====== Eidothea e Proteus ====== ===== AS IMAGENS VELADAS DA FILOSOFIA ===== * A definição de filosofia oscila entre a arte de viver — respondendo ao imperativo //pos bioteon// (como se deve viver) — e um projeto epistemológico submetido à vontade de poder ou ao positivismo, onde a busca pela adequação verbal exaustiva muitas vezes se opõe à finalidade libertadora do silêncio unificado que transcende o conhecimento discursivo. * A distinção entre a filosofia helênica antiga e a europeia moderna revela que ambas compartilham apenas o nome, visto que a tradição socrática, platônica e aristotélica guarda maior afinidade com a sabedoria egípcia e as filosofias da Índia e da China do que com o pensamento ocidental contemporâneo. * As tradições órfico-pitagóricas e platônicas concebem a filosofia como um método de purificação para escapar da reencarnação, buscando desvencilhar a alma da //pelon// (sujeira bárbara) e permitir o retorno à estrela nativa, um conceito que encontra paralelos no //karma varana// das tradições indianas, embora nem todas as escolas orientais foquem exclusivamente na libertação (//moksha//). * O Orfismo e o Pitagorismo, fontes da tradição grega, não apenas se relacionaram com especulações indianas, mas foram moldados diretamente pela herança cultural da Mesopotâmia e do Egito, onde sementes da sabedoria egípcia cresceram para se tornar a árvore do Platonismo. * A filosofia pode ser compreendida através de imagens arquetípicas: * Um carro para viajar para outro mundo ou um método roubado dos deuses e posteriormente corrompido. * Um estratagema para vivenciar objetos indivisíveis, assimilando o self a Dioniso, o deus da tragédia e da comédia. * Um padrão arquetípico de mediação entre a sabedoria divina transcendente e a existência humana, moldado por visões historicamente determinadas. * A analogia de Proclo sobre o intercâmbio entre Proteu, Eidoteia e Menelau ilustra a dinâmica filosófica: * Proteu representa o intelecto angélico (//nous//) que contém as formas de todas as coisas, simbolizando a transformação permanente das teofanias no fluxo do devir. * O nome Proteu liga-se ao termo egípcio //prouti// (faraó), o //axis mundi// que habita o templo cósmico da verdade (//maat//). * O Elísio (//Elusion//) e o estado de bem-aventurança (//makares//) derivam de conceitos egípcios como o //Sekhet Iaru// e o //maa-kheru// (o morto justo), indicando a capacidade mágica de criar a própria realidade psíquica através de palavras de poder (//hekau//). * A função mediadora de Eidoteia instrui a alma sobre como deslocar a consciência das imagens fragmentárias e mutáveis para a identidade proteica no nível noético, reduzindo a pluralidade fenomênica à unidade divina, assemelhando-se à jornada de Odisseu em direção ao porto místico da alma. * A vida segundo o intelecto (//he kata noun zoë//) é a única que possui estabilidade, representando o caminho para a essência noética através da graça divina — exemplificada pelo dom de Hermes que liberta o entendimento das correntes da imaginação. * A etimologia da palavra //noös// (mente) está intrinsecamente ligada ao verbo //neomai// (retornar para casa), sugerindo que o exercício filosófico é uma jornada de retorno da morte e das trevas em direção à luz inteligível, simbolizando a libertação da prisão de Calipso (aquela que oculta ou vela).