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renascimento:pico-della-mirandola:invisivel:pia-philosophia

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 +======  Pia Philosophia  ======
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 +Retrato convencional do Quattrocento como período gracioso e nostálgico é reducionista e excessivamente influenciado por doçuras de artistas como Baldovinetti e Gozzoli.
 +Florença de 1486, data do //Commento//, é cidade de correntes profundas e contradições, marcada por legado de santos como Antonino e Bernardino e pela presença iminente de Savonarola.
 +Culto dantesco na Academia de Careggi e persistência de Alighieri em tratados de Ficino e Landino indicam que neoplatonismo conciliava em suas aspirações teologia e mística medievais.
 +Atenção excessiva de historiadores da arte à mitologia pagã levou ao desconhecimento do papel fundamental dos religiosos neste século.
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 +Cenáculo humanista reconstrói-se em torno de figuras monásticas.
 +  *  Após 1410: grupo forma-se em torno de Ambrogio Traversari, um camaldulense.
 +  *  Trinta anos antes: Luigi Marsili, agostiniano intransigente, reunira em torno de si Bruni, Salutati e Niccoli.
 +  *  Indivíduos contribuem para contaminação mística, mas não a determinam sozinhos.
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 +Influência espiritual profunda na Florença de Cosme, o Antigo.
 +  *  //Summa moralis// de Antonino e sua correspondência como diretor espiritual mantinham introspecções e fervores profundos.
 +  *  Expressão nas confrarias: fervor encarnado nas "confraternitas", presentes mesmo entre mercadores atraídos pelo prestígio das novas humanidades.
 +  *  Biblioteca de Niccoli: notável proporção de escritos espirituais em sua biblioteca legada, indicando comistão intelectual entre antiguidade e espiritualidade.
 +  *  Inventários de Lourenço de Médici: lista de objetos de culto supera claramente a de suas antiguidades, ao contrário de coleções contemporâneas como a do Papa Paulo II.
 +  *  Mesa de trabalho de Pico della Mirandola: obras de Orígenes, Basílio e Scotus Erígena coexistiam com Platão, Proclo e Jâmblico.
 +
 +Caráter "terrível" do Quattrocento e unidade da fervor humanista.
 +  *  Contexto de violência e decadência moral: assassinatos em igrejas, guerra de Sarzana, prostituição oriental, "vício inominável", legiões de mendigos.
 +  *  Sincretismo religioso festivo: São João Batista e Virgem desfilavam nas festas com Marte e Vênus; decisões do conselho sob auspícios do santo padroeiro.
 +  *  Anos "pagãos" saturados de misticismo: 1484 era aguardado como ano dos milagres.
 +  *  Fervor humanista uno: fervor intelectual era um só, sem distinção rígida de culturas ou cultos.
 +  *  Sensação vívida de Verdade iminente: intelectuais tinham sentimento intenso de desvelamento definitivo, idílico ou trágico.
 +  *  Esperança e espírito de síntese: esperança de ver comparecer invisível favorecia espírito de síntese e conciliação, fruto de preocupação profunda com unidade do divino, não de deísmo ingênuo.
 +
 +Busca da unidade do divino e conciliação das religiões.
 +  *  //Parmênides// comentado por Ficino e Plotino em tradução (a partir de 1485) visavam fundar essa unidade.
 +  *  Introdução do misticismo árabe: Brunetto Latini, mestre de Dante, já confrontara-se com ele na Espanha; em Florença, atinge divulgação sem precedentes com o //Heptaplus//.
 +  *  Pretensão universalista: xeique Ibn Arabi, como Proclo, pretendia ser hierofante do mundo inteiro.
 +  *  Conclusão lógica: unidade de Deus deveria impor unidade das religiões.
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 +Papel central dos conventos como espaços de encontro intelectual.
 +  *  San Marco (com biblioteca de Michelozzo) e Santa Maria degli Angeli eram lugares de reunião favoritos dos humanistas, graças a manuscritos legados por Niccoli e Cosme.
 +  *  Tradição dominicana: desde o Duecento, destacavam-se por senso agudo de doutrina e dialética, qualidades essenciais para humanismo.
 +  *  Diálogo entre leigos e religiosos: espíritos cultivados encontravam interlocutores nos conventos; sem esses centros, humanismo florentino não seria o mesmo.
 +  *  Fronteiras fluidas entre sociedade laica e religiosa: muitos humanistas tinham ordens menores ou eram titulares de paróquias (ex.: Ficino, Poggio Bracciolini). Funções eclesiásticas, mesmo lucrativas, borravam limites arbitrários entre dois mundos cotidianamente próximos.
 +  *  Relação de igualdade intelectual: impressão dos diálogos entre Pico e Savonarole ou da correspondência de Traversari é de intelectuais que se tratam em pé de igualdade, muitas vezes se compreendendo a meias-palavras.
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 +Reavaliação da tese burckhardtiana do "enfraquecimento geral da fé".
 +  *  Fé como centro das preocupações: ideia de intitular uma obra //De Christiana Religione// (Ficino) é significativa.
 +  *  Nova consciência histórica e crítica: fé já não é vivida pela consciência espontânea e eterna da Idade Média (cujos problemas eram sobretudo institucionais), mas por consciência nova, superiormente histórica e crítica.
 +  *  Consequência hermenêutica capital: Hermes Trismegisto era considerado contemporâneo de Moisés, o que equivalia a fazer mensagem bíblico avalizar pensamento especulativo.
 +  *  Sensação de completar dialética da Revelação: neoplatônicos sentiam estar fechando uma dialética da Revelação que respondesse a exigências contemporâneas de unidade e paz.
 +  *  Necessidade de diálogo simbolizada: "discussão pública" de Pico della Mirandola era símbolo brilhante dessa necessidade.
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 +Gênese do sentido de diálogo a partir do Concílio de Florença (1439).
 +  *  Evento simbólico: proclamação da união das Igrejas Oriental e Ocidental sob cúpula de Brunelleschi.
 +  *  Troca de opiniões: ocasião para intercâmbio em filosofia e teologia.
 +  *  Importação de um "Platão sem idade": prelados gregos traziam novo contato com tradição platônica.
 +  *  Herança do conciliarismo: navio conciliar lançado por Gerson ainda causava ondulações, trazendo religião para centro dos debates.
 +  *  Popularização do debate religioso: religião descera dos cimos da escolástica para discussões entre doutos e menos doutos, depois entre humanistas.
 +  *  Sociedade responsável por sua espiritualidade: sociedade habituara-se a tomar sua espiritualidade em mãos, a escrutiná-la e aprofundá-la.
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 +Transformação da filosofia e sua relação com a teologia.
 +  *  Emancipação da tutela das faculdades: filosofia deixara de ser ciência "natural" do tempo de Dante.
 +  *  Enriquecimento pelo neoplatonismo: atingiu ponto de rimar com teologia em Pico della Mirandola.
 +  *  Confluência além da razão: como disseram Agostinho e Tomás, ambas as démarches reuniam-se no mundo intelectivo celebrado por Averroes, Pseudo-Dionísio e Plotino.
 +  *  Interiorização da religião: influência inversa da filosofia sobre religião levou esta a intelectualizar-se e, portanto, a interiorizar-se.
 +  *  Livre discussão e origem única da verdade: livre discussão de temas outrora reservados aliava-se à pressentimento de origem única da verdade e do espírito, que humanistas buscavam recuperar por ascese do estudo e retiro nas grandes obras.
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 +Culto da interioridade e renovação da linguagem espiritual.
 +  *  Humanistas celebravam culto alternativo: por desprezo frequentemente ostentatório e trágico do mundo e por busca aguda da interioridade.
 +  *  Inversão do princípio da visão: espírito de Brunelleschi, Piero della Francesca ou Masaccio levava a esforço consciente de depuração e radicalidade, em contraste com baixa Idade Média.
 +  *  Equívoco sobre paganismo do Quattrocento: acusações de paganismo, heroísmo e incredulidade baseiam-se em erro de avaliação da pletora devocional do Trecento e falha em perceber renovação de linguagem espiritual em crise.
 +  *  "Reforma antes da Reforma": produziu-se na Itália uma reforma antecipada que tornaria Reforma protestante menos virulenta ali do que em outros lugares.
 +  *  Dante como testemunha precoce: figura de Dante fornece provas dessa mutação espiritual e intelectual.