medição do tempo. | Interesse prático de Cusa pela medição do tempo. | ||
| - | * Proposta de reforma do calendário: | + | * Proposta de reforma do calendário: |
| * Colecionador de instrumentos científicos: | * Colecionador de instrumentos científicos: | ||
| * Ausência notável: não há registro de que possuísse um relógio mecânico pessoal. | * Ausência notável: não há registro de que possuísse um relógio mecânico pessoal. | ||
| - | * Única ocorrência do termo: | + | * Única ocorrência do termo: |
| - | * Outra menção a relógios: no diálogo | + | * Outra menção a relógios: no diálogo |
| Conclusão sobre a metáfora e seu significado. | Conclusão sobre a metáfora e seu significado. | ||
| * Função no tratado: introduzida rapidamente para clarificar questão difícil, e igualmente rapidamente abandonada após cumprir sua função. | * Função no tratado: introduzida rapidamente para clarificar questão difícil, e igualmente rapidamente abandonada após cumprir sua função. | ||
| * Ilustra características do pensamento cusano: habilidade imaginativa na criação de símbolos novos e fascínio pelos problemas práticos e instrumentos de medida. | * Ilustra características do pensamento cusano: habilidade imaginativa na criação de símbolos novos e fascínio pelos problemas práticos e instrumentos de medida. | ||
| - | * Paradoxo histórico: embora cardeais contemporâneos em Roma investissem em relógios para suas igrejas, não há evidência de que Cusa tenha encomendado um para San Pietro in Vincoli. Satisfez-se com o jogo metafórico em torno do *conceito* de um relógio perfeito. | + | * Paradoxo histórico: embora cardeais contemporâneos em Roma investissem em relógios para suas igrejas, não há evidência de que Cusa tenha encomendado um para San Pietro in Vincoli. Satisfez-se com o jogo metafórico em torno do //conceito// de um relógio perfeito. |
renascimento/nicolau-cusa/metafora-relogio.1767634968.txt.gz · Last modified: by mccastro
