renascimento:pico-della-mirandola:invisivel:mirabilis
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| + | ====== Mirabilis perspicacia ====== | ||
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| + | ==== Retrato do Intelectual Humanista: Retiro, Interioridade e Confronto com o Inefável | ||
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| + | Mundo é incerto por ser lábil, e intelecto odeia movimento e fragilidade. | ||
| + | Tendência natural do intelecto: retornar à sua esfera, o Empíreo imóvel, analogamente a todas essências do mundo. | ||
| + | Movimento de retiro característico da mentalidade humanista: retiro no estudo, na paz, no campo ideal, regido por leis precisas. | ||
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| + | Superação da visão dantesca e problema da opacidade do sensível. | ||
| + | * Obstáculo do sensível: opacidade, incompatível com natureza visual do intelecto. | ||
| + | * Causa da opacidade: coexistência do corruptível e incorruptível nas formas físicas. | ||
| + | * "Velo di grandissima ambiguità": | ||
| + | * Confusão do visível e invisível: é primeiro sinal e primeiro perigo do despertar intelectual, | ||
| + | * Gênio de Alberti: localiza topo da pirâmide visual no olho ideal do espírito. Realidades inteligíveis estão " | ||
| + | * Exemplo de Brunelleschi: | ||
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| + | Busca da verdade no interior do sujeito: o " | ||
| + | * Foco da realidade interior: esforço filosófico de deciframento concentra-se no espelho da alma, cujo reflexo é mais real que corpos, mas menos real que Deus. | ||
| + | * Ponto decisivo: espírito humano inicia fechamento do círculo que deve reconduzi-lo à plenitude. Alma toma consciência de seu poder de representação frente aos simulacros do mundo. | ||
| + | * Erro de julgamento: consciência individual não é espaço espiritual adquirido; amplia-se por patamares até abertura completa do intelecto universal às realidades divinas. | ||
| + | * Limite da razão: razão não vê nada além de si; esta cegueira marca seu limite extremo. Outro mundo começa após razão, acessível apenas ao intelecto desencarnado dos grandes místicos. | ||
| + | * Passagem ao intelecto contemplativo: | ||
| + | * Dissolução da alteridade: no ápice, "as duas almas, tomadas juntas ou separadamente, | ||
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| + | Invenção humanista da " | ||
| + | * Questionamento pioneiro: humanismo primeiro a interrogar-se sobre faculdade simultânea de adesão e reflexão do espírito humano. | ||
| + | * Postulado de profundidade individual: existência de profundidade individual (não coletiva) onde celebração pode coexistir com crítica. Erasmo permanece exemplo. | ||
| + | * Condição para fecundidade: | ||
| + | * Paradoxo da acuidade intelectual: | ||
| + | * Cultura da inteligência: | ||
| + | * Crença na inutilidade necessária da ciência: humanista crê firmemente na inutilidade da ciência enquanto reconhece sua necessidade. Com Ficino, Pico, Cusa, Bovelles, teologia negativa tem ascensão fulgurante. | ||
| + | * Proliferação paradoxal: fim do século XV repete que é vão conhecer Deus para expressá-lo, | ||
| + | * Grandeza dos humanistas: magnificar vocação da inteligência antes de se tornarem literatos profissionais no século XVI e secretários assalariados no XVII. | ||
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| + | Divindade da ciência e antecipação da vida futura em Ficino. | ||
| + | * Conhecimento como ato divino: " | ||
| + | * Supremacia do espírito sobre matéria: divindade do conhecimento deriva desta superioridade e triunfará em vida futura onde reinará princípio intelectual da criação. | ||
| + | * Ciência como meio natural do homem: idealmente, humanidade em Deus viverá de pura intelecção. | ||
| + | * Antecipação no estudo: humanistas antecipam este estado de volúpia espiritual na intimidade meditativa de seu gabinete de estudo. | ||
| + | * Alegoria em Dürer: São Jerônimo em sua biblioteca fecha-se ao mundo para abismar-se no estudo do pensamento divino; alma sensível e vegetativa (cão) dorme junto à caveira das vaidades mundanas. | ||
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| + | Dois estados da consciência cognitiva representados por Dürer. | ||
| + | * // | ||
| + | * Cultura positiva: domina natureza buscando Deus. | ||
| + | * Teologia negativa: encontrando Deus, renuncia a este domínio inútil. | ||
| + | * Anjo de asas cansadas: parte intelectiva da alma assemelha homem ao anjo, mas espírito angélico, ao atingir intuição de Deus, vive experiência indizível. | ||
| + | * Silêncio da iluminação final: quando almas dos sábios conhecem " | ||
| + | * Herança neoplatônica: | ||
| + | * Imperativo humanista: empresa cultural só vale ser perseguida se perpetuar consciência ou memória do inefável. | ||
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| + | Silêncio de Deus e gênese da linguagem a partir do obstáculo material. | ||
| + | * Silêncio inviolável: | ||
| + | * Linguagem não preexiste em Deus: não existe em Deus nem no intelecto intuitivo; não preexiste ao obstáculo das formas. | ||
| + | * Nascimento da linguagem: nasce do próprio obstáculo da matéria, que diviniza ao constituir-se por ela, articulando-se nas formas. | ||
| + | * Processo da criação: faz surgir solidariamente sentido e forma numa unidade necessária que razão, para apreendê-la, | ||
| + | * Superação de Pico: insistência na consubsistência íntima (intrínseca) das Ideias e Vênus supera genialmente dualidade que viria a intoxicar estética ocidental. Ideia (Pensar vivificante de Deus) não é sentido significado pela forma angélica; ela " | ||
| + | * Condicionamento da expressão: toda expressão é um condicionamento. Encarnação no mundo sensível é //summum// do condicionamento no abaixamento. | ||
| + | * Distinção entre fundo e forma: Manifestação, | ||
| + | * Palavra divina vs. palavra humana: Palavra divina é imediata efusão de vida; palavra humana é mediação, fragmentação necessária da plenitude desta vida. | ||
| + | * Teologia poética: não pretende quebrar silêncio de Deus, mas remontar ao sentido mais elevado das mediações da linguagem. | ||
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| + | Consciência histórica como distanciamento e retorno. | ||
| + | * Passagem da Idade Média à Renascença: | ||
| + | * Redescoberta da Antiguidade: | ||
| + | * Crítica que cria o objeto: humanista, por sua divagação crítica, antes constrange objeto (passado) à imitação do presente. | ||
| + | * Princípio da " | ||
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| + | Hermenêutica de Pico como desvelamento escatológico. | ||
| + | * Não é filologia acadêmica, mas interpretação, | ||
| + | * Oposição à estética moderna: pensamento não é independente do corpo da palavra; espessura do signo contribui para sua potência de evocação. | ||
| + | * Aparição do sentido: envolve-se na fragilidade obscura de todos os nascimentos. | ||
| + | * Conhecimento e prova do desnudamento: | ||
| + | * Posição de Pico: crê em linguagem que desdobra mediações, | ||
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| + | Senso do sentido latente e culto do fragmento. | ||
| + | * Resposta insatisfatória (Peter Burke): "gosto do sentido latente" | ||
| + | * Verdadeira significação: | ||
| + | * Fragmento e inacabamento: | ||
| + | * Invisibilidade do ideal e da metafísica: | ||
| + | * Silêncio das obras: humanistas fazem ouvir voz distante ao cercar obras de silêncio literário ou plástico. | ||
| + | * Emblema da atitude de Pico: " | ||
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| + | Dualidade constitutiva do intelectual humanista: o "Janus bifrons" | ||
| + | * Dois rostos: um voltado para inefável, outro para dizível. | ||
| + | * Coabitação de dois homens: aquele que contempla e cala; aquele que sabe e fala. O contemplativo olha o sábio com pudor, embaraço ou constrangimento. | ||
| + | * Têmpera da ousadia: temeridade da ciência deve ser refreada pela sabedoria em reconhecimento de mistérios mais altos. | ||
| + | * Dupla leitura do mundo: movimento especulativo acompanha movimento inicial de investigação prática. | ||
| + | * Espaço físico como sequência do espiritual: para Leonardo, espaço físico é sequência da extensão espiritual invisível do universo. | ||
| + | * Princípio de expansão e focalização: | ||
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| + | Importância do subentendido, | ||
| + | * Pressentimento de texto invisível: escrita visível envolve núcleo de inefabilidade e envolve a si mesma de inefável. | ||
| + | * Especularidade da visão: em universo regido pela lei do duplo e sua inversão, conhecimento é visto como contendo Deus e contido por Ele. | ||
| + | * Redução da humanidade ao impalpável: | ||
| + | * Essência como vacuidade para aparência: essência é vacuidade para aparência, concepção que exige ruptura das representações do mundo ou do indivíduo. | ||
| + | * Exemplo do //Grasso Legnaiolo//: | ||
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| + | Concentração na inefabilidade e eleição dos " | ||
| + | * Obras típicas: contemplam objeto invisível, subtraído ao olhar comum, visto na claridade crepuscular do sonho ou utopia. | ||
| + | * Sonho como abertura ao além: contra Buffon, sonho abre portas do além; contra Goya, sono da razão não gera monstros. | ||
| + | * Irracional como animalidade: | ||
| + | * Escolha do artista: elege " | ||
| + | * Objeto da arte e do pensamento: colocado na fronteira dos mundos concreto e imaginário. | ||
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| + | Conclusão sobre doutrina do amor verídico e rendição do espírito. | ||
| + | * Doutrina no rastro do neoplatonismo florentino: surge como se Savonarole tivesse liberado absoluto veemente que Pico e Ficino domesticaram. | ||
| + | * Chamado à coesão intuitiva: // | ||
| + | * Exaustão das formas: alma exaure todas as formas do pensamento pensante, como pensamento previamente exaurira todas as formas do mundo precário. | ||
| + | * Precariedade final do espírito: espírito vê-se votado a negar-se a si mesmo em muda adoração do indizível, incapaz de constituir-se em sistema no divino. | ||
| + | * Retorno ao Uno na união contemplativa: | ||
| + | * Consciência de não pertencer a si: marca consciência íntima de não pertencer a si mesmo, de não reivindicar valor de sua inteligência para si, mas para uma transcendência. | ||
| + | * Inteligência como " | ||
| + | * Preservação do intercâmbio: | ||
| + | * Ausência como evidência: em palavras pobres, ausência serve de evidência e demonstração. | ||
| + | * Dualidade inevitável do discurso: condições de relatividade, | ||
| + | * Bifrontalidade como divórcio: nesse ponto, bifrontalidade é mais divórcio que ubiquidade. Impõe-se crueldade de escolha. | ||
| + | * Pensar como simulacro: pensar é oferecer apenas simulacro de apreensão que incessantemente nos escapa, propor apenas metáforas possíveis de verdade, afirmar intenção mais que ato. | ||
| + | * Jogo útil e grave: este jogo é útil e grave porque desvela lei da incognoscibilidade última onde se consome drama exemplar do espírito. | ||
