====== Ética platônica e Yoga indiano ====== //Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo// ==== Ética platônica e Yoga indiano ==== * Silêncio * Retiro * Uma comparação com Patanjali * Uma comparação * Daimon de Sócrates * Estratégias para fuga * Lidando com faculdades * O Daimon de novo * Considerando as vidas individuais * A escada * As três qualidades * O bom cavalo * Conhecimento * Paradoxos socráticos? * Nenhuma demanda ---- === Sumário detalhado === * **Crítica à dicotomia entre filosofia ocidental e oriental** * **Perspectiva oriental sobre a filosofia ocidental como especulativa e desvinculada da disciplina espiritual** * Visão de um estudioso indiano sobre os sistemas filosóficos ocidentais como meros "brinquedos da imaginação". * Posição de um estudioso zen sobre a tradição ocidental basear-se apenas no insight intelectual, em contraste com a apreensão mística direta da realidade no budismo. * **Perspectiva ocidental sobre a filosofia como pura e autónoma** * Defesa aristotélica da filosofia como um bem em si mesmo, sem função prática. * Crítica à filosofia oriental por subordinar a filosofia a objetivos religiosos práticos, como a libertação da reencarnação. * **Questionamento da segurança da dicotomia entre Oriente e Ocidente** * Objeções à visão da filosofia indiana como indissociavelmente ligada à prática espiritual. * Objeções à visão da filosofia grega como puramente especulativa. * **A espiritualidade na filosofia indiana: uma reavaliação crítica** * **Argumentação de Daya Krishna contra o cliché da natureza espiritual da filosofia indiana** * Questionamento de como o conhecimento de categorias filosóficas, como as do Vaisesika-sutra, poderia levar à moksha. * Observação de que a reivindicação de conduzir à moksha é uma característica generalizada de todo estudo sistemático na Índia, feita para obter respeitabilidade. * Proposta de considerar a filosofia indiana como "filosofia propriamente dita", não radicalmente diferente da tradição ocidental. * Afirmação de que a tradição espiritual indiana confirma a "irrelevância essencial da filosofia para a busca da libertação". * **A filosofia grega além do especulativo: o caso pitagórico e platónico** * **Objeções à visão da filosofia como puramente especulativa na Grécia** * Destaque para as escolas helenísticas com objetivos terapêuticos e para as escolas pitagórica e platónica, que valorizavam a filosofia como meio de escapar da reencarnação. * Paralelo com o objetivo declarado de muitas escolas indianas, como as upanisádicas, budistas e jainas. * Reconhecimento de que a filosofia nessas escolas gregas envolvia um "bios", ou modo de vida, semelhante ao "darsana" indiano. * **O significado do silêncio na tradição pitagórica** * **Interpretações do voto de silêncio pitagórico** * Visão de que o silêncio aplicava-se a descobertas matemáticas, como a incomensurabilidade. * Interpretação de Filostrato de que o silêncio era uma forma de "logos" ou discurso interior. * Afirmações de Jâmblico e Hipólito sobre longos períodos de silêncio para novos membros. * Visão de Palladas e do poeta Palatino Sócrates sobre o silêncio como promotor de tranquilidade e concentração na "discussão eterna da alma". * **Possíveis influências e paralelos** * Possível influência de religiões de mistério ou do conhecimento da tradição indiana de "mauna". * Conselho de Empédocles para contemplar doutrinas com a mente calma e concentração pura. * Paralelo com o conselho de um professor budista moderno sobre a leitura repetida de textos até a compreensão profunda e a incorporação da doutrina. * **A prática da retirada dos sentidos em Platão e Patañjali** * **A doutrina platônica da retirada da alma do corpo** * Conselho de Sócrates no "Fédon" para a alma separar-se do corpo e concentrar-se a si mesma. * Definição no "Sofista" de que a relação com o ser real dá-se por meio da alma através da reflexão. * Declaração de que este processo é a ocupação especial do filósofo e uma preparação para a morte, permitindo escapar da roda de renascimentos. * **Paralelos com a prática yogique de Patañjali** * Chamada de Patañjali para a "retirada dos sentidos" ("pratyahara"). * Antecedentes no "Chandogya Upanisad", que recomenda concentrar os sentidos no si mesmo. * Explicação de Mircea Eliade de que o "pratyahara" liberta o yogin da distração dos sentidos. * Concordância de Sócrates no "Fédon" de que a alma reflete melhor quando livre das distrações do corpo. * Paralelo entre a mente que "se concentra a si mesma" em Platão e a "mente que permanece em si mesma" no comentador indiano Bhoja. * **Concentração e supressão das flutuações mentais** * **O estágio seguinte na prática filosófica e yogique** * Para Platão, a retirada da mente dos sentidos é seguida pela "concentração em si mesma". * Para Patañjali, a retirada ("pratyahara") é seguida pela concentração ("dharana"). * Definição de Patañjali do propósito do yoga como "a supressão das flutuações na mente". * Explicação de que as flutuações devem-se ao encontro com objetos sensoriais e aos pensamentos sobre eles. * **Uma comparação com a meditação cartesiana** * **Contraste entre a "meditação" de Descartes e as práticas orientais** * Descrição de Descartes de fechar os olhos e afastar os sentidos para "comungar consigo mesmo" e examinar o seu interior de forma discursiva. * Explicação de que na tradição de Patañjali, a imobilidade mental para doze respirações marca o início da concentração ("dharana"), sendo a meditação ("dhyana") e o êxtase ("samadhi") mais exigentes. * Conclusão de que Descartes provavelmente não ultrapassou o primeiro estágio de Patañjali, pois a sua "retirada" acompanhava o pensamento discursivo. * **Reavaliação da meditação platónica** * Assunção comum dos estudiosos modernos de que Sócrates e Platão "meditavam" como Descartes. * Evidência de práticas extáticas na religião grega que transbordavam para as escolas filosóficas. * Afirmação de que as descrições de Platão do conhecimento extracorpóreo têm mais em comum com as práticas de yogues indianos do que com as de Descartes. * Uso por Platão de uma fraseologia mística e a afirmação de que o conhecimento obtido pela "meditação" transforma permanentemente o conhecedor, tal como nas tradições hindus e budistas. * **O daimon de Sócrates e evidências de práticas contemplativas** * **Incidentes na vida de Sócrates que sugerem estados alterados** * Sócrates a "escutar o seu daimon" imóvel durante horas, no "Banquete". * Sócrates em pé, imóvel e descalço na neve durante vinte e quatro horas em Potideia. * Proposta de um estudioso de que Sócrates experienciava uma visão mística das Formas, um ato de Rememoração. * **Suspeitas de lições de meditação na comédia e na tradição** * Suspeita de paródia da incubação religiosa em "As Nuvens" de Aristófanes, onde Estrepsíades é instruído a deitar-se num pelego de carneiro para "ponderar". * Relação do estado de meditação no "Fédon" com a qualidade de morte da incubação. * Afirmação de Hipólito de que Pitágoras "obrigava o estudante a permanecer quieto em quartos subterrâneos". * **Estratégias para a fuga do renascimento: silêncio e austeridade** * **Práticas de "silêncio" e retiro na Academia platónica** * Relato de Diógenes Laércio sobre Xenócrates, que se retirava para si mesmo diariamente e dedicava uma hora ao silêncio. * Relato sobre Polemão, que se retirava da sociedade e se confinava ao jardim da Academia. * Sobrevivência desta tradição até Plotino, que falava de experiências de "samadhi" e instruía os seus alunos em práticas de meditação idênticas às indianas. * **Austeridade ("tapas") e abstinências como condições para o conhecimento yogique** * Enumeração por Patañjali dos cinco restrições ("yamas") e disciplinas ("niyamas"), incluindo não matar ("ahimsa"), não mentir ("satya"), não roubar ("asteya") e abstinência sexual ("brahmacarya"). * **Austeridades e abstinências como condições prévias na ética platónica** * Declaração de Sócrates no "Fédon" de que o filósofo não deve preocupar-se com prazeres como comida, bebida ou ornamentos corporais. * Princípio de que o puro atinge o reino da pureza. * **A teoria platónica das faculdades da personalidade e os "gunas" hindus** * **Apresentação de Platão das três faculdades no "República"** * Correspondência com as três qualidades ("gunas") da tradição hindu: apetites ("tamas"), desejo de dominar ("rajas") e faculdade racional ("sattva"). * **A faculdade apetitiva como a mais perigosa** * Especificação de Sócrates de que a faculdade apetitiva vincula a alma aos sentidos e à roda dos renascimentos. * Preocupação de Platão com os "grilhões do corpo" paralela à preocupação de Patañjali com as "impurezas" ("klesas"). * **Atenuação dos envolvimentos sensoriais e a conexão negativa entre prazer e conhecimento** * Visão de Platão de que as involuções nos sentidos devem ser atenuadas tanto quanto possível enquanto ainda se está num corpo. * Sugestão de Patañjali de "austeridade e autoestudo" como "yoga preliminar". * Afirmação de Sócrates no "Fédon" de que se deve evitar o contato com o corpo para se estar próximo do conhecimento. * Formulação de Patañjali de que "da pureza física surge o desgosto pelo próprio corpo e a desinclinação para contactar fisicamente com outros". * **O mito subjacente do deus exilado e a recordação de si** * **Traços do conceito mítico de recordação de si na vida após a morte** * Referência de Sócrates ao "conhecimento" como objetivo, sendo este o conhecimento transformativo que obtém a libertação da reencarnação. * Traços em Patañjali de que quando as flutuações da mente são aquietadas, "o Vidente estabelece-se na sua própria natureza essencial e fundamental". * Injunção upanisádica de olhar para dentro de si mesmo e o mito órfico da autorrecordação como pano de fundo para o desejo de Platão de que a alma "se concentre a si mesma". * **Ascetismo socrático: evidências e controvérsias** * **Evidências do ascetismo de Sócrates** * Autocontrolo de Sócrates em relação aos prazeres físicos, conforme atestado por Xenofonte. * Ênfase na polaridade "frio e calor" semelhante à formulação indiana de "tapas" como suportar os "pares de opostos". * **A tentativa de mitigar o ascetismo platónico** * Visão moderna de que Platão teve uma fase ascética jovem, coincidindo com a escrita do "Fédon", mas que a terá retratado ou mitigado posteriormente. * Foco no "Filebo" para o compromisso entre prazer e conhecimento, ou no "Banquete" como imagem de uma vida calorosa e genial. * **Reafirmação do ascetismo no "Banquete"** * Incidentes que enfatizam o ascetismo de Sócrates: a retirada para comungar com o seu daimon, caminhar descalço na neve, ficar imóvel durante vinte e quatro horas, recusar relações sexuais com um jovem atraente e impermeabilidade ao álcool e ao sono. * Conclusão de que o "Banquete" não renuncia ao ascetismo, mas mostra Sócrates a rejeitar enfaticamente os prazeres físicos. * **A "escada do amor" de Sócrates e os estágios do crescimento espiritual** * **Os seis estágios da alegoria de Sócrates no "Banquete"** * Primeiro estágio: o amor por um corpo belo. * Segundo estágio: desapegar o amor do objeto específico e dirigi-lo para todos os corpos belos, semelhante ao conceito hindú de "vairagya" ou desapego. * Terceiro estágio: retirar o amor dos objetos corporais e amar, em vez disso, almas belas, uma reformulação da retirada dos sentidos. * Quarto estágio: estender o amor espiritualizado para as leis e costumes que unem as almas harmonicamente. * Quinto estágio: dirigir o amor para os ramos abstratos do conhecimento. * Sexto estágio: dirigir o amor para a visão da Beleza universal, libertando totalmente a mente do corpo. * **Paralelos com a concepção de Patañjali do crescimento espiritual** * Afirmação de Patañjali de que "o mais alto estágio de iluminação é alcançado por sete estágios". * Paralelo entre os seis passos de Sócrates e a prescrição de "abstração" nos "Yoga Sutras". * **A alegoria da carruagem e a teoria das três qualidades** * **A alegoria da carruagem no "Fedro" de Platão e na "Katha Upanisad"** * Em Platão, o cocheiro é a faculdade da sabedoria, o cavalo branco a ambição e o cavalo negro e rebelde os apetites. * Na "Katha Upanisad", o "atman" é o dono da carruagem (o corpo), o cocheiro é o intelecto, a mente as rédeas, os sentidos os cavalos e os objetos sensoriais os caminhos. * Interrogação sobre se esta figura poderia ter viajado do Extremo Oriente para Platão, ou se reflete a herança indo-europeia comum. * **Atitudes em relação aos prazeres da necessidade e o celibato** * Distinção de Platão entre prazeres necessários e desnecessários, sendo estes um obstáculo à alma. * Atitude semelhante nos "Narada Bhakti Sutras" sobre atividades como comer apenas na medida necessária para a preservação da saúde. * Recomendação geral de castidade ou celibato para as vidas filosófica e yogique. * **A restrição das faculdades apetitiva e ambiciosa** * Visão de Platão de que a faculdade apetitiva carece de virtude natural e precisa de muita restrição, enquanto a faculdade ambiciosa, sendo naturalmente atraída pela honra, precisa de menos persuasão. * Várias abstenções para proteger a faculdade ambiciosa da autoinflação, como possuir propriedade mínima e envolver-se em serviço público. * Objetivo de uma balança interior das três faculdades, onde a razão domina, a ambição serve a razão e os apetites são submisso. * **A visão de Patañjali sobre a interação das três qualidades** * A natureza da atividade mental depende de como as três qualidades ("gunas") interagem. * Austeridades e abstinências diminuem o poder da passividade ("tamas") e, por fim, as qualidades opostas são trazidas a um equilíbrio onde a razão ("sattva") é o elemento dominante. * **A natureza do conhecimento especial em Platão e nas tradições indianas** * **A dialética platónica como algo além do argumento lógico** * Dificuldade em apoiar a visão de que a dialética é uma forma de argumentação lógica, dado o requisito de renúncia e ascese prolongada antes de a poder atingir. * Passagens que sugerem um conhecimento místico encontrado em estados de êxtase, como no "Fédon" e no "Banquete". * **Opções interpretativas para o conhecimento platónico** * Opção de que as passagens extáticas são descrições emocionais exageradas de processos de raciocínio ordinários. * Opção de que Platão está a falar de três níveis, mas as suas afirmações mais elevadas são um gesto para um ideal irrealizável. * Opção de tomar a sério a possibilidade de Platão ter tido essa experiência "superior" de consciência. * **A descrição do conhecimento como inalterabilidade** * Definição no "Fédon" de que o conhecimento é o estado em que a alma, em comunhão com o inalterável, é inalterável. * Paralelo com a definição de Patañjali de que o yoga é a "supressão das flutuações na mente". * **Os três níveis de ser e consciência nas doutrinas não escritas** * Reconhecimento de que, nas doutrinas não escritas, Platão era mais aberto sobre três níveis: o Uno e o Díada Indefinida, as Ideias e os dados sensoriais. * Atribuição de um tipo de cognição a cada esfera ontológica: percepção sensorial, razão e cognição unitiva ou mística. * Dificuldade em ser preciso sobre o nível mais elevado nos diálogos, sendo o "Parménides" o mais próximo. * **Paralelos upanisádicos e budistas na concepção do conhecimento** * **Distinção entre conhecimento inferior e superior nos "Upanisads"** * Passagem do "Svetasvatara Upanisad" que define a ignorância como conhecimento do perecível e o verdadeiro conhecimento como do imortal. * Passagem do "Mundaka Upanisad" que distingue conhecimento inferior (os Vedas e estudos académicos) e conhecimento superior (aquele pelo qual o indestrutível é apreendido). * **A questão da tradução de termos platónicos como "phronesis"** * Tendência para traduzir "phronesis" como "razão", podendo ser igualmente traduzida como "sabedoria", equivalente a termos sânscritos como "prajna" e "vidya". * Exemplo do "Timeu", onde "o que é apreensível pelo pensamento com uma conta racional" poderia ser traduzido de várias formas. * **O conhecimento como ver e o "olho da alma"** * Referência habitual de Platão a este conhecimento como um tipo de visão, tal como a tradição indiana. * Passagem da "República" sobre um "órgão do conhecimento" que vale mais do que dez mil olhos físicos e que deve ser purificado. * Passagem do "Mundaka Upanisad" que afirma que o Ser não é apreendido pelo olho, mas é visto através da meditação quando a natureza é purificada. * Referência de Patañjali à "luz da consciência superior" e de Platão à mente "inundada de luz". * **O conhecimento no budismo como visto com um "olho de sabedoria"** * Explicação de que o "Nirvana" só pode ser "visto" com o "olho dos santos", um "órgão" transcendente. * Explicação de um autor zen moderno sobre o "ver por meio de um olho de prajna" que permite penetrar na própria Realidade. * **Resolução do paradoxo socrático: a unificação do conhecimento e da virtude** * Queixa de estudiosos ocidentais de que Sócrates afirma a conjunção de um estado intelectual e um estado emocional. * Explicação de que o tipo de conhecimento yogique transcende esta distinção, unificando intelecto, emoção e vontade. * Descrição da "prajna" budista e hindu como sabedoria que é simultaneamente virtude e força. * Crítica de Aristóteles a Sócrates por não distinguir entre conhecimento prático e intelectual, não reconhecendo o conhecimento absoluto como humanamente atingível. * **A questão de Sócrates ter ou não atingido o conhecimento** * Justificação tradicional para reivindicar tal conhecimento, como fizeram Parménides, Empédocles e os pitagóricos. * Passagens de "ironia socrática" que negam o conhecimento, exceto o conhecimento da sua ignorância. * Declaração de Sócrates no "Fédon" de que fez o seu melhor para viver a vida filosófica da maneira certa, e que saberá se teve sucesso quando chegar ao outro mundo.