===== Situação hermenêutica ===== //Andrew Fuyarchuk. Gadamer’s Path to Plato. A Response to Heidegger and a Rejoinder by Stanley Rosen. Eugene: Wipf & Stock, 2010// **1. Platão** 1. Demonstra-se que a justaposição heideggeriana entre Platão e Aristóteles depende de reduzir a filosofia platônica a uma doutrina, o que implicaria reduzir igualmente a fenomenologia aristotélica, definida por oposição ao idealismo platônico, à condição de doutrina, uma vez que os dois polos de uma oposição binária se requerem mutuamente, e que, ao interpretar tanto Platão quanto Aristóteles independentemente de seu contexto vivo — isto é, do diálogo vivo que constitui o terreno comum de ambos —, Heidegger é contestado por Gadamer mediante o recurso aos contextos literário e histórico das respectivas filosofias. 2. Assinala-se a estranheza de que, tendo sido o próprio Heidegger o formulador do lançamento (Geworfenheit) — a ideia de que o pensar se dá necessariamente a partir de um contexto não escolhido, correspondente ao que Gadamer chamou de história efeitual (Wirkungsgeschichte), pela qual permanecemos presos a modos históricos de raciocínio dos quais jamais temos plena consciência —, tenha sido Gadamer, e não Heidegger, quem levou em conta as condições históricas na interpretação de Platão, realizando a reconstrução histórico-literária, já preconizada por Schleiermacher e Schlegel, que os próprios insights hermenêuticos heideggerianos recomendavam mas que Heidegger não praticou em relação aos diálogos platônicos, como o Lísis, o Fédon e a República. 3. Critica-se indiretamente, em "Platão e os Poetas" (1934), a análise conceitual descontextualizada de Heidegger, ao demonstrar-se que a atitude platônica diante dos poetas não decorre logicamente de pressupostos ontológicos sistemáticos, mas de condições históricas e políticas concretas, situando-se na Carta Sétima — e não na crítica ontológica da República X (595a–608b) — a chave para compreender a severidade de Platão para com os poetas, que simboliza, no episódio da queima de suas tragédias ao conhecer Sócrates, não a descoberta de uma vocação filosófica, mas a oposição platônica à dominação da educação grega pelos poetas não-filósofos, cuja pedagogia por imitação alienava o eu do autoconhecimento e o tornava vulnerável aos sofistas, razão pela qual Platão buscou substituir os poetas por filósofos na formação educacional. **2. Aristóteles** 4. Observa-se, com certa incredulidade, a tendência aristotélica de interpretar Platão literalmente e de modo distorcido, explicando-se essa má interpretação pela necessidade de Aristóteles minimizar a transcendência do Bem e equipará-lo às demais ideias, insistindo em sua separação (choriston) enquanto aplica à realidade platônica não-espacial (além dos entes) uma categoria espacial própria de sua própria noção do que existe por natureza (physei onta), estratégia da qual, segundo Gadamer, Aristóteles tinha consciência mas que sustentava deliberadamente para tornar mais clara sua própria posição. 5. Reitera-se essa tendência interpretativa a propósito do Timeu, tomado por Aristóteles literalmente e depois criticado como parte de sua defesa da preeminência da natureza e do caráter secundário da matemática, devendo o diálogo ser compreendido, antes, como um jogo de Platão (ein Spiel Platos), concluindo-se que, tendo Platão respondido a uma crise política ao enfatizar o fundamento permanente do Ser em sua diferença frente ao sensível, e tendo Aristóteles reagido à tese da separação enfatizando a participação e a exemplificação do Ser das ideias na natureza, a diferença entre ambos é de grau, ênfase e orientação, e não de espécie, como pretende Heidegger. **Conclusão da Parte Dois** 6. Reafirma-se que a tentativa heideggeriana de superar a história da metafísica com Aristóteles, tido por tratamento mais radical dos problemas ontológicos legados pelos pré-socráticos e por Platão, dependeu de uma visão aristotélica de Platão incorporada à própria nomenclatura do platonismo, de modo que o projeto de 1922 de recuperação fenomenológica de Aristóteles trazia consigo, como parte integrante, a recapitulação da crítica aristotélica a Platão, recapitulação que, ao desenvolver uma genealogia de Platão ao humanismo, acaba por agravar involuntariamente o próprio clima intelectual que Heidegger pretendia combater, reproduzindo o gesto neokantiano que descartara o Aristóteles "realista ingênuo" em favor do Platão "idealista", ao descartar Heidegger o Platão metafísico-modernista em favor do Aristóteles fenomenólogo-pré-socrático de primeira ordem. 7. Indica-se que Gadamer, em 1974 — ano em que Heidegger lhe agradecera por corrigir sua visão de Platão —, denuncia a persistência, quase absurda, da interpretação predominante segundo a qual a filosofia platônica sustentaria a teoria dos dois mundos, com a completa separação entre o mundo paradigmático das ideias e o fluxo mutável da experiência sensível, deixando obscura a inter-relação entre ambos, inter-relação esta que constitui precisamente o objeto do desenvolvimento gadameriano da filosofia platônica. 8. Denuncia-se a persistente contratendência de interpretar as composições dialógicas de Platão criticamente como enunciados de uma doutrina, precedente estabelecido pelo próprio Aristóteles, que representa a filosofia platônica como doutrina de modo a exagerar a diferença entre sua abordagem e a de seu mestre, questionando-se por que Heidegger conferiria precedência à interpretação aristotélica de Platão, violando com isso seus próprios princípios de fenomenologia hermenêutica, ao adotar sem reflexão crítica a orientação de Jaeger quanto à primazia de Aristóteles e a leitura kantiana de Platão em Natorp, o que confirma estar a própria consciência de Heidegger historicamente afetada pelas pressuposições modernas acerca do que deveria ser a crítica científica, não podendo haver fim da história nem "novo começo" se o próprio profeta da nova era reencena a tradição que renuncia. 9. Reconhece-se, malgrado o caráter sintético desta reconstrução da refutação gadameriana de Heidegger, notadamente quanto ao cruzamento com Jaeger, que tal refutação surtiu efeito histórico constatável, tendo Heidegger, segundo relato de Catalin Partenie, confessado logo após a Segunda Guerra Mundial a um de seus antigos alunos que a estrutura do pensamento platônico lhe permanecia totalmente obscura, e manifestado a Hannah Arendt, em carta de 1954, o desejo de reiniciar seus estudos platônicos a partir das lições sobre o Sofista (1924–25), permanecendo incerto se estaria disposto a abandonar sua tese de que a dialética platônica seria indistinguível da hegeliana e a concordar com Gadamer quanto à necessidade de interpretá-la a partir da perspectiva de um diálogo vivo, bastando, todavia, a renúncia ao "Platão metafísico" para contestar a pretensão heideggeriana de ter criado um novo vocabulário filosófico, de ter retornado às origens por sua transparência ao fim de seu desenvolvimento, e de ter-se libertado inteiramente da metafísica. {{tag>Gadamer Platão Fuyarchuk Heidegger hermenêutica}}