===== Hermetismo ===== VIDE: [[spc>Festugière]], André-Jean; [[spc>Bonardel]], François; [[spc>Faivre]], Antoine //VAN DEN KERCHOVE, Anna. La voie d’Hermès: pratiques rituelles et traités hermétiques. Leiden Boston: Brill, 2012.// Os tratados atribuídos a Hermes Trismegisto formam um corpus literário de grande extensão temporal, geográfica e temática, geralmente dividido entre obras técnicas e tratados filosóficos, sendo que essa distinção, embora útil heuristicamente, não implica fronteira impermeável entre os dois grupos. * A literatura hermética abrange desde a Antiguidade até o Renascimento. * As obras ditas "técnicas e patricianas" incluem textos astrológicos, mágicos, alquímicos e iatromatemáticos. * Os tratados "teóricos ou filosóficos" — denominação de J.-P. Mahé, retomada por G. Fowden e B.P. Copenhaver — constituem o segundo subconjunto. * A denominação "técnico e patriciano" substitui o termo "popular" anteriormente adotado por A.-J. Festugière. * P. Kingsley questiona a adequação dessas denominações. * Referências à magia, à astrologia e a práticas rituais estão presentes também nos escritos filosóficos. * O recorte nos textos filosóficos segue o sentido dado por P. Hadot, para quem a filosofia é antes de tudo um modo de vida. O corpus hermético filosófico compreende dezoito tratados e numerosos fragmentos de extensão variada, cujo texto mais antigo conhecido no Ocidente medieval é o Asclepius, transmitido entre as obras de Apuleio. * A possibilidade de Apuleio ser o tradutor do original grego é debatida por V. Hunink e M. Horsfall Scotti. * K.H. Dannenfeldt cataloga as traduções e os manuscritos latinos do corpus. * C. Moreschini estuda a história do hermetismo latino. * C. Gilly, C. van Heertum, S. Gentile e Marsilio Ficino são referências sobre a recepção renascentista de Hermes Trismegisto. O Corpus Hermeticum foi redescoberto no Renascimento em três etapas: em 1460, o monge Leonardo da Pistoia trouxe da Macedônia um manuscrito grego com os quatorze primeiros tratados e o entregou a Cosme de Médicis, que encarregou Marsilio Ficino de traduzi-lo, com primeira edição em 1471; em 1507, Ludovico Lazzarelli publicou a tradução do CH XVI; e em 1554, Adrien Turnèbe editou dezessete tratados gregos com três fragmentos de Estobeu. * A.-J. Festugière, K.H. Dannenfeldt e J.-P. Mahé documentam essas etapas de redescoberta. * A. Faivre lista as diferentes edições e traduções dos textos gregos no Renascimento e na época moderna. * A. Gonzalez Blanco apresenta uma abordagem bibliográfica do hermetismo. Novos textos herméticos só foram descobertos em meados do século XX, com destaque para 1945 e a descoberta perto de Nag Hammadi, no Alto Egito, de treze códices coptas datados de meados do século IV. * Os três últimos tratados do sexto códice foram identificados como herméticos por J. Doresse. * NH VI, 6 — A Ogdóade e a Eneade — é o único inédito. * NH VI, 7 — A Prece de ação de graças copta — é paralela ao Ascl. 41 e ao PGM III 591-611. * NH VI, 8 — Fragmento do Discurso Perfeito — é versão paralela ao Ascl. 21-29. * Hoje se reconhecem apenas três tratados herméticos entre esses códices: NH VI, 6, 7 e 8. * Doresse havia inicialmente reconhecido cinco escritos, incluindo NH VI, 3 e 4. * K. Stahlschmidt editou sete fragmentos do P. Berol. 17 027, atribuindo-os a Fílon de Alexandria ou a alguém próximo, com menção à possibilidade hermética; esses fragmentos foram objeto de nova edição proposta pela autora do texto. * H. Oellacher, em 1951, reconheceu como herméticos quatro fragmentos dos P. Vindob. G. 29 456r e 29 828r, datados do fim do século II ou início do III d.C., posteriormente reeditados por J.-P. Mahé. O conjunto hermético se completa com descobertas das décadas seguintes: em 1956, H.H. Manandyan publicou as Definições de Hermes Trismegisto a Asclépio em armênio; em 1991, J.-P. Mahé e J. Paramelle editaram novos fragmentos herméticos do manuscrito de Oxford Clarkianus 11 do século XIII; e em 1995, R. Jasnow e K.-Th. Zauzich relacionaram textos demóticos aos tratados herméticos. * J.-P. Mahé tornou as Definições acessíveis ao grande público ao reeditá-las em francês em 1982. * O manuscrito de Oxford contém extratos de tratados já conhecidos — CH XI, XII, XIII, XIV, XVI — e fragmentos inéditos, além de uma versão grega das Definições armênias. * Os papiros descobertos têm como principal interesse permitir remontar a uma época próxima ou contemporânea à redação dos escritos, apesar de seu estado fragmentário. Os tratados herméticos filosóficos, anônimos e sem referências precisas à época de redação, são geralmente situados pelos estudiosos entre o fim do século I e o fim do século III d.C., com algumas precisões possíveis para determinados textos. * J.-P. Mahé, G. Fowden e NF I situam o conjunto nesse intervalo. * CH I é geralmente datado do fim do século I ou início do II d.C. por G. Fowden e C.H. Dodd; a autora propõe datação no século II. * J. Büchli atribui CH I ao meados do século III, posição considerada demasiado baixa no texto. * J.-P. Mahé faz das Definições o texto filosófico mais antigo: século I d.C. ou mesmo século I a.C. * O original grego do Asclepius dataria da segunda metade do século III. * B.H. Stricker e G. Fowden indicam que o conjunto seria posterior à literatura técnica, cujas origens remontariam à época ptolemaica. * Escrita em grego, provavelmente em grande parte no Egito, essa literatura foi traduzida em copta, latim, armênio e siríaco ao menos desde o século III. Apesar da diversidade de pontos de vista decorrente de dois séculos de redação, três características comuns conferem coerência ao conjunto dos tratados herméticos filosóficos como pertencentes a uma mesma tradição — a via salvífica de Hermes — constituída, entretanto, de várias ramificações doutrinárias. * A presença de protagonistas recorrentes: Hermes Trismegisto, Tat, Asclépio e Âmon. * O apagamento total dos autores atrás dessas figuras e uma narração quase ausente, salvo em CH I e no início e fim do Asclepius — o que configura a "verdadeira pseudepigrafia religiosa", categoria que inclui também os Orphica e os diferentes Oráculos, segundo W. Speyer. * Um ensinamento — oral ou, raramente, escrito — de um mestre, sobretudo Hermes, a um ou mais discípulos, principalmente Tat e Asclépio, versando sobre Deus, a salvação e temas afins. Desde sua redescoberta em meados do século XV, os tratados herméticos exerceram considerável atração sobre os eruditos, que viam em Hermes Trismegisto uma fonte mais antiga que Moisés e anterior ao pensamento de Platão, até que Isaac Casaubon afirmou que esses escritos não eram mais antigos que Platão e Aristóteles e datariam da era cristã. * A. Gonzalez Blanco e A. Faivre documentam a influência hermética sobre escritos e iconografia. * A. Roob explora a relação entre alquimia e mística hermética. * A teoria de Casaubon, exposta nas Exercitationes I 10 e citada por J.-P. Mahé, abriu caminho para todas as hipóteses possíveis, em vez de resolver o problema das origens. * O interesse pelos tratados diminuiu a partir da segunda metade do século XVII e foi retomado na segunda metade do século XIX. * D. Tiedemann traduziu o Corpus para o alemão em 1781; I.A. Fabricius elaborou a bibliografia dos manuscritos e traduções em 1790. * Os escritos técnicos, não afetados pela crítica de Casaubon, continuaram a suscitar interesse, especialmente no mundo anglo-saxão e nos meios esotéricos, conforme A. Faivre. O renovado interesse acadêmico pelos tratados herméticos no século XIX levou à incorporação desses textos à história comparada das religiões e ao surgimento de um debate sobre seu ambiente cultural original e suas influências. * G. Parthey publicou em 1854 a primeira edição crítica dos textos gregos desde 1630. * L. Ménard ofereceu em 1866 uma tradução francesa com estudo sobre a origem dos tratados. * R. Reitzenstein, em Poimandres (Leipzig, 1904), inaugurou o trabalho universitário rigoroso com ênfase no fundo egípcio — posição "egipcianizante" que provocou reação de helenistas como T. Zielinski e J. Kroll. * W. Bousset e F. Bräuninger estudaram os vínculos com os textos gnósticos. Paralelamente, pesquisadores exploraram as relações dos tratados herméticos com o mundo bíblico, com destaque para C.H. Dodd, que relacionou CH I ao judaísmo e, com CH XIII, ao Evangelho de João, mantendo prudência quanto à influência direta de um texto sobre o outro — prudência que seria posteriormente esquecida por alguns. * C.F.G. Heinrici estudou os vínculos com o Novo Testamento; H. Windisch, com a Septuaginta. * W. Scott publicou tradução inglesa, comentário e edição em que reorganizou a ordem das passagens segundo sua própria lógica, tornando necessária uma edição mais confiável. * O balanço desse primeiro período evidenciou três questões centrais: a corrente a que filiar os textos herméticos, sua origem cultural e a presença de elementos cultuais. A.-J. Festugière inaugurou nova etapa com inúmeros estudos herméticos e, a partir de 1938, em colaboração com A.D. Nock, editou e traduziu os textos herméticos — o Corpus Hermeticum, os fragmentos de Estobeu, o Asclepius e testemunhos antigos — completando esse trabalho com a obra monumental La Révélation d'Hermès Trismégiste, cujo contexto grego extenso por vezes ofuscava a análise dos próprios textos herméticos. * A. Gonzalez Blanco lista os estudos de A.-J. Festugière sobre a literatura hermética. * Os quatro volumes de La Révélation abordam: astrologia e ciências ocultas (1944), o Deus cósmico (1949), as doutrinas da alma (1953) e o deus desconhecido da gnose (1954). * A descoberta dos textos coptas perto de Nag Hammadi não alterou a opinião de Festugière sobre o contexto essencialmente grego dos textos. A identificação de três textos herméticos nos códices coptas orientou a pesquisa em nova direção, marcada pela obra de J.-P. Mahé, Hermès en Haute Égypte, que edita, traduz e comenta os três tratados coptas e as Definições armênias, enfatizando os vínculos com o Egito sem desconhecer influências helenísticas — falando em "remodelagem helenística" para NH VI, 8. * Traduções e a edição fac-símile dos códices facilitaram o trabalho; entre as traduções, destacam-se as de M. Krause e P. Labib, K.-W. Tröger, L.S. Keizer e J.-P. Mahé. * J.M. Robinson editou a edição fac-símile do Codex VI de Nag Hammadi. A ênfase no fundo egípcio caracteriza um amplo corrente que inclui P. Derchain e outros estudiosos que confrontam dados egípcios e gregos: S. Delcomminette analisa a distorção de ideias filosóficas; G. Fowden postula uma influência egípcia combinada a influências gregas e helenísticas, dando ênfase ao meio social, espiritual e geográfico dos textos; B.P. Copenhaver também se interessa pelo ambiente desses escritos. * R. Marcus, T.C. Skeat, E.G. Turner, J. Parlebas, M. Krause, B. van Rinsveld, L. Kákosy e T. McAllister Scott contribuem para o estudo dos elementos egípcios no corpus hermético. * Alguns pesquisadores — como L. Motte — chegam a aventar a hipótese de uma tradução a partir do egípcio para os textos herméticos gregos. Uma segunda abordagem prolonga os trabalhos de C.H. Dodd e H. Windisch pelo lado do judaísmo e do cristianismo, com estudos que buscam identificar autores judeus ou influências cristãs nos tratados herméticos. * M. Philonenko, B.A. Pearson, H.L. Jansen e J. Holzhausen concluem pela autoria judaica de CH I. * F.-M. Braun explora as relações entre hermetismo e cristianismo joânico, assim como entre hermetismo e essênismo. * W.C. Grese declara explicitamente que seu estudo de CH XIII visa ampliar a compreensão da literatura cristã primitiva. * J. Büchli, em estudo filológico de CH I, argumenta que o tratado é obra de um pagão sob influências cristãs, rejeitando o caráter gnóstico salvo no sentido de conhecimento de Deus. * A. Camplani estuda as referências bíblicas na literatura hermética. * A. Wlosok, G. Sfameni Gasparro, C. Moreschini, A. Löw e J. Pépin investigam o interesse dos Padres da Igreja pelos textos herméticos. O estudo dos vínculos com as correntes gnósticas, já esboçado antes da Segunda Guerra Mundial, intensificou-se com as descobertas de Nag Hammadi em torno de duas tendências: a classificação dos textos segundo seu caráter gnóstico e o estudo dos pontos de comparação entre textos gnósticos e herméticos. * H. Jonas, K. Rudolph, K.M. Fischer, G. van Moorsel, K.-W. Tröger, J. Shibata e R.A. Segal contribuem para a classificação dos textos. * E. Haenchen, G.G. Stroumsa, R. van den Broek e J. Peste estudam comparativamente os textos gnósticos e herméticos. A essas grandes abordagens somam-se estudos temáticos e filológicos, bem como numerosas traduções. * M. Pulver e F.N. Klein estudam a terminologia da luz em Fílon de Alexandria e nos escritos herméticos. * J.-P. Mahé, A. Camplani e outros contribuem com estudos filológicos sobre textos específicos. * Traduções notáveis incluem as de C. Colpe e J. Holzhausen (alemão), A. Camplani (copta), e a edição inglesa organizada por C. Salaman, D. van Oyen e W.D. Wharton, com tradução das Definições por J.-P. Mahé. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}