===== 2 Logos ===== //GADAMER, Hans-Georg. Plato’s dialectical ethics: phenomenological interpretations relating to the Philebus. New Haven , Conn.: Yale Univ. Pr, 1991.// **Sobre a Dialética de Platão** **Parte I: A Conversação e o Modo Como Chegamos a uma Compreensão Compartilhada** **Seção 2: Conversação e Logos** 1. A fala, em sua forma primordial, integra um lidar compartilhado com algo: como declaração articuladora sobre algo, torna manifesta a coisa de que fala como algo, sem que seu objetivo seja a descoberta da coisa assim designada, residindo o real propósito dessa manifestação na realização do processo compartilhado de prover algo, sendo a declaração feita nessa situação parte da própria execução da circunspecção ([[lx>termos:u:umsicht|Umsicht]]) que governa o processo de provisão. * A coisa manifesta como algo, nesse caso, é interpretada em termos de um envolvimento ([[lx>termos:b:bewandtnis|Bewandtnis]]) ao qual servirá, ainda que essa relação não seja ela mesma enunciada, não diferindo estruturalmente a situação da prática constante, na provisão circunspecta, de compreender silenciosamente algo como algo. * Aquilo que se compreende como "algo" tem o caráter de um "para quê"; compreender algo como martelo é compreendê-lo como ferramenta para martelar, "para quê" no qual é mais primordialmente acessível e compreendido no próprio ato de martelar. * A declaração de que o martelo é pesado é, ela mesma, circunspectamente motivada, não visando levar o outro a compreender que a coisa possui a característica de pesadez, mas fazendo com que, ao compreender o que lhe é dito, o outro siga a referência nela contida a algo que deve fazer — por exemplo, procurar um martelo mais leve —, sendo pobre auxiliar quem não compreende o que dali realmente deve depreender; tão pouco importa aqui a compreensão do dito como tal, ou a compreensão do outro como tal, que se necessário chama-se outra pessoa que compreenda melhor, ou se ajuda a si mesmo, sendo o único objetivo circunspecto do que se faz ou diz o de concluir a tarefa. 2. Mesmo quando o outro é explicitamente incluído no cuidado de produzir algo — como aprendiz —, o caráter das declarações feitas nesse contexto não é o de uma apresentação científica que dá razões ou causas, tendo diversa fundamentação a pretensão de inteligibilidade dessas declarações, pois a transmissão de compreensão aí ocorrente processa-se mais primordialmente não pela fala e pela compreensão do que foi dito, mas pelo mostrar e fazer o outro imitar — como ao ajudar alguém que aprende um ofício a adquirir compreensão circunspecta de uma ferramenta que lhe é estranha. * Por mais minuciosamente que se examine visualmente a ferramenta, ou se a descreva como coisa simplesmente dada ([[lx>termos:v:vorhanden|vorhanden]]), isso não a torna familiar, pois não é como coisa simplesmente dada que ela é estranha; antes, deve ser, precisamente, familiar desse modo (pela visão ou descrição) para confrontar-nos como algo enigmático. * Como algo enigmático, é sempre já vista em relação a um tipo particular de compreensão: encontrada no contexto de uma oficina, já é compreendida como destinada ao uso na produção de coisas, isto é, como ferramenta, sendo precisamente como ferramenta, assim compreendida, que é estranha e enigmática em seu "para quê". * Esse "para quê" não é verdadeiramente compreendido quando alguém enuncia o propósito a que se destina, mas apenas quando efetivamente se a usa, mostrando somente a capacidade de usar a ferramenta, demonstrada pelo uso real, em que medida a enunciação de seu propósito a fez deixar de ser enigmática. * As declarações feitas pelo instrutor no curso da demonstração didática ou ao fazer o aprendiz executá-la constituem apenas "comentário" linguístico da própria circunspecção prática — o quão distante isso está de ser natural evidencia-se no esforço especial requerido para não recair na atividade de fazê-lo por si mesmo, seguindo o curso natural da provisão, sem atenção ao aprendiz, não devendo aqui, também, a declaração ser compreendida pelo que diz em palavras, mas obtendo seu sentido e sua pretensão de inteligibilidade do contexto tácito, mas presente, de provisão em que se insere. 3. Em ambos os casos, a fala, como interpretação circunspecta das circunstâncias, tem o caráter de dar direção, servindo a dirigir o outro não ao que exibe como tal, mas a um uso ativamente produtivo daquilo que exibe, revelando a declaração, como modo de circunspecção, o ente no modo existencial de ser-à-mão de maneira patente à circunspecção, sem constituir, como momento da realização da circunspecção, processo autônomo de provisão que se completaria ao se prover para a própria declaração. 4. Nem isso se altera pelo desprendimento ontologicamente importante da visão em relação à circunspecção prática: quando os entes são simplesmente olhados e contemplados à distância, são compreendidos simplesmente em sua aparência — ontologicamente, como coisas simplesmente dadas de tal ou qual aparência —, sendo esse olhar despreocupado também um modo do cuidado do ser-no-mundo, originando-se de um descansar do cuidado de produzir. * Como demora repousante na contemplação de entes que não precisam ser providos como coisas a produzir, essa atitude tem o caráter de desvencilhar-se das tarefas imediatas de provisão, permanecendo, contudo, como repouso, conectada ao processo produtivo de provisão do qual descansa. * Essa conexão não deve ser entendida como se, ao descansar, se mantivessem à vista as coisas para as quais se deve prover; ao contrário, busca-se, precisamente no voltar-se a outras coisas de que não é preciso prover, esquecer aquelas primeiras. * Esse voltar-se a outras coisas, na atitude de contemplação, possui caráter mais específico: é precisamente um voltar-se a algo distinto das tarefas de provisão que aguardam. 5. A natureza desse caráter específico revela-se com clareza singular num modo especial de descanso: o jogo, sendo essencial ao jogo que os jogadores estejam "envolvidos" — que se deixem levar pelas tarefas do jogo sem manter em mente que não é a sério —, o que não impede que o único propósito do jogo seja a recreação, perseguida em vista de uma atividade posterior que ela possibilita (Ética a Nicômaco K 6, 1176b35). * No jogar, o voltar-se do jogador para a coisa em jogo é peculiarmente neutro: embora a coisa deva ser levada a sério, o propósito do jogar não é essa coisa, mas o modo de voltar-se a ela — o fato de algo se tornar objeto de cuidado e esforço sem ser objeto de tal cuidado "a sério". * O objeto do esforço do jogador é algo que em si mesmo é de nenhuma importância: o jogo existe em vista do próprio jogar (Ética a Nicômaco K 6, 1176b6). 6. Essa mesma neutralidade específica caracteriza a atitude repousante da contemplação, que, ao deixar-se levar pela aparência do mundo, sempre descobre os entes em sua presença-a-mão no modo da aparência, sem que esse ter-descoberto se torne, num primeiro momento, cuidado separado dirigido a essa descobertura, isto é, sem cuidar de reter firmemente o descoberto. * A fala que comunicativamente explicita o que é compreendido nessa contemplação não pretende, tampouco, reter firmemente o descoberto como algo descoberto, mas apresenta aos outros, ao comunicar-se com eles, os entes para que os considerem do mesmo modo repousante e demorado, seja por sua escuta, seja pelas sugestões que a comunicação transmite para o próprio ver alheio. * Em seu repouso e demora, essa atitude possui tendência característica a querer estar com outros, sendo o falar uns com os outros, modo de realizar esse estar-junto, menos o próprio voltar-se ao objeto (tomando-o como algo a comunicar) do que o compartilhar desse voltar-se ao objeto — a fala sendo essencialmente autoexpressão, comunicação de como cada um se encontra (nas seções 35 e 36 de Ser e Tempo, no contexto de uma análise fundamental-ontológica da cotidianidade do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] como "curiosidade" e "falatório", exibe-se a tendência à degenerescência implícita nesse deixar-se levar repousante pela aparência do mundo e no falar uns com os outros que a acompanha). * Nesse modo de explicitar o mundo apenas contemplando-o, a fala e a expressabilidade não têm importância que modifique a própria compreensão, nem se vale do interlocutor na função especial de alguém que compartilha na constituição da explicitação e de suas pretensões implícitas. 7. Somente quando a descobertura do mundo por si mesma é posta sob o cuidado do Dasein a explicitação linguisticamente articulada do descoberto adquire função peculiar, que se revela, ao mesmo tempo, no papel constitutivo atribuído a quem é interpelado pela fala: o cuidado dirigido à disposição segura sobre o mundo — cuidado radicado numa dependência, inerente à constituição do ser do Dasein, em relação ao mundo — constrói a ideia de uma disposição antecipada segura de si mesma, ideia tanto da ciência prática quanto da teórica, cuidado esse implementado através da investigação das razões ou causas ([[f>a:arche|archai]] ou [[f>a:aition|aitiai]]) dos entes, sendo a investigação, então, a busca da razão ou causa. * O Dasein encontra essa compreensão buscada do mundo e de si mesmo já espontaneamente depositada, por assim dizer, na linguagem, tornando-se, na investigação científica, essa compreensão objeto de esforço explicitador e apropriador especial. * Como busca da razão ou causa, a investigação científica orienta-se por uma compreensão daquilo que se busca (a razão ou causa) como aquilo de que procede o ser dos entes, visando a uma capacidade peculiar do discurso não apenas de tornar visível um ente como algo, mas de exibi-lo, à luz daquilo que o faz ser como é, como sendo necessariamente assim. * Somente nessa ideia de determinar algo dando razões ou causas a declaração se consuma como modo de realização da atitude teórica; embora toda fala sobre algo o designe como algo, o fato de uma declaração como tal ter sido feita não implica que a compreensão circunspecta tenha sido nivelada numa explicitação de entes como simplesmente dados, nem basta uma atitude de mera contemplação para assegurar às declarações o caráter teoricamente determinante correspondente a tal explicitação. * Somente quando a fala desempenha o papel de exibir [isto é, exibir razões ou causas] o juízo predicativo reivindica a fala em sua função distintiva de "determinar" — de tornar disponível, sujeita à disposição, a coisa designada. 8. Essa ideia do logos como algo que assegura ao determinar remete aos verdadeiros motivos existenciais da ontologia grega, que compreende o Ser como algo simplesmente dado (vorhanden) no presente, desenvolvimento dessa ontologia em lógica que continua, até hoje, a governar a ideia de declaração científica, de modo que os verdadeiros motivos da lógica operam não no juízo, mas na inferência. * Somente o reconhecimento das ciências "individualizantes", com seu caráter metodológico distintivo, e, para além disso, a exibição da ideia de uma ontologia do Dasein, colocam em questão a pretensão universal feita pela estrutura da predicação como relato da asserção científica. * A ontologia grega do simplesmente dado conecta-se do modo mais estreito possível com a ideia grega de ciência e determina, com base nisso, a teoria do logos, não sendo acidental que, para os gregos, "logos" signifique tanto o enunciado quanto a razão ou causa, pois o que se busca é um logos que ponha à disposição aquilo que dá a razão ou causa de um ente em seu ser, sendo assim o conteúdo substantivo do logos buscado a razão ou causa do objeto (o aitias logismos, como se diz). {{tag>Gadamer Platão Filebo logos}}