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renascimento:pico-della-mirandola:invisivel:perspectiva

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 +====== Perspectiva supernaturalis ======
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 +====  Expressão Plástica do Inefável: Arquitetura e Perspectiva no Quattrocento  ====
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 +Cultura humanista, influenciada por afim à visão intelectiva e senso plotiniano de inefabilidade, apoia-se em mundo de imagens míticas, místicas ou utópicas.
 +Escolha consciente de intelectuais mais lúcidos: construir civilização das letras entre visível e invisível, em torno de centro impalpável, como se transcendência só se revelasse no modo da ausência.
 +Esta tendência difusa imprime-se também nas artes plásticas, especialmente na arquitetura toscana da primeira metade do Quattrocento.
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 +Exigência de depuração clássica na arquitetura toscana.
 +Registro histórico sobre Alberti, Brunelleschi, Michelozzo, Rossellino demonstra triunfo da simplicidade pura tanto na expressão quanto na concepção.
 +Na expressão.
 +  *  Proibição de Pio II: interdita intervenção de fresquistas em sua catedral de Pienza.
 +  *  Opção de Brunelleschi: adota partido de brancura austera, ritmada por arestas de mármore amarelo e pietra serena.
 +  *  Prógnosis de Alberti: prega renovação da "naturalezza" libertada dos ouros medievais e adornos inúteis.
 +Na concepção.
 +  *  Retorno à composição rigorosa da antiguidade.
 +  *  Simplificação dos espaços.
 +  *  Simetria dos planos.
 +  *  Consequência: intervenções inovadoras na organização dos volumes determinam sensações espaciais novas.
 +Efeito geral: como se fizesse pedras falarem linguagem de harmonias severas porém flexíveis, ascéticas porém sorridentes.
 +Arquitetura religiosa resultante: não inspira temor nem fervor, mas certeza serena.
 +Mudança de paradigma espacial (segundo Argan): edificação não visa mais ocupar superfície, mas construir espaço, revelando-o ao espírito e manifestando-o ao olho sensível.
 +Analogia com escrita humanista: cúpula contém invisível tanto quanto é contida por ele.
 +Função da abóbada soberana: distingue sensivelmente duas dimensões de uma profundidade universal: da alma e do cosmos divino.
 +Concha como receptáculo: ressoa eco do infinito.
 +Aliança com intelecto: obra não diz, constata; vê e cala.
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 +Vacuidade como princípio ativo.
 +  *  Atua na arquitetura: devora pedras, escava abóbadas, alonga colunas, arredonda arcos.
 +  *  Penetra na pintura: desata-a e abre-a.
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 +Análise da perspectiva segundo Panofsky.
 +  *  Intuição aguda: perspectiva pode ser lida indiferentemente nos dois sentidos, desde ou para o espectador, permitindo conquista do mundo ou triunfo sobre espírito.
 +  *  Interpretação neokantiana: geometria perspectiva é categoria latente do espaço e tempo, inerente à intuição estética, portanto uma cinética (movimento para um dos polos da visão).
 +  *  Natureza intelectual da perspectiva: papel cognitivo ligado a seu ressurgimento com renovação da matemática.
 +  *  Condição ideal do intelecto para filósofo do Quattrocento: imobilidade, não movimento (mesmo circular).
 +  *  Conclusão: perspectiva albertiana é desdobramento imóvel do equivalente plástico do silêncio e inefável, da vacuidade que circulava entre pilares de Santa Maria degli Angeli ou sob cúpula de Santa Maria del Fiore.
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 +Perspectiva como enquadramento de uma transparência.
 +  *  Função: abre transparência no meio da tela, desdobrada no fundo como origem à qual pintor acrescenta mundo.
 +  *  Artistas exemplares: Verrocchio, Lorenzo di Credi, Piero della Francesca, Perugino, Botticelli (este último especialmente ligado a neoplatônicos de Careggi e a Savonarole).
 +  *  Céus na pintura: brancos, ultramarinos ou loiros, sempre densos como cristal; horizontes nítidos, repousados, brilhantes, às vezes sedosos, às vezes cortantes como metal – é o "olhar claro do invisível" em pintura.
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 +Análise do tema da Anunciação como caso privilegiado.
 +  *  Tema da manifestação divina por excelência permite avaliar papel da perspectiva sobrenatural.
 +  *  Fra Angelico: coloca encontro da Virgem e anjo em cenário de colunatas simétricas conduzindo olhar para céu claro. Céu é traço de união mística e domínio da Revelação intuitiva do Espírito, acessível por porta no fundo da perspectiva.
 +  *  Carlo Crivelli: raio dourado parte do fundo da cena, atravessa rua animada e ilumina fronte de Maria. Composição joga com intercâmbios entre interioridade contemplativa e divino envolvente, separados pela realidade visível.
 +  *  Outros exemplos: Filippo Lippi, Botticelli, Leonardo da Vinci.
 +  *  Caso curioso: quando representação visa essencialidade (não historicidade) da figura sagrada, recurso à perspectiva é negligenciado ou modificado.
 +        *  Negligência: fundo neutro ou paisagem simples (ex.: Madonas de Bellini, Lippi, Rafael).
 +        *  Modificação: perspectiva "cegada" ou fechada, sugerindo representação ideal e intrínseca do divino em seu desdobramento originário (ex.: Madona Brera de Piero, Virgens de Antonello da Messina e Bellini, Madona de Botticelli, Virgem dos Arcanjos de Andrea del Sarto).
 +  *  Exemplo paradigmático: //Trindade// de Masaccio (Santa Maria Novella). Perspectiva fechada expressa interioridade divina, absolutamente estranha às vicissitudes temporais, forçando olhar à imobilidade.
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 +Distinção entre duas espacialidades plásticas.
 +  *  Espacialidade histórica: perspectiva aberta para céu, expressando intervenção ou presença do sagrado na história humana.
 +  *  Espacialidade ideal: perspectiva fechada ou neutralizada, expressando perfeição do divino recolhido na eternidade, espaço da interioridade divina.
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 +Sensibilidade de Botticelli a essa alternância espacial.
 +  *  Crítica de Leonardo: aponta que Botticelli às vezes falseia ou nega regras estritas da perspectiva para expressar sobrenatural.
 +  *  Tratamento a-perspectivo de temas mitológicos/teológicos: espaço bucólico, plano, denso, que recorda interioridade do espírito angélico luxuriante de ideias (ex.: //Palas e o Centauro//, //Marte e Vênus//, //Primavera//, //Nascimento de Vênus//).
 +  *  Espacialidade aberta para temas históricos: representa violência trágica, reino do destino impiedoso, movimento e caducidade (ex.: //História de Moisés//, //Calúnia de Apeles//).
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 +Perspectiva como meio de articular espaço sagrado e profano.
 +  *  //Prospectiva pingendi// distingue-se de //perspectiva naturalis// por poder reivindicar título de "sobrenatural": dissolve mundo natural no invisível e acompanha visível até borda do divino.
 +  *  Vacuidade como ponto de fuga: expressão sensível do invisível, forma do inefável na história, é frequentemente ponto de fuga último em perspectivas de Piero ou Botticelli.
 +  *  Formulação de Leonardo: "Onde existe um vazio, existe também um espaço que o cerca, mas o nada existe independentemente do espaço".
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 +Inovação estética fundamental do Quattrocento.
 +  *  Espaço homogêneo que modifica espaço escolástico: sagrado não mais se superpõe ao sensível, infiltra-se nele ou o abole.
 +  *  Supremacia instaurada por fenda calculada do céu.
 +  *  Encontro simbólico: encontro em Roma (1461) entre Nicolau de Cusa (teórico da douta ignorância) e Leon Battista Alberti (teórico da geometria visual) adquire relevo singular.
 +  *  Conclusão: perspectiva pode legitimamente aspirar a emular mais puras visões metafísicas.
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 +Alternância do vazio como dimensão transliminar.
 +  *  Dois arcos exemplares na obra de Botticelli ilustram alternância.
 +        *  Arco de Constantino: na cena dos //Rebeldes//, inscrição "VOCATUS-ADEO" (chamado por Deus / até Deus) abre vacuidade no espaço literário que a perspectiva põe em cena. Porta do invisível chama ao divino.
 +        *  //Trindade// de Masaccio: perspectiva fechada, recolhida no mistério eterno da Trindade, com duas conchas circulares que recordam concha da Madona Brera ou do //Nascimento de Vênus//. Nenhuma figuração temporal aparece nas formas do invisível.
 +  *  Passagem simbolizada: dos "res gestae" do humanismo arqueologizante ao mundo incorruptível dos corpos regulares e perfeitos do humanismo metafísico.