===== Plotino ===== * Natureza e Finalidade Primordial do Neoplatonismo como Método Filosófico * Caráter essencialmente //ascensional// e //salvífico//: método para transcender o sensível e acessar uma realidade superior. * Primado da busca pela //verdade// e pela //beatitude// (//eudaimonia//) sobre a explicação causal do mundo físico. * O mundo sensível como //imagem// (//eikôn//) ou //reflexo// do inteligível, importante não como explicação, mas como //degrau// para a reminiscência e ascensão. * Mentalidade de fundo //mitológico// subtilizado: a realidade inteligível é //autossuficiente//, //indiferente// ao mundo inferior e objeto de uma //contemplação// beatífica. * Contexto Histórico e Figura de Plotino: Gênese de um Sistema * Séculos III-V d.C. como período de elaboração de //paisagens metafísicas// destinadas ao transporte da alma. * //Amônio Sacas// (século III) como mestre iniciador, cujo ensino oral e não-escrito permanece envolto em mistério. * //Plotino// (205-270 d.C.): biografia intelectual e características de sua obra. * Formação sob Amônio em Alexandria e viagem à Pérsia. * Estabelecimento de uma escola em Roma a partir de 245 d.C. * Redação tardia (a partir de 255 d.C.) de tratados (//Enéadas//) que refletem o ensino oral, ordenados por //Porfírio//. * Estilo não-sistemático, abordando questões particulares a partir de uma //visão de conjunto// constante. * Princípio Unificador e Método de Inteligibilidade: A Primazia do Uno * Inspiração na tese estoica: a realidade de um ser é proporcional ao //grau de união// de suas partes. * Hierarquia dos níveis de unificação: desde a mera justaposição (monte de pedras) até a unidade perfeita do espiritual (a ciência). * Toda realidade imperfeitamente unida pressupõe uma //unidade superior// que a funda e unifica. * Crítica a Aristóteles: o //Uno// é //princípio do Ser//, e não convertível com ele. O Ser é subordinado ao Uno. * Condição fundamental: a unidade superior deve conter em si, de modo //contraído// e //inseparável//, toda a realidade que se desenvolve no produto (ex: a alma contém as //razões seminais// do corpo). * Método plotiniano: compreender qualquer realidade //remetendo-a a uma unidade mais perfeita// que a contém em potência. * O Princípio da Contemplação como Atividade Geradora e Unificadora * Ruptura com o estoicismo: a unidade não resulta de uma //tensão// ativa que penetra a matéria. * Toda unidade é do tipo da unidade de uma //ciência//: o sujeito é uno porque contempla um //objeto uno//. * A unidade na realidade inferior é produto da //contemplação// do princípio superior. * Conclusão radical: //a realidade verdadeira é a contemplação//. * A //Inteligência// é contemplação de seu objeto. * A //Natureza// (//physis//) é uma //contemplação silenciosa e inconsciente// do modelo inteligível que imita. * Princípio da //imanência sem perda//: o princípio superior permanece em si, imóvel e perfeito; sua "ação" é como a da luz que inunda sem se misturar. * Pressuposto Cosmológico: A Imagem de um Cosmos Único e Eterno * Fundamento implícito de toda a metafísica plotiniana: a aceitação de um //cosmos único, finito e eterno//, de ordem imutável e geocêntrica. * As realidades inteligíveis são o próprio mundo sensível, porém //"contraído"// e //"desmaterializado"//. * Unidade do mundo, //simpatia// universal e eternidade são premissas incontornáveis para o sistema. * Teoria das Hipóstases: Estrutura da Realidade * //Primeira Hipóstase: O Uno (ou o Bem)// * Princípio absolutamente //simples//, //indiviso// e //indeterminado//. * "Acima da essência" (//epekeina tês ousias//): não é um "algo" determinado. * Denominações (Uno, Bem, Primeiro) são //relacionais//, indicam sua função em relação ao que dele deriva, não propriedades positivas. * //Nada// (por não ter determinações) e //Tudo// (por ser potência de todas as coisas). * É uma //hipóstase// (sujeito existente), mas não uma //substância// (//ousia//) (sujeito determinado por atributos). * //Processão (//proödos//)//: Por que a multiplicidade surge do Uno? * Por //sobreabundância// (//hyperplêrês//) e //perfeição//, não por vontade ou consciência. * Metáforas da fonte que transborda, da luz que irradia, do ser vivo maduro que gera. * O produto procura //permanecer próximo// à sua fonte, //voltando-se// (//epistrophê//) para contemplá-la. * //Segunda Hipóstase: A Inteligência (//Nous//), o Ser e o Mundo Inteligível// * Nasce da //conversão// do produto do Uno para contemplá-lo. * É, simultaneamente: * //Inteligência//: sujeito que conhece. * //Ser// (//on//): objeto conhecido, conteúdo inteligível. * //Mundo Inteligível//: multiplicidade hierárquica e eterna de Formas (//eidê//). * Unidade sistemática: cada Forma //contém todas as outras//; passagem do gênero à espécie por //divisão// (não por adição de diferenças). * Inovação crucial: há //Ideias dos Indivíduos//. O inteligível é um mundo //completo e concreto//, não um esquema abstrato. * Justificativa: garantir a riqueza total do modelo e a origem inteligível de todas as características (ex: griffas do leão, órgãos dos sentidos). * Identidade entre inteligente e inteligível: o inteligível //não está fora// da Inteligência. Esta, ao pensar a si mesma, pensa todo o mundo das Formas. * Visão final: o Mundo Inteligível é uma //sociedade de espíritos/inteligências// que, ao se pensarem mutuamente, constituem uma //Inteligência única//. * //Terceira Hipóstase: A Alma (//Psychê//)// * Produzida pela Inteligência, é o //intermediário// entre o inteligível e o sensível. * Função dupla (aparente): * //Contemplação// eterna do inteligível (sua atividade superior). * //Organização// e governo do mundo sensível. * Unidade das funções: a Alma //só age organizando porque contempla//. Sua influência ordenadora é um //efeito não intencional// da sua contemplação, como figuras que se desenham a partir do pensamento do geómetra. * É o mundo inteligível num estado de //maior divisão// e "distensão", pronta para se projetar no espaço. * //Alma do Mundo// e //almas individuais// são //consubstanciais//. O cosmos é um //ser vivo// unificado, contra a quintessência aristotélica. * A //Matéria// (//Hylê//) como Hipóstase Inferior e Raiz do Mal * Realidade //absolutamente indeterminada// e //impassível//, oposta à concepção relativa de Aristóteles. * A forma não se //une// a ela, apenas nela se //reflete// de modo transitório, sem a afetar. * //Mal em si// (//kath' auto kakon//): incapacidade de receber e reter a forma, a determinação, o ser. * Todos os males (vício, fraqueza) derivam do //contato// da alma com a matéria. * Existe como //último grau// da realidade, antes do nada absoluto, por necessidade de exaustão dos níveis possíveis. * Questões Centrais da Antropologia e da Ética Plotinianas * //Descida da Alma (//kathodos//)// e a Queda * A alma individual, por //voltar-se para seu próprio reflexo// no corpo (como Narciso), precipita-se no sensível e torna-se escrava das paixões. * //Justiça imanente//: a vida futura da alma corresponde ao pecado desta "curvatura" para baixo. * //Estrutura do "Eu" e Níveis da Vida Anímica// * Distinção entre: * //Alma intelectual// (parte superior): permanece "no alto", contemplando eternamente. * //"Eu" (ou alma intermediária)//: pode orientar-se para a contemplação superior ou para o reflexo inferior. É o //sujeito da vicissitude e da história//. * Níveis de vida possíveis, correspondentes aos níveis de realidade: * Vida do //prazer// (passividade). * Vida //ativa// e //prática// (virtudes cívicas). * Vida da //reflexão discursiva// e do //autodomínio//. * Vida da //intuição intelectual// (contato com o //Nous//). * Vida da //união extática// com o Uno. * //A União Extática com o Uno// * Estado //supra-intelectual// e //inefável//, além da dualidade sujeito-objeto. * Caracterizado como //contato//, //simplificação//, //doação de si//, //estabilidade//. * Experiência //rara// e //momentânea// (Plotino a teria atingido quatro vezes). * Testemunho só possível //por memória//, pois no momento da experiência perde-se a consciência de si. * Relação com a Religião e Especificidade do Sistema Plotiniano * //Não é uma teologia// no sentido devocional. * O termo "deus" (//theos//) é reservado por Plotino às almas dos astros e do mundo. * Defende o //politeísmo helênico// como expressão da multiplicidade de poderes no cosmos. * Separação entre //culto ritual// e //ascensão filosófica//. * A eficácia dos ritos (oração, culto a estátuas, adivinhação) é explicada pela //simpatia// cósmica, não pela intervenção de deuses providenciais. * Nenhuma relação necessária entre o ritual e o acesso ao inteligível. * Diferença fundamental com //Filon de Alexandria//: as hipóstases plotinianas são //impessoais//, sem //vontade de salvar//; são graus de unificação do real, não intermediários voltados para o bem humano. * A //liberdade do Uno// (Enéada VI, 8): independência absoluta, poder de //auto-determinação// para além de qualquer essência fixa. Inovação em relação a Platão, cujo princípio era //limite// e //medida//.