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 +======  Mundo Incerto  ======
 +
 +==== Transformação da Imagem do Mundo e do Homem do Trecento ao Quattrocento ====
 +
 +Recepção de Dante Alighieri evolui radicalmente do Trecento para o Quattrocento.
 +  *  Trecento: Dante não era objeto de admiração unânime; //De Monarchia// foi queimado por Bertrand du Poujet e atacado por Vernani. Teólogo mantinha aroma de heresia; apenas poeta fazia unanimidade, devido a enciclopedismo, didatismo e alegoria.
 +  *  Comentadores trecentistas (Della Lana, Benvenuto da Imola): extasiavam-se com erudição, precisão e fineza das notas geométricas, ópticas, geográficas e cosmológicas da //Commedia//.
 +  *  Mudança com Cristoforo Landino no Quattrocento: poeta torna-se metafísico inspirado, cujas metáforas científicas escondem analogias místicas. Evolução explica-se pela transformação geral dos espíritos.
 +
 +Três pontos-chave da mutação intelectual evidenciados pelo caso dantesco.
 +  *  Mudança de natureza da filosofia: moral e física cedem lugar à especulação.
 +  *  Mudança de objeto: natureza cede passo ao sobrenatural.
 +  *  Nova função do intelectual: erudito dá origem ao hermeneuta, intérprete.
 +
 +Evolução da estrutura do conhecimento ligada a novas imagens do mundo e do homem.
 +Imaginário medieval dantesco permanecia concretíssimo.
 +  *  Concretude da representação: até coração da divindade, representações mentais submetiam-se a leis da substância e da geometria.
 +  *  Limites da imaginação segundo //Convivio//: imaginação pode ser ampliada, esclarecida, irradiada, mas não perde sua pontualidade individual. Sem ela, intelecto, privado de representações, divaga.
 +  *  Função da imagem poética: não pretende representar, mas apresentar poeticamente realidades transcendentais, torná-las visíveis.
 +  *  Precedente: João de Salisbury, no //Metalogicon//, considerava imaginação mais útil que razão para contemplação de realidades espirituais.
 +
 +Revolução perspectivista do Quattrocento e suas consequências para relação com transcendência.
 +  *  Meio técnico: perspectiva permite aprofundar superfície da imagem medieval, atravessá-la por faculdade de projeção abstrata que liberta intelecto das representações.
 +  *  Descoberta da vacuidade: espírito descobre pela primeira vez o vazio que torna transcendência invisível.
 +  *  Rebaixamento neoplatônico da imaginação: permanece entre potências materiais e particulares.
 +  *  Divino como idealidade pura: sagrado torna-se indescritível.
 +  *  Consequência na arte: Cristo humaniza-se na pintura e escultura porque essência divina é irrepresentável; apenas Filho do Homem é visível.
 +  *  Anecdota Donatello/Brunelleschi: crítica de Brunelleschi à humanidade popular do //Cristo// de Donatello revela duas respostas ao sagrado. Brunelleschi exprime sublimidade em arquitetura aérea; Donatello obceca-se com encarnação do sagrado.
 +
 +Nova forma do divino como presença impalpável que reconstrói formas ao seu redor.
 +  *  Caráter da presença: aparece ofuscante como relâmpago ou vertiginosa como noite.
 +  *  Oscilação entre luz e trevas: tensão entre luz de Ficino e trevas de Pico.
 +  *  Tensão do olhar: esforço perpétuo de deciframento que atravessa aparências.
 +  *  Fim da visão adequada: homem não pode mais contar com visão que revele Deus visivelmente em raptus poético, pois Deus não tem outra manifestação senão sua suprema invisibilidade.
 +  *  Mundo como signo velado: materialidade do mundo não é mais significativa por si, deve ser sublimada.
 +  *  Viagem da interioridade: único percurso possível é através da paisagem da própria alma.
 +
 +Transformação da cosmografia medieval em sistema simbólico da alma.
 +  *  Formas medievais tornam-se símbolos da alma: função já não é indicar alegorias, mas criar afinidades.
 +  *  Exemplo de Pico della Mirandola: no //Commento//, torna-se intérprete sagaz de mitos que recompõem itinerário de uma alma, sem preocupação com universalismo moral.
 +  *  Mudança no estatuto das figuras míticas: perdem hieratismo dantesco (ex.: Vênus como alegoria fria); tornam-se linguagem do espírito que fala a si mesmo, em clara consciência de seus meios e busca.
 +  *  Homem como "natureza reflexiva": etapa decisiva que leva a termo metafísica do círculo esboçada por Alberti.
 +  *  Poder de antecipação da história: espírito humano, ao identificar origem a fim, goza de poder de antecipação que pode quebrar lei fatal do mundo, condenado à fragmentação do diverso.
 +  *  Lógica da Criação: pode estabelecer lógica que coloca universo no coração da divindade, não em sua periferia.
 +  *  História ideal e plenitude espiritual: não mais expressas em fórmulas proféticas do além, como em Dante. Reino da Providência, encarnado por Vênus no //Commento//, pode advir em cada um por esforço de ascese silenciosa que redime drama humano.
 +
 +Retiro da interioridade como resposta às incertezas da história real.
 +  *  Não é evasão, mas resposta a incertezas expressas em obras como //De Varietate Fortunae// de Poggio Bracciolini.
 +  *  Mundo de conjunções delicadas e equilíbrios precários: homem evolui em universo que nenhuma força, mesmo imperial, pode conservar.
 +  *  Necessidade de ponto de unidade imanente: à medida que consciência se aguça, humanista precisa discernir ponto de unidade final imanente ao espírito.
 +  *  Magia como método de afinidades imanentes: prática comum baseava-se em afinidades imanentes à natureza.
 +  *  Exemplo de Lourenço de Médici (//Selve//): desordens da época são ecos longínquos de ruptura do espírito que, por desmedida, perturbou harmonia das esferas e espalhou excesso de seu fogo nos elementos.
 +  *  Quarto grau do amor em Pico: inteligência descobre sua potência especulativa e reflexiva, buscando recuperar plenitude perdida de visão noética que assimila imagem do mundo à imagem da alma.
 +  *  Concepção do equilíbrio rompido e restauração necessária: inspirada no //Timeu//, mas fundamental para época, recolhida de Avicena, Pseudo-Dionísio e //Almagesto//.
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 +Cosmografia do Quattrocento e sensação de distância de Deus.
 +  *  Homem culto não se sentia espacialmente "próximo" de Deus ao olhar para céu.
 +  *  Existência na esfera mais inferior: vivia na esfera sublunar, sob influência imediata da Lua, planeta do transitório e mutável ("não é nem bom nem mau planeta").
 +  *  Mundo sublunar sujeito a variações: submetido a conjunções planetárias, passagem de cometas, intervenções angélicas ou demoníacas impenetráveis.
 +  *  Caráter incerto da Lua: rege matéria corruptível, submetida a fluxo perpétuo de formas que derivam de Deus.
 +  *  Hierarquia celeste acima da Lua: Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, esfera estelar, Primeiro Móvel, céu cristalino, Empíreo (morada imóvel de Deus).
 +
 +Cosmos como emblema hermético do novo espírito humanista.
 +  *  Esfera sublunar e instabilidade tornam-se tema funcional para iluminados.
 +  *  Imagem do mundo não apenas reflete imagem do homem, mas justifica démarche intelectual da alma.
 +  *  Prova de visão simbólica: imagem cosmológica sobrevive a Copérnico e grandes descobertas, extinguindo-se apenas com Galileu.
 +  *  Coexistência com visão experimental: astrônomos como Toscanelli conviviam com humanistas sem contradição; era possível descobrir realidade do mundo e pensá-lo miticamente ao mesmo tempo.
 +
 +Humanistas subordinam equilíbrio do mundo e da história à empresa do espírito.
 +  *  Itinerário da alma para Deus deve restaurar inteligível e harmonia do sensível, desestabilizado pela Queda.
 +  *  Deciframento discursivo e iluminação intuitiva: primeiro supõe ordem coerente; segundo supõe extensão da ordem espiritual ao mundo físico.
 +  *  Compensação pneumática: advento do conhecimento atua como compensação quase pneumática, baseada em rede poderosa de afinidades mágicas/naturais entre homem e mundo que a decadência não pôde alienar completamente.
 +  *  //Adam Kadmon// da //Oratio//: figura central deste debate que põe em termos cosmológicos e místicos relação entre espírito e matéria.
 +
 +Relação simpática do homem quattrocentista com cosmos.
 +  *  Representações mentais não circunscritas ao indivíduo: inteligência podia viajar livremente até Deus, reencontrando atmosfera extática e serena exigida por sua natureza.
 +  *  Familiaridade celeste: noção de "microcosmo" traduz mais do que funda sentimento de familiaridade. Homem é pequeno mundo porque concentra, em interioridade, princípio de coesão cósmica.
 +  *  //Adam Kadmon// regenerado: homem regenerado no intelecto deve, ao fim de percurso sapiencial, reunificar o diverso e restabelecer ruptura cósmica.
 +
 +Papel determinante do homem no retorno à imobilidade originária.
 +  *  Concordância de fontes (Moisés, Zoroastro, Hermes, Platão): ordem que universo perdeu por movimento desordenado da alma deve ser restaurada pela prevalência da ordem.
 +  *  Homem como agente da restauração: único capaz de restabelecer ordem intelectiva.
 +  *  Concórdia filosófica de Pico: inserida em corrente que coloca metafísica como instrumento da escatologia.
 +  *  Tarefa do homem especulativo: enquanto aguarda cumprimento da revolução celeste, deve levantar contradições da história lançando olhar espiritual sobre transparência do mundo para distinguir transcendência.
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 +Interpretação das contradições históricas a partir da luta dos elementos.
 +  *  Crítica à historiografia humanista: acusada de desprezar ciência política e cultuar batalhas, mas é necessário entender fatores determinantes desta agonistique.
 +  *  Conflito perpétuo como essência: guerra e batalha, mais que tema retórico, são essência da história humana no mundo sublunar, que registra todas as variações de universo fundado na contradição.
 +  *  Doutrina heraclítica dos contrários: mundo está em luta perpétua; guerra é pai e gerador de todas as coisas.
 +  *  Resposta neoplatônica: concórdia intelectual e ascese unificante.
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 +Interpretação médica e metafísica das disfunções cósmicas em Ficino.
 +  *  Correspondências entre elementos e humores: permitem considerar homem como mundo ou mundo como organismo humano.
 +  *  Diagnóstico de Lourenço: esfera sublunar está doente por excesso de natureza biliosa; fogo inflamou cólera ígnea do desejo.
 +  *  Ficino como médico da alma: descreve purificação do homem através dos quatro rios infernais (símbolos dos quatro estados da matéria) e sua regeneração nas esferas da Água, Ar e Fogo.
 +  *  Metafísica médica: filosofia não dissociada da teurgia; espera restaurar continuidade do divino na história. Otimismo deriva em parte de //De Monarchia// dantesco.
 +  *  Recursos à mitologia: pensamento antigo interpretado como lugar único da Natureza e do Divino; Idade de Ouro invocada como manifestação iminente da //restitutio ordinis//.
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 +Diferença de abordagem entre Ficino e Pico della Mirandola.
 +  *  Ficino: cosmologia opulenta, visão visionária do cosmos como paisagem a ser percorrido, navegação pela Via Láctea. Encanta leitor com desdobramento místico.
 +  *  Pico: além das formas tangíveis da felicidade histórica; escatologia realiza-se em formas eternas de Verdade universal. Cosmologia perde opulência, desencarna-se, torna-se estrutura mental, triunfo da épura metafísica sobre Empíreo dantesco. Ascensão a Deus celebra-se em apoteose do silêncio e das trevas.
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 +Mundo humanista como esfera assediada pelo invisível e em permanente transformação.
 +  *  Consistência fugidia: nunca se reduz à solidez da matéria bruta; escapa em movimento de formas nascidas de qualidades simbólicas.
 +  *  Duração única: transformação permanente assombrada pela transcendência.
 +  *  Tentativa de apreender real: é tentativa de fixar movimento, instaurar superfície legível no fluxo do dinamismo formal.
 +  *  Exemplo na arte: "Captivos" de Michelangelo são prisioneiros da massa ilegível dos estados de seu movimento, passado ou futuro. Desprendimento do //concetto// indica engajamento relativo da eternidade no movimento.
 +  *  Analogia com Leonardo: arte que cerne em vez de escavar, captura forma por meio de arabescos intensos que conjugam imobilidade do desenho e mobilidade do caos.
 +  *  Testemunho da vacuidade: obra testemunha vacuidade circunstante que parece roê-la ou engendrá-la em transições informais, tornando palpável emergência do visível a partir do nada.
 +  *  Conclusão: incerteza do mundo expressa, em última instância, certeza do inefável.