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renascimento:pico-della-mirandola:commento:start

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renascimento:pico-della-mirandola:commento:start [05/01/2026 15:19] – ↷ Page moved and renamed from renascimento:pico-della-mirandola:commento to renascimento:pico-della-mirandola:commento:start mccastrorenascimento:pico-della-mirandola:commento:start [05/01/2026 16:33] (current) mccastro
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 ====== Commento ====== ====== Commento ======
  
-//Prólogo de Stéphane Toussaint, em PICO DELLA MIRANDOLA, Giovanni. Commento. Traduit et annoté par Stéphane Toussaint. Lausanne: L’Âge d’Homme, 1989.//+//Começa por este poema que será justamente o objeto dos comentários de Pico della Mirandola.//
  
-Aplicar este título: As Formas do Invisível [ensaio que antecede a tradução do Commento]éno mínimo, pecar por lirismo, condenar-se a um projeto formidável. Idealmente, essa ambição será redimida por uma obra de maior amplitude, da qual o presente ensaio, em todos os sentidos da palavra, pretende ser o fermento.+==== POEMA DE AMOR ==== 
 +**COMPOSTO POR GIROLAMO BENIVIENICIDADÃO FLORENTINOSEGUNDO O ESPÍRITO E A DOUTRINA DOS PLATÔNICOS**
  
-O invisível transcende as formas, é uma objeção banal nunca totalmente refutável pela consideração de que, nos casos mais interessantes, não é vão ocupar uma vida. Mas invisível busca tanto as formas quanto as provoca, é uma experiência que nossos sentimentos, essas somas químicas, nos propõem cada hora. O que é mais invisível do que uma emoção, do que um alarmeo que é mais visível também? Nosso teatro clássico colheu aí seus frutos mais belos. A meio caminho entre vacuidade fulgurante e mortal e a evanescência das visões — se preferirmos, entre Damascius e Coleridge — mil léguas da demonomania ou da paranoia, essa invisibilidade acompanha nossos momentos mais humildesNela, a configuração atual da vida, a figura dos objetos se desdobram, ondulam em infinitas possibilidades. Banho revelador do que poderia ter sido ou poderia sero invisível traça o verdadeiro alcance de tudo o que flutua nele, por círculos infinitos nascidos em torno das coisas. É excesso dessa irrisão do real que faz ver o salão de Rimbaud nas poças..Mas própria moderação de tal princípio parece impossíveltanto o pensamento paralelo da hipótese faz corar o real com sua mesquinhez. Imaginar, nesse sentido, é começar a se perder. É começar a ser humano. Voltar contra ela as armas da natureza. Pois, cansados de sobreviver bem, blasés pelos sucessos da evolução ineficaz que nos levava obscuramente às finalidades piedosas do micro-ondas, talvez só salvemos nosso gosto pela vida restituindo à Ausente seu direito e sua forma. A Ausente? A Gratuidade, é clarototalmente invisível para os fins naturais; essa Esfinge solitáriaessa Vertigem de todo homem bem-nascido. A morte está lá, pelo menos, para nos lembrar da aprendizagem da Gratuidade e para nos fazer esperar que ela seja rostocertamente mais amável, do divino.+==== PRIMEIRA ESTÂNCIA ==== 
 +Amor que em sua mão tomou de meu coração o freio \\ 
 +o conserva ainda – em seu reino divino \\ 
 +não negligenciou em alimentar \\ 
 +fogo que fez arder em meu peito – \\ 
 +anima minha palavra e força meu espírito \\ 
 +contar-vos dele o que um coração ardente cela\\ 
 +mas força desfalece e a verve é rebelde \\ 
 +tanto dever operar\\ 
 +E nada pode em mim defender-se ou falar\\ 
 +todavia terei que exprimir meu pensamento: \\ 
 +jamais forte prevalece contra outro mais forte que ele\\ 
 +Porque prometeu ao espírito indolente \\ 
 +esta asa sobre qual na alma desceu\\ 
 +– ainda que sempre habite no seu cume \\ 
 +pois nuncacreio euabdica de suas asas – \\ 
 +enquanto esplendor de sua viva claridade \\ 
 +escolta meu coraçãoaspiro a penetrar segredo que ele porta\\
  
-Tal conceito, primeiro atributo do invisívelsó se acomoda às formas pervertendo suas leis na liberdadepraticando arte sábia do desconhecimento do indizívelA esse respeito, o testemunho de alguns humanistas florentinos do final do Quattrocento nos pareceu exemplar.+==== SEGUNDA ESTÂNCIA ==== 
 +E direi como da fonte divina \\ 
 +do incriado, Amor ao mundo participa\\ 
 +quando primeiro nasceu e segundo qual princípio \\ 
 +move o céuforma a alma e prescreve sua rota \\ 
 +ao universo; escondido no coração dos mortais, \\ 
 +como, com que arma hábil e mortífera\\ 
 +elevar os olhos força o rebanho \\ 
 +dos homens sobre a terra, como queima, inflama arde, \\ 
 +por que decreto empurra ao firmamento o homem \\ 
 +ou o arrasta para baixo, ou mesmo, inclinando-o, \\ 
 +o deixa no meio-termo\\ 
 +Ó rimas extintas e vósversos languidos, \\ 
 +tão cansados, agora, aqui em baixo, \\ 
 +a quem rogarei por vós, \\ 
 +para que este coração inflamado \\ 
 +veja seus mais justos votos por Apolo atendidos? \\ 
 +Um jugo pesado demais frena meu pescoço, \\ 
 +Amor, concede-me as asas que espero, \\ 
 +mostra caminho obscuro ao meu voo hesitante\\
  
-Para evitar qualquer mal-entendido, o que vamos ler não é um livro “sobre” Pico. É pouco dizer que é um livro “em torno” dele. Por mimetismo ou pudorpercebemos depois que ele envolvia seu objeto em círculos concêntricosesferas transparentes que deixam ver seu centro sem permitir que nos aproximemos muito rapidamente, levando leitor das periferias da história ao olhar de VênusComo os seis graus do amor de Picocinco reflexões um estudoagrupados em um ensaiotentam nos levar ao coração de uma visão: Commento.+==== TERCEIRA ESTÂNCIA ==== 
 +Quando desde o verdadeiro céu difundindo-se mais baixo \\ 
 +sol divino brilha no espírito angélico, \\ 
 +este primogênito que ele cumula de claridade e forma \\ 
 +à sombra de suas folhas vivas, \\ 
 +buscando e querendo sua fonte benfazeja \\ 
 +pelo desejo inato de que é abrasado\\ 
 +refletindo-se nelaacolhe \\ 
 +a virtude que modela e adorna seu tesouro. \\ 
 +E este primeiro desejo que o transforma então \\ 
 +é ao sol vivo de luz incriada \\ 
 +que maravilhosamente se acende e inflama\\ 
 +Este grande incêndioeste ardor, esta chama \\ 
 +que do espírito obscuro do dia celeste\\ 
 +brilha no espírito angélico\\ 
 +é primeiro, o verdadeiro Amor, \\ 
 +desejo místico, \\ 
 +nascido da pobreza e nascido da riqueza \\ 
 +quando o céu gerou a deusa de Chipre\\
  
-Este Commento nos retrata Pico a partir da naturezamelhor do que qualquer outro autor teria feito; é um autorretrato e, além disso, em um cenário da época. O jovem filósofo tem vinte e três anos, é impetuosopolêmicodeterminadoA cidade chama-se Florença, estamos em 1486. Ficino acaba de publicar Platão; os florentinos puderam ver rosto do seu destinomas não reconheceram nos traços sombrios de um monge atormentadoSavonarola; Laurent combategoverna medita.+==== QUARTA ESTÂNCIA ==== 
 +E porque nasceu nos braços bem-amados \\ 
 +da bela Vênus que se honra em Creta\\ 
 +sem cessar desejou a busca \\ 
 +do sol fulgurante de sua viva beleza. \\ 
 +Ora o primeiro desejoque em nós se adormece, \\ 
 +por ele de um novo laço se ata \\ 
 +que sobre suas nobres pegadas\\ 
 +remontando seus passosao primeiro bem chega\\ 
 +Por ele ardordo qual deriva \\ 
 +tudo que o compõe, acende um fogo em nós\\ 
 +o coração queima morrendo quando queimando o coração cresce\\ 
 +a fonte perene abunda de sobra, \\ 
 +derrama o que o céu aqui em baixo forma e move; \\ 
 +é dele que nos chove \\ 
 +este reflexo luminoso que nos eleva ao céu. \\ 
 +Em nós por este desejo \\ 
 +este sol incriado tanta esplendor respira \\ 
 +que inflama em nossa alma um amor eterno\\
  
-Uma coisa pelo menos é certa: nunca saberemos o verdadeiro rosto de Pico. Um retrato o descreve como bonito, outro como feio. Estranho fato, que parece ter escapado aos biógrafos, é que sua própria alma é uma divisão, pelo menos se acreditarmos em Laurent: “... Costui è instrumento da sapere fare il bene e il male.” [“ ... Ele pode ser um instrumento para o bem e para o mal.” Carta do Magnífico a Lanfredini, em 1489, após a comoção causada pelo Heptaplus.] E se, neste caso, se trata dos efeitos de sua obra, do bem ou do mal da Igreja, podemos imaginar que ele oscila entre os extremos, como toda a sua época: luta ou paz, ação ou contemplação, ciência ou amor. E, como todo Quattrocento, sua grandeza nasce de um equilíbrio. Já que a palavra está escritavamos admitir: este livro não vende nem amor nem beleza, temas cujo fascínio é tão forte que é preciso evitá-los como Ulisses evitou as sereias. Além disso, o Commento fala por si mesmo em voz alta o suficiente para ser ouvido. Nós nos dedicamos mais esboçar temasa esboçar a estrutura de um raciocínio que um estudo mais estruturado e melhor fundamentado virá em breve consolidar. Pico não nos forneceu apenas o pretexto. Seu pensamento traz propostas essenciais para os problemas debatidos na época. Sua novidademuitas vezes confundida com uma preocupação com a originalidade que deveria estar ausente da filosofiafoi exagerada pelo pós-kantismo dissimulada por certos intérpretes modernos (de Lubac). Somente grande Eugenio Garin soube reconhecê-la, mas sem nunca abordar completamente um ponto que nos pareceu aqui capital: a contribuição de Pico ao neoplatonismoNesse sentido, Commento é um testemunho notável. Essa única característica, mas ele tem outras, exigia que fosse tirado do esquecimento em que se encontravaà sombra de gigantes como Heptaplus ou o Oratio, justamente celebrados pela crítica que permaneceram sempre em plena luz. O Pico que se revela nele nos interessa vivamentepois rompe abertamente com o pensamento ficiniano para formular novas exigênciasaté então latentes ou implícitas. É como secom a aproximação do extremismo espiritual de SavonarolaPico tivesse tentado dar à filosofia um viés decididamente mais místico, mais radicalO Heptaplus de 1489, um ano antes do pleno florescimento do gênio profético savonaroliano, realiza uma síntese vigorosa de temas em parte neoplatônicos em torno de uma divindade que não tem mais nada do “sol” ficiniano: um sonho de coesão espiritual e ascetismo se manifesta nelaque Savonarola retomará em um tom totalmente diferente. Sem arriscar conjunções improváveis (mas comprovadas no caso dos empréstimos de Girolamo ao Discurso contra a Astrologia do mirandolano)não podemos deixar de destacar a importância das posições de Pico antes de 1492. Entre o otimismo idealista de Ficino o profetismo místico de Savonarola, Pico propõe uma alternativa ideológica autênticaO equilíbrioou mesmo a hesitação, entre Ficino e Savonarola certamente não é uma novidade para os intelectuais da geração de Pico ou de Benivieni. Será que Girolamo Benivieni, que morrerá com quase cem anos, após turbulência, depois de escrever o poema de amor platônico cuja tradução apresentamos aqui, não terá assim, como savonaroliano convicto, escrúpulos piedosos? Somente Biagio Buonaccorsi, colega de Maquiavel, conseguiu fraudulentamente arrancar dele a edição de 1519, a primeira do Commento, cuidadosamente expurgada de todos os ataques dirigidos contra Ficino. Mas Pico se distingue justamente desses navegadores incertos, perdidos nas turbulências nascidas da eclosão do neoplatonismo; sua escolha, eminentemente pessoal, não é, como para os outros humanistas, uma escolha política entre astro pálido dos Médicis e a aurora invencível de Savonarola. Sua posição continua sendo a do invisível. Vindo de outros horizontes, do humanismo veneziano-lombardo, essencialmente aristocrático, Pico, se fosse um filósofo políticoteria se chocado contra o humanismo burguês de Florença contra populismo inspirado pelos “piagnoni”. Não, seu mérito está em outro lugar. É ter feito triunfar a dialética sobre a análise, a abstração sobre a representação, e ter refinado, até os limites do inefável, a abordagem do divino.+==== QUINTA ESTÂNCIA ==== 
 +Como do primeiro bem o eterno espírito nasce, vive e compreende; \\ 
 +alma compreendemoveaperfeiçoa\\ 
 +desdobra reproduz por ele astro \\ 
 +que no seio do Anjo resplandece\\ 
 +Daí ela derrama o que seu coração místico \\ 
 +pensa e caladepois mundo sensível vivo\\ 
 +movido maravilhosamente por elasentemoveproduz todos seus efeitos\\ 
 +Dela – como do céu no espírito angélico – \\ 
 +procede uma Vênus aqui em baixocuja graça \\ 
 +brilha no céuvive na terra colora este mundo\\ 
 +No sol se mira outranesta noite \\ 
 +do espírito que ela exercita contemplar sempre\\ 
 +sua riqueza se funda neste astro vivo \\ 
 +que resplende nele como seu dia \\ 
 +irradia naquela. Para uma o celeste Amor se inclina\\ 
 +e o vulgo à outra se abandona\\
  
-Entende-se melhor que sua reflexão foi determinante para nósPois, depois de identificar um equilíbrio em termos precisos — continuidade descontinuidade do visível do invisíveldo dizível do indizível —tentamos tornar sua presença sensível nos fenômenos intelectuais ou estéticos do final do QuattrocentoE desejamos, com este esboço de uma filosofia das forças espirituaister lançado alguma luz sobre universo mental dessa época admirável.+==== SEXTA ESTÂNCIA ==== 
 +Quando formada primeiramente pelo rosto divino, \\ 
 +para descer aqui em baixo, nossa alma então deixa \\ 
 +o mais belo lugar do céu onde o sol habita, \\ 
 +ela inscreve sua imagem \\ 
 +no coração do homem, onde de maneira maravilhosa \\ 
 +dizendo a qualidade que seu astro lhe deixa \\ 
 +– que vive no regaço \\ 
 +de sua forma celeste e toda original – \\ 
 +ela forma, aperfeiçoa e marca tanto quanto pode \\ 
 +da semente humana a morada, \\ 
 +conforme mais ou menos ela repele a seu deus. \\ 
 +E quando da esplendor estampada nela \\ 
 +a imagem infusa entra em outro coração, \\ 
 +e lhe convém, \\ 
 +ela inflama sua alma após este primeiro passo, \\ 
 +a alma a toma em seu seio, \\ 
 +a sublima às virtudes de seus raios divinos: \\ 
 +assim o coração amante se ilude com os doces atrativos. \\ 
 + 
 +==== SÉTIMA ESTÂNCIA ==== 
 +Ilude-se com os doces atrativos o coração amante, \\ 
 +sendo-lhe o amado semelhante àquele que ele gera, \\ 
 +depois reformando o amado na impressão que nele \\ 
 +faz a santa luz, raro e celeste dom, \\ 
 +desde aí galgando de grau em grau, ao Sol incriado \\ 
 +ele retorna, elevando-se até onde se difunde \\ 
 +o que o objeto do Amor exprime. \\ 
 +E um raio deste rosto divino \\ 
 +em três brilhantes espelhos reacende cada imagem \\ 
 +do Belo, paramentando o espírito, a alma e o corpo concreto\\ 
 +Daí aos olhos, depois destes olhos ao assento \\ 
 +de sua outra servente, então, o coração refaz \\ 
 +a beleza nela e a aperfeiçoa \\ 
 +sem contudo expressá-la; e desta coleção \\ 
 +de belezas que abstrai \\ 
 +ele forja um só conceito onde pinta e figura \\ 
 +o que estava dividido por toda parte na natureza. \\ 
 + 
 +==== OITAVA ESTÂNCIA ==== 
 +A alma neste Amor encanta assim o coração: \\ 
 +arrebatada ainda por Ele como pelo que ela gera, \\ 
 +para se apaixonar por um sonho, \\ 
 +ela percebe o verdadeiro como refletido na água. \\ 
 +Não sei qual esplendor divino e magnífico \\ 
 +nele, ainda que velado, atrai um coração místico \\ 
 +de uma beleza a outra mais perfeita \\ 
 +até aquela que reina, deslumbrante, no cume. \\ 
 +E o que vê não é mais a sombra que aqui em baixo \\ 
 +faz crer no primeiro bem, mas o esplendor verídico, \\ 
 +e do astro real uma imagem autêntica; \\ 
 +quando por este excelente caminho o coração vai, \\ 
 +compreende este esplendor que o espírito nele porta. \\ 
 +Para uma claridade mais inteira \\ 
 +mais belavoa suspenso, transporta-se \\ 
 +ao redor deste Sol cuja luz, \\ 
 +viva unagerou e depois no Amor transforma \\ 
 +o espírito, a alma, o mundo e tudo o que o forma\\ 
 + 
 +==== ÚLTIMA ESTÂNCIA ==== 
 +Poemasinto bem que Amor freia com mais força \\ 
 +este audaz ardor que meu coração esporeia \\ 
 +para além do limite dado pelos Deuses. \\ 
 +Refreia um vão desejo, puxa a rédea \\ 
 +e castamente ouve as razões de Amor: \\ 
 +«Se alguém porventura \\ 
 +revestir de teu amor a forma e a paragem\\ 
 +mais que as ramagens \\ 
 +de seu divino tesouro, a polpa mostra-lhe. \\ 
 +Estende a folha ao vulgo, e recusa fruto.» \\ 
 + 
 +----
  
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