====== Diano ====== ==== Carlo Diano (1902-1974) ==== //Forma ed evento. Principi per una interpretazione del mondo greco. Neri Pozza Editore, 1952// ==== Resumo da apresentação da versão em inglês por Jacques Lezra ==== * Exposição do problema fundamental: tensão irredutível entre //idea// (ἰδέα, εἶδος) e //tyche// (τύχη) como princípios constitutivos da consciência e da expressão do mundo grego. * //Idea// compreendida como forma inteligível, modelo eterno, estrutura estável e essência contemplativa que se oferece ao //nous// (νοῦς). * //Tyche// compreendida como evento, acaso, contingência irredutível, aquilo que advém e que se impõe à experiência de seres capazes de bem ou mal, de agir e padecer. * Esta tensão não é mero objeto de análise histórica, mas princípio ativo que estrutura a interpretação do mundo grego e, por extensão, os fundamentos do pensamento ocidental. * Análise lógica como ponto de partida: o contraste entre o silogismo categórico aristotélico e o silogismo hipotético estoico. * Silogismo aristotélico da forma: opera com categorias universais e necessárias, ignorando a particularidade dos eventos e a dimensão temporal. * Exemplo paradigmático: "Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal." A conclusão é necessária e deriva da essência formal. * Relação de correspondência reflexiva entre sintaxe lógica e objetos ideais, onde a tautologia garante a verdade. * Necessidade de caráter teórico e contemplativo, fundada na imutabilidade das essências. * Silogismo hipotético estoico do evento: opera com conexões condicionais e relações entre proposições singulares, ignorando as formas essenciais. * Estrutura: "Se é dia, há luz; é dia; logo, há luz." A verdade depende da conexão factual e da validade do condicional. * Necessidade de caráter imanente e prático, fundada na conexão causal entre eventos singulares e no encadeamento discursivo. * Abertura para a //tyche// como pura indeterminação que o raciocínio tenta capturar, mas que permanece como resíduo contingente. * Consequências ontológicas e teológicas da dualidade forma-evento. * Ontologia aristotélica: primado da substância (//ousia//, οὐσία) como forma realizada (//entelecheia//, ἐντελέχεια). * O ser é compreendido a partir do //tò tí ên eînai// (τὸ τί ἦν εἶναι), a essência imutável. * Causalidade final como expressão da forma que atrai o movimento para sua realização plena. * Deus como forma pura, ato puro (//energeia//, ἐνέργεια), pensamento do pensamento (//noêsis noêseôs//, νόησις νοήσεως). * Deus é a "coisa vista" por excelência, o //eidos// supremo que contempla a si mesmo, separado do mundo, imóvel e eterno. * Ontologia estoica: primado do corpo (//sôma//, σῶμα) e do evento singular dentro de um cosmos materialista e panteísta. * Ser identificado com o corpóreo que age e padece (//poioun kai paschon//, ποιοῦν καὶ πάσχον). * Causalidade eficiente e imanente como teia de eventos encadeados pelo //logos// (λόγος) divino. * Deus não possui forma própria, mas é corpo fluido e ígneo (//pyr technikon//, πῦρ τεχνικόν) que permeia todas as coisas. * Deus é //logos//, discurso que se move de termo a termo, providência (//pronoia//, πρόνοια) e lei (//nomos//, νόμος) que realiza a identidade cíclica do ser. * Desdobramentos na concepção de tempo e história. * Tempo da forma (Aristóteles): tempo como medida do movimento em relação a um antes e um depois, subordinado à eternidade do motor imóvel. * A forma é atemporal; sua realização no mundo sublunar ocorre no tempo, mas seu modelo é eterno. * História como campo de manifestação contingente de formas essenciais que em si mesmas são anistóricas. * Tempo do evento (Estoicos): tempo como dimensão intrínseca da existência corpórea e do fluxo causal. * O evento é temporal por essência; sua singularidade é irredutível. * História regida pelo //logos// divino que realiza ciclos cósmicos (//apokatastasis//, ἀποκατάστασις), onde cada instante é identidade do ser que foi. * A contingência da //tyche// inscreve-se dentro desta ordem fática e providencial. * Manifestações da tensão na tragédia ática, especialmente em Sófocles. * A tragédia como lugar privilegiado onde a //tyche// irrompe na ordem da forma, da lei (//nomos//) e da previsão humana. * Análise de Édipo: filho da //Tyche//, cuja identidade e destino são tecidos pelo acaso que subverte todas as formas estáveis de parentesco e poder. * O parricídio e o incesto como eventos que não decorrem de uma forma má, mas de uma constelação de acasos e erros não intencionais (//hamartia//, ἁμαρτία). * A revelação final não restaura uma forma perdida, mas instaura o vazio da contingência e a aceitação do evento puro. * Implicações éticas e antropológicas. * Ética da forma (eudaimonia aristotélica): felicidade como atividade da alma segundo a excelência da forma (//aretê//, ἀρετή), que é a própria razão. * A vida contemplativa (//bios theoretikos//, βίος θεωρητικός) como realização mais alta da forma humana. * Ação humana orientada para um fim (//telos//, τέλος) determinado pela essência. * Ética do evento (estoicismo e epicurismo): busca da //ataraxia// (ἀταραξία) diante do fluxo dos eventos e da //tyche//. * Sabedoria como aceitação do destino (//amor fati//) e discernimento entre o que depende de nós e o que não depende. * Ação humana como resposta adequada aos eventos singulares, dentro de uma compreensão da natureza material das coisas. * Repercussões na estética e na poética. * Arte como //mimesis// (μίμησις) da forma (Platão, Aristóteles): imitação das essências ou das ações humanas, conferindo ordem e universalidade ao particular. * Arte como expressão do evento e do pathos: capacidade de capturar o instante singular, a força do acaso e a intensidade do sofrimento ou da alegria. * A catarse (//katharsis//, κάθαρσις) trágica como experiência purificadora através do encontro com a //tyche// dramatizada. * Projeção histórica: a tensão forma-evento como chave interpretativa não apenas do mundo grego, mas da tradição europeia. * Recepção e transformação da //idea// platônico-aristotélica no cristianismo e no idealismo moderno: primado da forma, do conceito, do espírito absoluto. * Sobrevivência subterrânea da //tyche// e do pensamento do evento no materialismo, no nominalismo e em certas correntes da filosofia contemporânea. * Crítica à tentativa de síntese hegeliana e às suas consequências políticas no século XX, em particular à noção de Estado como forma espiritual totalizante (referência implícita a Giovanni Gentile). * O Estado como "forma e norma interior", "alma da alma" que pretende resumir todas as formas da vida moral e intelectual, anulando a singularidade do evento. * O fascismo visto como tentativa extrema de realização de uma forma política absoluta, correlativa a uma leitura idealizada do classicismo. * Atualidade filosófica do pensamento de Diano: o enfraquecimento das noções de necessidade e singularidade. * A crise dos fundamentos e o "retorno do evento" no pensamento do pós-guerra e contemporâneo. * A filosofia do evento em Heidegger (//Ereignis//) e sua diferença em relação à //tyche// grega. * O formalismo lógico e a filosofia matemática do evento (referência a Jan Łukasiewicz e Alain Badiou). * A pertinência da dupla //forma-evento// para pensar as aporias da globalização, a hegemonia cultural e a catástrofe ambiental, onde forças formais abstratas (capital, tecno-ciência) colidem com a singularidade de eventos irredutíveis. * Conclusão metodológica: princípios para uma interpretação que não dissolve a tensão. * Recusa de uma síntese dialética que supere a dualidade em uma terceira instância. * A interpretação deve manter-se fiel à irredutibilidade dos dois princípios, cartografando suas manifestações e entrelaçamentos históricos. * A tarefa do intérprete: pensar a "identidade mística do princípio que rege ambos", não como unificação, mas como reconhecimento da co-pertença conflitiva que estrutura a experiência do real. * O legado grego para o presente reside justamente nessa abertura tensa, que desafia toda leitura dogmática ou identitária da tradição ocidental. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort}}