====== Ver e conhecer ====== //BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.// **A interpretação “óptica” do ser e do conhecer em Platão** 1. A determinação platônica do ser como idea possui uma significação essencialmente “óptica”, pois a Ideia representa o rosto ou aspecto inteligível do ente e possui uma visibilidade intrínseca pela qual não apenas se oferece à visão, mas torna manifesto o próprio ente que dela participa, de modo que a compreensão do ser como presença constante e a interpretação da [[f>o:ousia|ousia]] como idea convergem numa concepção segundo a qual aquilo que verdadeiramente é se mantém diante do olhar com estabilidade, consistência e permanência. * A Ideia da igualdade não somente se oferece à apreensão, mas torna visíveis como iguais as coisas que participam dela, porque aquilo que é igual somente pode aparecer como tal mediante a presença da igualdade. * Ser igual significa, nessa perspectiva, permanecer presente no não ocultamento, conservar-se diante da visão ([[lx>termos:s:sicht|Sicht]]) e, por essa abertura, assegurar a visibilidade de um ente como igual a outro. * A Ideia é simultaneamente visível e princípio de visibilidade, pois, enquanto aspecto essencial do ente, possibilita que o próprio ente seja apreendido naquilo que é. * A interpretação platônica do ser como idea decorre também da concepção mais fundamental do ser como presença constante, uma vez que o aspecto de uma coisa é precisamente aquilo pelo qual ela se apresenta, se propõe e permanece diante do olhar. * A estabilidade, a posição e a permanência pertencem estruturalmente ao aspecto inteligível: aquilo que verdadeiramente é não é procurado no ente submetido ao devir perpétuo, mas naquilo que nele se mantém e subsiste enquanto seu rosto essencial. * A desvalorização platônica do sensível não deve ser explicada primeiramente por razões psicológicas, como uma suposta aversão à vida, nem por razões políticas, como um temor do progresso, mas por um a priori semântico-ontológico segundo o qual somente aquilo que permanece pode propriamente ser. * Uma vez que ser significa presença constante, as realidades sensíveis, por sua mobilidade e fluidez constitutivas, não podem possuir o mesmo estatuto ontológico daquilo que permanece invariavelmente presente. 2. A interpretação ideal do ser como idea determina correlativamente uma interpretação óptica do conhecimento, pois, se conhecer consiste em apreender a Ideia enquanto aspecto inteligível do ente, a relação entre conhecimento e conhecido passa naturalmente a ser elucidada mediante a estrutura da visão, exemplarmente apresentada no final do livro VI da República pela analogia entre o domínio visível e o domínio inteligível. * No mundo visível, luz e visão não são idênticas ao Sol, embora dependam dele; analogamente, no domínio inteligível, ciência e verdade não são simplesmente o Bem, mas recebem deste sua possibilidade e sua orientação. * O Sol desempenha no sensível a função que o Bem exerce no inteligível: assim como o primeiro torna possível a visão das coisas, o segundo fundamenta a cognoscibilidade e a verdade dos entes inteligíveis. * A ciência corresponde, nessa analogia, à visão, enquanto o intelecto constitui o equivalente inteligível do olho corporal. * Platão fala do “olho da alma” para exprimir a capacidade noética de apreender aquilo que não é acessível aos sentidos, sendo necessário voltar a alma da obscuridade para a luz e do devir para o ser. * Conhecer assume assim o caráter de ver ou contemplar ([[f>t:theorein|theorein]]): não se dirige primariamente às coisas perecíveis, objeto da opinião, mas ao ser e, em última instância, à região mais luminosa do ser, isto é, ao Bem. * A própria dialética, longe de romper com esse modelo visual mediante sua discursividade, o confirma, porque sua finalidade consiste em conduzir o pensamento à apreensão noética da essência. * A visão da essência constitui o ponto culminante e o centro da ascensão dialética; depois de alcançar o princípio primeiro, o pensamento pode desenvolver discursivamente as consequências que dele procedem, mas essa elaboração permanece dependente da apreensão originária do princípio. * A qualidade fundamental do dialético é ser sinóptico, isto é, possuir visão de conjunto capaz de reunir numa unidade aquilo que inicialmente se apresenta disperso e múltiplo. * O caráter da dialética como coroamento das ciências confirma, portanto, o primado platônico do modelo teórico e visual do conhecer. 3. A determinação do conhecimento como visão ou contemplação não se restringe a Platão, mas percorre a tradição filosófica ocidental desde a época platônica, embora represente uma transformação decisiva relativamente ao pensamento pré-platônico, no qual, especialmente em Heráclito, pensar não significava prioritariamente ver o ente, mas escutá-lo, atender ao Logos e corresponder-lhe, sendo com Platão que essa dimensão originariamente “acústica” da relação com o ser começa a ceder lugar ao paradigma óptico que posteriormente se tornará normativo para a metafísica. * Para Heráclito, pensar implica primeiramente [[f>h:homologein|homologein]], corresponder e concordar com o Logos, ou [[f>a:akouein|akouein]], escutar aquilo que nele se anuncia. * A passagem para Platão inaugura e consolida a transformação do conhecimento em atividade predominantemente teórica, na qual conhecer significa fundamentalmente ver, contemplar e intuir. * O ser enquanto verdade passa, em consequência, a revelar-se propriamente na apreensão intuitiva e no [[f>n:nous|noûs]], constituindo-se historicamente o ideal segundo o qual a forma mais elevada do conhecimento é aquela em que o ente se oferece imediatamente ao olhar intelectual. * Esse ideal atravessa a filosofia posterior até Kant e Hegel, mantendo a intuição como paradigma da apreensão plena e imediata do ente. * Em Descartes, a prioridade da intuição manifesta-se na distinção entre intuição e dedução: a primeira consiste numa representação da inteligência pura e atenta, tão clara e distinta que exclui a dúvida acerca daquilo que é compreendido, enquanto a segunda procede necessariamente de verdades previamente conhecidas. * Mesmo a dedução cartesiana depende da intuição, pois seus passos particulares e a conexão necessária entre princípio e consequência precisam ser apreendidos mediante evidências sucessivamente intuitivas. * O raciocínio dedutivo pode ser concebido como sucessão de “visões claras” ou como continuidade de uma mesma intuição através da cadeia argumentativa, mostrando que a intuição não constitui apenas um modo de conhecimento entre outros, mas o elemento no qual a própria discursividade encontra fundamento e certeza. * Em Kant, apesar da distinção entre sensibilidade e entendimento, permanece o primado da intuição, pois todo conhecimento deve relacionar-se imediatamente a objetos mediante ela, enquanto o entendimento desempenha a função de determinar conceitualmente aquilo que foi intuitivamente dado. * O princípio segundo o qual pensamentos sem conteúdo são vazios e intuições sem conceitos são cegas não elimina essa precedência, já que os conceitos esclarecem e tornam universalmente inteligível aquilo que inicialmente se dá à intuição. * A epistemologia ocidental conserva assim, sob formas diversas, a primazia histórica do ver como modo fundamental da apreensão do ente. 4. A própria filosofia de Hegel, embora transforme radicalmente o sentido da intuição e atribua à dialética um caráter especulativo, não rompe com o paradigma óptico instaurado pela tradição platônica, porque sua dialética pode ser entendida como intuição originária conquistada mediante o trabalho do pensamento, como visão do pensamento por si mesmo e como apreensão da unidade na qual o Absoluto se reflete e se reconhece, ao passo que o privilégio grego da visão aparece ainda mais claramente no verbo [[f>t:theorein|theorein]], cuja estrutura semântica remete à contemplação do aspecto segundo o qual algo se mostra. * A dialética hegeliana não rejeita definitivamente a intuição, mas pretende reconquistá-la em uma forma mediada e especulativa na qual pensamento e objeto deixam de permanecer exteriormente separados. * A noesis noeseos, o pensar que pensa a si mesmo, oferece a figura de uma apreensão em que visão, pensamento e objeto tendem à coincidência. * O verbo theorein contém uma referência fundamental ao ver: designa olhar ou contemplar aquilo que se oferece sob determinado aspecto e permanecer atentamente junto do que se mostra. * A theoria é, portanto, fundamentalmente visão daquilo que se dá a ver, não simples elaboração conceitual abstrata. * Aquilo que Platão denomina eidos é justamente o aspecto no qual alguma coisa se mostra em seu ser; possuir ciência significa ter visto esse aspecto e apreendido intelectualmente aquilo que a coisa é. * Conhecer como theoria implica permanecer junto do ente que se manifesta, deixando que seu aspecto se mostre ao olhar e mantendo a atenção voltada para aquilo que nele aparece como essencial. 5. A tradução latina de [[f>t:theoria|theoria]] por contemplatio introduz uma alteração profunda na experiência grega do conhecer, pois o termo romano deriva de templum e contém a ideia de delimitar, cortar ou separar uma região no interior do real para submetê-la à observação, acrescentando ao puro deixar-ver grego um momento de recorte e ordenação que posteriormente preparará a concepção moderna da teoria como elaboração e construção sistemática da realidade. * Templum designa originariamente um setor delimitado na terra ou no céu no interior do qual os auspícios podem ser observados, de modo que contemplatio implica previamente a demarcação de uma região. * Esse elemento de separação ou recorte não pertence originalmente à theoria grega, na qual predomina a atenção àquilo que se oferece em seu próprio aparecer. * Na época moderna, o componente delimitador torna-se decisivo e teoria passa a significar construção sistemática, elaboração ([[f>b:bearbeitung|Bearbeitung]]) e enquadramento metódico do real. * A diferença entre theoria e contemplatio assinala, portanto, uma transformação histórica da experiência do conhecimento: o olhar que se mantém junto do que aparece cede progressivamente lugar ao olhar que separa, organiza e estrutura seu campo de investigação. * O sentido originário de theoria aproxima-se antes da guarda ou vigília da verdade, isto é, de um olhar atento que preserva aquilo que se manifesta em vez de submetê-lo previamente a um esquema construído. 6. A compreensão grega e especialmente platônica do conhecimento como theoria ou visão não decorre de uma suposta disposição fisiológica privilegiadamente visual dos gregos nem de condições externas como a luminosidade do ambiente mediterrâneo, mas da própria determinação ontológica do ser como idea e presença constante, porque, sendo o ser compreendido como aquilo que permanece manifesto e consistente, a visão torna-se o sentido particularmente apto para apreender aquilo que se apresenta com estabilidade diante do olhar, fazendo com que a ontologia determine secretamente a epistemologia. * Ser significa, para os gregos, presença e constância ([[lx>termos:a:anwesenheit|Anwesenheit]] und [[lx>termos:b:bestandigkeit|Beständigkeit]]), e é precisamente aquilo que está presente e permanece que pode manter-se diante da visão de maneira estável. * A visão torna-se privilegiada não porque os gregos fossem antropologicamente “homens dos olhos”, mas porque experimentavam o ser do ente como presença consistente. * O modelo epistemológico da contemplação deriva assim de uma decisão ontológica anterior: se o verdadeiro ente é aquilo que permanece presente, conhecer adequadamente será apreendê-lo em sua presença mediante um olhar igualmente estável. * A interpretação tradicional do conhecimento como visão, que domina amplamente o pensamento ocidental, depende portanto da representação metafísica do ser como presença constante. * O primado da intuição e da evidência visual encontra nesse vínculo entre ser e presença sua raiz histórica e conceitual. * Ao recusar a concepção tradicional do ser como presença constante e procurar pensá-lo a partir do acontecimento apropriador ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]), do “há” ([[lx>termos:e:es-gibt|es gibt]]) e do advento da própria presença, Heidegger recusa também o monopólio da interpretação do pensamento e do conhecimento como visão ou contemplação. * Antes da visão do ser encontra-se uma dimensão mais originária de escuta, atenção, cuidado e recolhimento diante daquilo que se oferece ao pensamento, dimensão ainda perceptível nos primeiros pensadores gregos. * A passagem platônica para a apreensão noética da Ideia obscurece progressivamente essa experiência originária ao estabelecer a visão do aspecto inteligível como modelo fundamental do conhecer. * Desde Platão, conhecer passa a significar, em suas múltiplas modalidades históricas, ver; saber torna-se ter visto, e a relação com o ser é organizada segundo a estrutura do olhar. * O idealismo platônico instaura, desse modo, não apenas uma interpretação eidética do ser, mas simultaneamente a matriz óptica da epistemologia que permanecerá determinante para a história posterior da filosofia ocidental. {{tag>Boutot Platão Heidegger ver conhecer}}