====== Significação “eidética” da Ideia platônica ====== //BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.// 1. A idea platônica deve ser radicalmente distinguida da “ideia” em sentido moderno, pois não constitui uma representação subjetiva alojada na consciência de um sujeito pensante nem uma perceptio correlacionada a um eu, sendo necessário eliminar toda referência à subjetividade para recuperar seu sentido propriamente grego, uma vez que o próprio homem grego ainda não é pensado como “sujeito” e, por conseguinte, as Ideias não podem ser concebidas como conteúdos representacionais produzidos, possuídos ou constituídos por uma consciência. * A interpretação subjetivista da afirmação de Protágoras segundo a qual “o homem é a medida de todas as coisas” transpõe indevidamente para o pensamento grego uma estrutura metafísica moderna na qual as coisas dependeriam do homem enquanto sujeito. * A noção moderna de representação somente se estabelece propriamente com Descartes, quando representar (vor-stellen) passa a significar colocar algo diante de si, assegurá-lo e fixá-lo mediante a certeza do sujeito que representa. * A representação cartesiana caracteriza uma atividade pela qual o sujeito se certifica de si e encontra nessa autocerteza o fundamento da verdade daquilo que representa, estrutura inteiramente estranha à experiência platônica da idea. * As Ideias não são atos mediante os quais o homem põe algo diante de si, mas aquilo que desde sempre se oferece, se impõe e serve de medida ao pensamento e à ação humana, possuindo uma precedência própria relativamente àquele que as apreende. 2. O sentido grego da idea torna-se acessível mediante sua proximidade com [[f>e:eidos|eidos]], termo frequentemente empregado por Platão e cujo significado ordinário não foi artificialmente criado para as necessidades da filosofia, pois na linguagem corrente dos gregos designava aquilo que uma coisa oferece ao olhar corporal, isto é, sua aparência ([[lx>termos:a:aussehen|Aussehen]]), aspecto ([[lx>termos:a:ansicht|Ansicht]]), rosto ([[lx>termos:g:gesicht|Gesicht]]), feição, figura ou configuração visível, sentido pré-filosófico que permanece reconhecível em numerosos usos platônicos. * No Banquete, eidos designa os traços e a aparência exterior de Sócrates comparados às figuras de silenos, sem qualquer referência à sua essência inteligível. * No Protágoras, o termo aparece em relação à aparência corporal pela qual se julgam a saúde e a aptidão física de alguém, indicando a configuração visível do corpo. * Na República, idea e eidos podem designar as formas ou figuras diversas que os deuses assumiriam ao aparecer aos homens, reforçando a vinculação originária desses vocábulos à visibilidade e ao aspecto que algo apresenta. * A tradução heideggeriana de eidos por “aspecto” (Aussehen), em vez da tradução tradicional por “forma”, procura conservar precisamente essa referência originária ao aparecer e ao tornar-se visível. 3. Nos usos correntes e em numerosas passagens platônicas, eidos não significa primeiramente a Ideia inteligível, mas o aspecto sensível e visível sob o qual alguma coisa se apresenta, de maneira que sua significação filosófica somente pode ser compreendida a partir dessa experiência mais elementar da manifestação segundo uma figura ou aparência determinada. 4. Além do sentido amplo de aspecto sensível, eidos possui também o significado mais restrito de figura, inclusive de figura geométrica, circunstância que poderia sugerir uma afinidade entre a Ideia platônica e as estruturas matemáticas, já que ambas possuem uma articulação interna unitária suscetível de ser reconhecida e analisada pela dialética, embora a interpretação heideggeriana privilegie menos essa possível dimensão matemática do que o sentido óptico e corrente de aspecto. * As figuras geométricas constituem formas visíveis cuja estrutura pode ser investigada independentemente do material sensível no qual aparecem, oferecendo uma analogia possível com a unidade estruturada da Ideia. * No Fedro, a dialética deve conduzir primeiramente a uma forma única mediante uma visão de conjunto da multiplicidade dispersa e, em seguida, dividir essa unidade segundo suas articulações naturais. * A Ideia não constitui, portanto, uma unidade vazia ou indiferenciada, mas uma unidade dotada de articulações internas que a análise dialética pode explicitar. * Essa estrutura poderia aproximá-la do caráter regulamentado das figuras matemáticas, mas o interesse heideggeriano concentra-se sobretudo no vínculo semântico entre eidos, aparência e visibilidade. 5. A compreensão heideggeriana da idea platônica parte do significado grego corrente de eidos como aspecto ou rosto que uma coisa mostra, mas exige transformar a noção de visão implicada nesse vocabulário, pois as Ideias, sendo inteligíveis e pertencendo ao domínio do invisível, não podem ser percebidas pelos olhos corporais e somente se oferecem a uma visão específica efetuada pelo “olho da alma”, isto é, pelo intelecto. * No Fédon, Platão contrapõe duas espécies de realidade: o visível, sujeito à mudança, e o invisível, que permanece idêntico a si mesmo. * A invisibilidade da Ideia não elimina, entretanto, a significação originalmente óptica de idea e eidos, mas desloca a visão sensível para uma apreensão intelectual. * Quando se pergunta o que faz uma mesa ser mesa, aquilo que se apreende não é algo imediatamente percebido pelos sentidos, mas o seu ser-o-quê ([[lx>termos:w:was-sein|Was-sein]]), sua [[f>q:quididade|quididade]] ou essência. * A apreensão da Ideia consiste assim numa espécie peculiar de ver, pela qual a alma reconhece o aspecto inteligível que constitui aquilo que o ente é enquanto tal. * A Ideia representa o “rosto” não sensível do ente, isto é, a forma inteligível de sua essência, acessível exclusivamente à visão intelectual. 6. O emprego platônico de idea e eidos para designar aquilo que não pode ser percebido pelos olhos corporais produz uma transformação extremamente ousada da linguagem grega comum, pois Platão utiliza precisamente palavras cuja significação habitual remetia ao aspecto visível para nomear a essência invisível das coisas, fazendo com que eidos passe paradoxalmente a designar o aspecto daquilo que, por sua própria natureza, jamais se oferece à visão sensível. * A estranheza dessa operação já podia ser percebida pelos gregos, como testemunha a objeção atribuída a Antístenes, segundo a qual se pode ver o cavalo, mas não a “cavalidade”. * A objeção pressupõe que, ao falar da essência como eidos, Platão pareça tornar visível à maneira das coisas sensíveis aquilo que justamente não possui manifestação sensível. * O paradoxo não desaparece ao afirmar a invisibilidade da Ideia, porque o termo empregado continua pertencendo semanticamente ao campo do olhar, do aspecto e do aparecimento. * Idea passa a significar não apenas o aspecto invisível de uma coisa sensivelmente visível, mas também o aspecto inteligível de realidades que sequer precisam ser visíveis em sentido corporal, como a virtude ou a justiça. * Em consequência, todas as coisas, e não somente os objetos perceptíveis pelos olhos, possuem uma idea, exigindo-se que os termos idea e eidos abandonem sua referência exclusiva à visibilidade sensível e sejam elevados a uma significação ontológica. 7. O uso extraordinário que Platão faz de eidos exemplifica uma maneira de pensar que retira palavras da linguagem cotidiana e força nelas possibilidades semânticas inicialmente insólitas para exprimir aquilo que deve ser pensado em sua máxima essencialidade, procedimento que Heidegger reconhece como próprio dos grandes pensadores e aproxima de sua própria utilização não habitual de termos como armação ([[lx>termos:g:gestell|Gestell]]), cujo sentido filosófico de essência da técnica moderna somente se torna inteligível quando se recuperam as possibilidades originárias inscritas na própria palavra. * Assim como Platão transforma eidos, originalmente ligado ao aspecto visível, em nome da essência invisível, Heidegger emprega Gestell numa acepção que ultrapassa seu significado corrente de utensílio, armação ou suporte. * O sentido heideggeriano de Gestell como armação ou arrazoamento remete à reunião e ao pôr que já ressoam nos componentes linguísticos do termo, de modo que sua aparente arbitrariedade é sustentada por possibilidades da própria língua alemã. * O procedimento platônico constitui um precedente ainda mais audacioso, já que eidos é levado quase ao contrário de seu uso cotidiano quando passa a designar aquilo que não pode ser visto sensivelmente. * A linguagem filosófica não é compreendida, nesse caso, como invenção gratuita de significados, mas como exploração de possibilidades encobertas na própria língua, da qual o pensamento retira palavras familiares para conduzi-las à manifestação do que há de mais elevado a pensar. * A singularidade do emprego platônico testemunha, portanto, uma exigência fundamental do pensamento: quando é preciso pensar o essencial, o uso ordinário da linguagem pode ser deslocado e aprofundado sem que esse deslocamento constitua simples arbitrariedade. 8. A afirmação de que a Ideia platônica é eidos e, portanto, aspecto (Aussehen), somente preserva seu sentido genuinamente grego se “aspecto” não for entendido à maneira moderna como imagem subjetiva constituída pelo olhar de um observador, pois o aspecto do ente designa aquilo mediante o qual o próprio ente se apresenta, se põe à vista e manifesta sua essência, de maneira que a Ideia corresponde menos a uma representação humana do ente do que à autoapresentação do próprio ente naquilo que ele é. * Na compreensão moderna, o aspecto tende a significar a imagem que um sujeito forma de alguma coisa, podendo essa imagem divergir daquilo que a coisa é por si mesma e tornando-se, assim, dependente da perspectiva subjetiva. * No sentido grego, ao contrário, o aspecto de uma casa, seu caráter de casa (Haushaftes), é aquilo que se impõe em sua aparência e a faz comparecer como a casa que é, constituindo aquilo em que ela possui sua consistência. * O aspecto (Aussehen) não é uma imagem que um sujeito projeta sobre o ente, mas aquilo a partir do qual o ente se mantém constantemente como aquilo que é e pode mostrar-se em seu ser. * O eidos platônico aproxima-se, assim, da representação somente se esta for entendida como autoapresentação do próprio ente, não como representação subjetiva realizada pelo homem. * A essência ou quididade apresenta-se e põe-se à vista no eidos, fazendo com que as determinações do aparecer e do verdadeiro se encontrem plenamente implicadas na compreensão platônica da Ideia. * O verbo grego correspondente ao “ver” encontra-se semanticamente inscrito na própria palavra idea, mas a prioridade pertence ao aspecto que se oferece ao olhar e não à atividade daquele que olha, pois somente se pode ver aquilo que primeiramente se dá como visível ou inteligível. * A tese segundo a qual “o mundo é minha representação” inverte precisamente essa prioridade grega, subordinando o aparecer à representação subjetiva, enquanto na experiência platônica é o próprio ente que, por sua essência, se oferece ao pensamento. * A Ideia existe, portanto, independentemente da visão que dela se possa ter: ela se propõe e se impõe ao olhar humano sem ser constituída por ele. * O artesão que fabrica uma cama fixa o olhar na Ideia para produzir a cama sensível segundo ela, mas não cria nem estabelece a própria Ideia, pois nenhum artesão é fabricante da essência da cama. * A produção grega ([[f>p:poiesis|poiesis]]) deve ser entendida, nesse contexto, não segundo o modelo moderno de fabricação técnica como provocação e exploração da natureza, mas como [[lx>termos:p:pro-ducao|pro-dução]], trazer-à-frente ([[lx>termos:h:her-vor-bringen|Her-vor-bringen]]) e modalidade do desvelamento ([[lx>termos:a:aletheuein|aletheuein]]), pela qual algo passa do velamento ao desvelamento e é conduzido à presença. * O demiurgo é aquele que trabalha para a comunidade e torna algo público, trazendo-o à presença e manifestando-o diante de todos, sentido que reforça a dimensão epifânica da produção grega. * Quando se afirma que o artesão não produz a Ideia da cama, significa-se que ele não pode fazê-la emergir do não velado à maneira de uma coisa fabricada, pois a Ideia somente pode ser recebida como aquilo que previamente se oferece ao olhar. * O verdadeiro produtor da Ideia é simbolicamente denominado na República phytourgos porque deixa florescer e desabrochar a essência, preservando seu aspecto puro para que possa ser percebido. * A Ideia permanece, assim, regra e medida da produção humana: o artesão encontra-a como algo previamente posto (gestellt) diante dele e deve conformar sua obra àquilo que ela determina. * O homem nunca constitui originariamente a Ideia nem decide arbitrariamente qual deve ser o aspecto essencial do ente, porque a Ideia se dá, se oferece e se impõe ao olhar antes de qualquer atividade humana. 9. A restituição da Ideia platônica ao sentido grego de aspecto impede igualmente que ela seja reduzida a um simples conceito ou universal lógico, pois a unidade de uma multiplicidade que a dialética busca apreender não resulta de uma operação abstrativa realizada pelo pensamento, mas corresponde ao aspecto uno no qual as próprias coisas múltiplas se mostram como pertencentes a uma mesma determinação essencial. * A chamada “método” platônico não constitui uma técnica rígida previamente estabelecida, mas desenvolve-se progressivamente à medida que a investigação penetra mais profundamente na natureza do ser. * A dialética consiste fundamentalmente no recolhimento ([[f>s:synagoge|synagoge]]) de uma multiplicidade em uma unidade, isto é, no reconhecimento de um eidos uno que reúne aquilo que inicialmente aparece disperso. * O dialético deve ser “sinóptico” (synoptikos), capaz de abarcar com um único olhar aquilo que se apresenta primeiramente dividido e múltiplo, razão pela qual a visão de conjunto constitui uma determinação essencial da dialética. * No Fedro, ao movimento de reunião acrescenta-se explicitamente o movimento inverso de divisão ([[f>d:diairesis|diairesis]]), mediante o qual a unidade conquistada deve ser articulada segundo suas divisões naturais, como quem corta um corpo pelas juntas sem destruí-lo arbitrariamente. * Mesmo quando a República enfatiza sobretudo a recondução do múltiplo ao uno, essa operação não deve ser entendida como produção de um conceito geral mediante abstração. * Eidos significa primordialmente o aspecto de alguma coisa e somente secundariamente pode receber determinações semelhantes às que posteriormente serão atribuídas ao conceito, como unidade perante a multiplicidade, comunidade entre diversos entes e generalidade relativamente aos particulares. * Essas propriedades lógico-conceituais não esgotam a significação eidética fundamental da idea, porque um conceito universal enquanto representação mental aplicável a muitos particulares não explica aquilo que Platão entende como essência. * A Ideia não existe apenas no pensamento, mas constitui o próprio aspecto ou rosto das coisas, permanecendo junto (para) delas como aquilo em virtude do qual elas podem ser aquilo que são. * Quando Sócrates procura uma Ideia una correspondente às múltiplas coisas que recebem o mesmo nome, não cria um objeto lógico abstrato, mas busca aquilo que essas próprias coisas têm em comum enquanto seu aspecto essencial. * Embora a Ideia seja apreendida pelo intelecto, sua realidade não é meramente intelectual ou psicológica; em linguagem aproximativa, ela poderia ser chamada “objetiva” e não “subjetiva”, desde que essa oposição moderna não seja projetada sem reservas sobre o pensamento grego. 10. A impossibilidade de identificar a Ideia com uma representação ou pensamento subjetivo é expressamente confirmada no Parmênides, onde a hipótese de que cada Ideia seja apenas um pensamento existente nas almas é rejeitada porque conduziria ou à absurda transformação de todas as coisas participantes em pensamentos, ou à concepção igualmente insustentável de pensamentos que não pensariam nada, de modo que a Ideia deve permanecer independente do ato mental pelo qual é conhecida e corresponder, enquanto eidos, ao aspecto inteligível do próprio ente. * A hipótese segundo a qual cada Ideia seria um pensamento poderia inicialmente parecer resolver as dificuldades da participação, pois um pensamento poderia conservar sua unidade e estar simultaneamente presente em diversas almas. * Essa solução fracassa, em primeiro lugar, porque todo pensamento é pensamento de alguma coisa; se a Ideia fosse simplesmente o ato de pensar, seria necessário distinguir esse ato de seu objeto, e aquilo que todas as coisas participantes têm em comum seria justamente o objeto pensado, isto é, algo distinto do pensamento subjetivo. * Identificar a Ideia ao próprio pensamento exigiria que o pensamento pudesse tomar-se a si mesmo como objeto e coincidir integralmente consigo mesmo, possibilidade que Platão não desenvolve e que somente receberá formulações sistemáticas posteriores, como a noesis noeseos aristotélica e a Ideia absoluta hegeliana que se pensa a si própria. * Em segundo lugar, se as coisas participam da Ideia e a Ideia fosse um pensamento, as próprias coisas participantes deveriam tornar-se pensamentos ou atos de pensamento, consequência manifestamente absurda. * A redução da Ideia a conteúdo mental não constitui, portanto, uma solução aceitável para as aporias da participação. * A análise do Parmênides confirma decisivamente que a Ideia platônica não é uma representação subjetiva comparável à ideia cartesiana, não pertence à matéria mental de uma consciência e não é simplesmente um objeto constituído pelo pensamento. * Enquanto eidos, a Ideia corresponde ao aspecto ou rosto inteligível do ente em si mesmo, existindo independentemente do ato pelo qual a alma a apreende e impondo-se ao pensamento como aquilo mediante o qual o ente se mostra no que ele é. {{tag>Boutot Platão Heidegger eidos idea}}