====== Questão socrática ====== //[[.:start|Mesquita]]// O Sócrates mencionado na investigação é sempre o Sócrates de Platão, entendido em dois sentidos distintos. * Na acepção técnica e forte: o primeiro momento do filosofar platônico, isto é, o momento constitutivo de sua auto-inauguração, correspondendo cronologicamente ao primeiro período. * Na acepção dramática ou fraca: a figura que Platão faz intervir nos diálogos, independentemente do período, para personificar o Mestre. Quando a crítica assinala o "problema socrático", refere-se ao primeiro sentido, exigindo-se uma clarificação genérica do problema sem pretensão de decidir sua implicação histórica, mas apenas para explicar a posição anunciada em sua vinculação ao suposto da unidade do pensamento platônico. Falar de Sócrates e do socratismo enquanto tais, no contexto da filosofia platônica, constitui uma abstração cujo fundamento radica na chamada interpretação genética clássica. * Segundo essa perspectiva, Sócrates e o socratismo reais, isto é, históricos, teriam um lugar no pensamento platônico como momento inicial igualmente histórico e real. * Isso se daria seja considerando que os primeiros diálogos constituiriam um retrato mais ou menos fiel do Sócrates histórico, seja supondo que esses diálogos representariam já o platonismo, porém um platonismo ainda socrático, marcado pela presença, pelo magistério e pelos principais leit-motifs do pensamento de Sócrates. Essa visão incorre em circularidade, pois se serve amplamente dos primeiros diálogos platônicos para descobrir os traços do verdadeiro Sócrates e depois declara que esses mesmos diálogos são puramente socráticos, como se esse puro socratismo não fosse já o suposto que havia permitido o movimento inicial. * A primeira posição — a dos diálogos como retrato histórico — é cada vez mais rara. * A segunda, hoje predominante, surge descomprometida com a tese histórica, limitando-se a afirmar a autonomia do primeiro período do pensamento platônico. * A expressão socrático cabe quase convencionalmente a esse período, por referência a um conjunto de caracteres que, pelo menos desde Aristóteles, se consideram distintamente socráticos. Essa reformulação tácita escapa à suspeita de petição de princípio que pesa sobre a posição clássica, mas permanece devedora de uma consideração histórica. * Toda a insistência na autonomia do primeiro período do platonismo só tem consistência à luz de uma cronologia lida evolutivamente. * Esse evolucionismo tem pretensão assumidamente histórica e, se se quiser, biográfica. * Só assim se justifica a persistência do nome Sócrates como título de obras e tema de trabalhos, cobrindo ambiguamente tanto o diálogo socrático de Platão quanto o que há de residual de um Sócrates real que como tal não se pode afirmar. * Essa ambiguidade não ocorre segundo uma perspectiva de unidade do pensamento platônico, que não precisa contar com o histórico por ser um modelo de compreensão puramente filosófico. Duas questões aparentemente interligadas, mas de alcance e consequências muito diversas, devem ser distinguidas para esclarecer brevemente o problema. A primeira questão diz respeito à pessoa do Sócrates real, encarado como entidade histórica e filosófica singular, abstraída de sua ocorrência e função no contexto dos diálogos platônicos. * É lícito pesquisar os traços de sua personalidade, de seu ensino e de sua filosofia. * Impõe-se então investigar a relação desses traços com os que o figuram no interior da obra de Platão — mas apenas segundo a perspectiva de um esclarecimento do Sócrates real. * Trata-se de uma questão de recorte exclusivamente historiográfico, certamente difícil e pouco segura, dado o risco de circularidade. * Por seu caráter historiográfico e por ter confessadamente por objeto Sócrates e não Platão, essa questão não é aqui pertinente. A questão que deve filosoficamente interessar o leitor de Platão é outra — o sentido que se deve atribuir nos diálogos platônicos à persistente figura de Sócrates, encarada unicamente como tal figura, isto é, como um Sócrates de Platão. * Sobre esse Sócrates de Platão não é lícito, dessa mesma perspectiva, conjecturar a relação com o alegado Sócrates real. * Rompida sua vinculação empírica ao suposto modelo real, esse Sócrates de Platão é inteiramente platônico. * Sua consideração só tem sentido no interior do pensamento platônico e como um momento literário e filosófico desse pensamento. O único Sócrates filosoficamente relevante é o Sócrates de Platão, na exata medida em que as versões divergentes não o são — e foi graças ao Sócrates de Platão que Sócrates se tornou Sócrates para a filosofia. * Afirmar isso significa esclarecer mais determinadamente o caráter historiográfico de uma pesquisa do Sócrates real: tal pesquisa exclui liminarmente sua pertinência num contexto de história da filosofia. * Na história da filosofia, a relevância de Sócrates lhe advém de seu retrato platônico, do qual não é legítimo separar nenhum Sócrates real nem retirar ilações que o configurassem em sua realidade. * Para a história da filosofia, o retrato platônico é, em outras palavras, Sócrates mesmo. No âmbito do pensamento platônico, não havendo que falar de outro Sócrates além do Sócrates de Platão, mais justo seria apontar um socratismo platônico do que aludir a um platonismo socrático. * Por socratismo platônico entende-se não um primeiro momento real do pensamento platônico, ainda influenciado pela presença de Sócrates, mas um momento puramente filosófico do platonismo. * Trata-se do momento de constituição socrática do platonismo, uma vez que é sempre e necessariamente socrático, para a filosofia platônica, todo o verdadeiro início do filosofar. * Sócrates é, quanto ao pensamento platônico enquanto tal, o princípio que esse pensamento tem de pôr para poder começar, gerado em seu interior como um início e nada mais.