===== Pensamento de Plotino (II) ===== * Linguagem Negativa e Realidade Positiva * O Princípio Transcendente (Uno/Bem) está além do pensamento e da linguagem humanas. * Uso característico de termos neutros (to hen, to agathon) com transição frequente para pronomes e adjetivos masculinos, indicando uma concepção pessoal ou quasi-pessoal do Princípio, mais próxima da noção comum de Deus. * A linguagem de negação não indica um Vazio ou Nada, mas serve para: * Sublinhar a inadequação de todos os nossos conceitos e palavras. * Explicitar as implicações de ser absolutamente Uno, Infinito e Fonte de todas as realidades definidas. * A afirmação de que o Bem está "além do ser" (//epekeina tês ousias//) nega que Ele seja "um algo" determinado (o ser é sempre "ser algo"), não que não exista. Ele é o Existente supremo de um modo transcendente. * Unidade Absoluta e Infinitude * A unidade do Uno é tão absoluta que nenhum predicado (nem mesmo existência, pensamento, forma) Lhe pode ser aplicado. * É "informe" por ser Infinito (sem limites) e por ser o Princípio da forma, medida, ordem e limite. * Atribui-se-Lhe uma "super-intelecção" ou consciência-de-si imediata superior ao pensamento discursivo do //Nous//, para evitar a ideia de mera inconsciência. * Transcendência e Imanência * A transcendência do Uno não é espacial. Ele não é um Deus "fora" do mundo. * Está intimamente presente no centro da alma humana. Prefere-se dizer que as realidades inferiores estão no Princípio superior (corpo na alma, alma no //Nous//, //Nous// no Uno). * A hierarquia dos níveis de ser não implica separação: todos estão presentes juntos em toda parte. * Por não ser uma coisa particular, o Uno está presente a todas as coisas segundo sua capacidade de recebê-Lo. ====== A Processão das Hipóstases: Necessidade e Espontaneidade ====== * Processão Eterna e Necessária * A processão do //Nous// a partir do Uno (e da Alma a partir do //Nous//, e do universo a partir da Alma) é eterna e necessária no contexto de um universo eterno como um todo. * O termo "emanação" é uma descrição inadequada, baseada em metáforas (luz do sol, calor do fogo, perfume), mas Plotino a elabora filosoficamente. * Dinâmica da Processão: Perfeição Produtiva * A processão não afeta a Fonte, que permanece inalterada e indivisa. * Não há vontade, plano ou escolha no ato de gerar; é um dar-se espontâneo e necessário. * Razão fundamental: tudo o que é perfeito produz algo. A perfeição é plenitude de vida e poder, necessariamente produtiva e criativa. * Axioma: o produto é sempre inferior ao produtor. O Uno gera o que Lhe é mais próximo em excelência: o //Nous//. * Dois "Momentos" na Geração do //Nous// * 1. O //Nous// procede como potencialidade não formada. * 2. Ele se volta (//epistrophê//) para contemplar o Uno e, nessa contemplação, é informado e preenchido, tornando-se o ser real total. * Princípio fundamental: a contemplação precede e gera a atividade e a produção. Toda realidade derivada depende, para existir e atuar, da contemplação de sua fonte. ====== A Segunda Hipóstase: O //Nous// (Inteligência/Mundo Inteligível) ====== * Unidade de Pensamento e Ser * O //Nous// é simultaneamente: * Inteligência Divina (sujeito pensante). * Mundo das Formas/Ideias (objeto pensado, totalidade do Ser real platônico). * Esta identidade de pensante e pensado é uma das inovações mais originais de Plotino, indo além da doutrina do platonismo médio ("pensamentos de Deus"). * Transformação do Mundo Platônico das Formas * Não é mais uma estrutura lógico-matemática estática, mas uma comunidade orgânica e viva de seres interpenetrantes. * Cada Forma é também uma inteligência; todas estão "acordadas e vivas". * Relação todo-parte única: cada parte pensa e, em certo sentido, é o todo. Não há separação ou exclusão. * É a imagem mais perfeita possível da Unidade absoluta do Uno no nível do Ser (multiplicidade harmoniosa). * Infinitude e Finitude do //Nous// * Infinito em poder e imensurável (não tem extensão, não há padrão externo). * Finito como totalidade completa: contém um número atual e completo de Formas (todas as possíveis), cada uma sendo uma realidade definida e limitada. * O //Nous// e a Natureza Humana * É o nível do pensamento intuitivo, que apreende o objeto imediatamente, sem raciocínio discursivo. * Nós, em nossa altura máxima, somos //Nous// (ou Alma perfeitamente conformada ao //Nous//). * Admissão de Formas dos Indivíduos: as personalidades particulares têm um arquétipo eterno e valioso no //Nous//. * No //Nous//, onde espaço e tempo não se aplicam, o indivíduo é o Ser e o Todo. Isso explica passagens com aparência "panteísta", que se referem à identidade com o //Nous//, não com o Uno, e preservam a individualidade arquetípica. * O Conceito de //Logos// * Termo técnico neoplatônico: força formativa que procede de um princípio superior e o expressa e representa em um plano inferior de ser. * O //Nous// é um //logos// do Uno; a Alma é um //logos// do //Nous//. Expressa a unidade e continuidade dos níveis de ser. ====== A Terceira Hipóstase: A Alma ====== * Natureza Intermediária e Dupla Relação * A Alma é a intermediária entre os mundos intelectual e sensível, representante do primeiro no segundo. * Procede do //Nous// e se volta para ele para ser formada por contemplação. * Sua relação com o //Nous// é mais íntima; em seu nível mais alto, pertence ao mundo do //Nous//. * A Descida da Alma: Queda ou Necessidade? * Tensão na interpretação: a saída da Alma para formar/ordenar o universo material é vista como: * Queda por autovontade ilegítima. * Parte boa e necessária da ordem universal. * Plotino tenta reconciliar as duas visões. Predomina a visão positiva: a atividade da Alma Universal é boa, divina, necessária e espontânea, transbordamento da contemplação em ação, sem esforço ou planejamento. * Níveis da Alma Universal e a "Natureza" * Alma Superior: princípio transcendente de forma, ordem e direção inteligente. * Alma Inferior (ou Natureza): princípio imanente de vida e crescimento. É uma quarta hipóstase distinta, ainda que Plotino relute em admiti-lo. * A Natureja age como resultado de uma contemplação inferior (um "sonho"), produzindo formas imanentes no corpo, que são estéreis espiritualmente. * Característica da Alma: Movimento e Tempo * A vida da Alma é movimento de uma coisa a outra (diferente da posse total do //Nous//). * É o nível do pensamento discursivo (raciocínio). * Seu movimento contínuo produz o tempo, definido como "a vida da alma em movimento". É a causa de todo movimento físico no espaço e no tempo. * As Almas Individuais e a Embodiment * São "partes plotinianas" da Alma Universal: partes espirituais que têm o todo presente e podem, pela contemplação, expandir-se à universalidade. * A descida no corpo é tanto uma queda quanto uma complacência necessária com a lei universal. * O estado espiritual na embodiment depende da atitude: * Isolamento egoísta nos interesses do corpo particular: prisão e corte do destino elevado. * Manutenção da orientação contemplativa: possibilidade de ascender à Alma Universal e ao //Nous// mesmo no corpo. * A embodiment como tal não é o mal: a Alma Universal não é prejudicada pelo corpo do cosmos; os corpos celestes dos astros-deuses não interferem em sua vida espiritual. O mal está na embodiment num corpo terreno e animal. ====== O Universo Material e a Matéria ====== * O Cosmos como Imagem Viva * O universo material é um todo orgânico e vivo, a melhor imagem possível da unidade-na-diversidade viva do Mundo das Formas no //Nous//. * Mantido por uma simpatia e harmonia universais, onde o mal e o sofrimento aparentes são elementos necessários no grande padrão ou "dança" do universo. * Como obra da Alma (estrutura viva de formas) é totalmente bom e eterno como um todo (partes são perecíveis). * A Matéria como Princípio do Mal * A matéria-prima (substrato) é o mal e o princípio do mal. * Nunma se une verdadeiramente à forma; permanece uma escuridão informe sobre a qual a forma é apenas sobreposta. * É o não-ser como força negativa (//steresis//), não como zero. * Conclusão paradoxal: o mundo material é bom (como a melhor imagem possível no nível material), mas seu substrato (a matéria) é mau. O mundo tem a bondade da melhor imagem possível, não a bondade do arquétipo.