===== Plotino e os Mistérios de Elêusis ===== //PLOTIN ET LES MYSTÈRES D'ELEUSIS, F. Picavet// * Contexto Histórico-Filosófico da Transição Interpretativa nos Mistérios * Caráter evolutivo da exegese filosófica aplicada aos ritos eleusinos ao longo da antiguidade tardia. * Sucessão de sistemas filosóficos dominantes na hermenêutica dos Mistérios: pythagorismo, estoicismo e neoplatonismo. * Papel central da obra de //Plotino// na efetivação da substituição da interpretação estoica por uma estrutura metafísica neoplatônica. * Reconhecimento acadêmico contemporâneo da estreita convergência entre religião e filosofia no período final dos Mistérios. * Natureza Esotérica e Iniciática do Neoplatonismo Plotiniano * Caráter reservado e seletivo do ensino filosófico de //Plotino//, análogo a uma iniciação mistérica. * Pacto de sigilo entre //Plotino//, //Herênio// e //Orígenes// acerca das doutrinas de //Amônio Sacas//. * Prática de comunicação escrita restrita e criteriosa dos tratados a um círculo reduzido de discípulos. * Valoração positiva, por parte de //Plotino//, da função de //poeta//, //filósofo// e //hiérofante// como estados convergentes de elevação espiritual. * Fundamentação filosófica para o segredo mistérico: a natureza inefável do divino, que impossibilita sua divulgação profana. * Vinculação desta concepção com a teologia negativa que influenciaria profundamente o pensamento cristão posterior. * Estrutura da Interpretação Plotiniana: A Jornada da Alma como Iniciação * Utilização sistemática da linguagem, simbolismo e estrutura dos Mistérios como arcabouço para expor a filosofia neoplatônica. * Identificação das etapas da via mistérica com os estágios da ascensão da alma em direção ao //Uno//. * Processo de //purificação// (//katharsis//) como fundamento da virtude e condição para evitar a degradação anímica. * Necessidade de //despojamento// (//apothesis//) completo dos vínculos corpóreos e sensíveis, simbolizado pela nudez ritual do iniciado. * //Contemplação// (//theoria//) da //Beleira// inteligível e, finalmente, do //Bem// em si mesmo, meta última da jornada. * A //hipóstase suprema// (//Uno/////Bem//) figurando como o //santuário interno// (//aduton//), inacessível aos não-iniciados. * As //hipóstases secundárias// (//Inteligência// e //Alma//) representadas como //estátuas// situadas no exterior do santuário, estágios intermediários da contemplação. * Análise do Tratado Chave: Sobre o Bem e o Uno (Enéada VI, 9) * Descrição do estado de //união// (//henosis//) com o princípio primeiro. * Caracterização dessa união como //extase// (//ekstasis//), //simplificação// (//aplosis//), //doação de si// (//epidosis//) e //estabilidade// (//stasis//). * Explicitação da função do //sábio hiérofante//: decifrar o enigma e conduzir à verdadeira contemplação do santuário divino. * Definição da vida bem-aventurada como vida dos //deuses// e dos //homens divinos//: //fuga do solitário para o Solitário//. * Consequências Históricas e Doutrinárias da Interpretação Plotiniana * Ruptura com a exegese materialista e alegórica dos estoicos, oferecendo uma interpretação espiritualista mais adequada às demandas religiosas da época. * Contribuição decisiva para a //elaboração da teologia cristã//, especialmente através de conceitos como a presença divina imanente e a via negativa. * //Dissociação entre neoplatonismo e religião helênica//: o sistema plotiniano como doutrina filosófica autônoma, que utiliza os Mistérios como veículo, mas transcende seu contexto religioso específico. * Transmissão do neoplatonismo para o mundo cristão, independentemente do declínio e desaparecimento dos próprios Mistérios. * Influência em figuras como //Orígenes//, //Santo Agostinho//, //Pseudo-Dionísio Areopagita// e //Boécio//. * Permanência da estrutura conceitual plotiniana na teologia e mística medievais, tanto ortodoxas quanto heterodoxas. * Reconhecimento de que a //queda do paganismo// foi resultado de fatores políticos e sociais complexos, não de uma derrota doutrinária frente ao cristianismo. * Legado duradouro: o neoplatonismo plotiniano como síntese metafísica fundamental que alimentou a especulação teológico-filosófica desde a antiguidade tardia até o início da modernidade.