===== João Filopono (Philoponos Ou Grammatikos) ===== * Perfil Intelectual e Contexto de Conversão * Contemporâneo dos Gazeanos (filósofos de Gaza), espírito de //cientista// mais que de filósofo. * Discípulo de Amônio Hermias (pai) ou de Amônio, filho de Hermias (conflito nas fontes), pagão que se tornou cristão. * Interesse particular para compreensão da época: conversão como sintoma de insatisfação com a sabedoria pagã. * Desgosto pelo paganismo impregnado de magia e adivinhação (representado por Proclo e Jâmblico). * Busca no cristianismo //repouso para a alma e para o espírito//. * Implicação: o cristianismo oferecia, na época, //base mais sólida para especulação e pesquisa científica//, devido a seus alicerces metafísicos que ordenavam um universo mais passível de racionalização. * Obras Pré e Pós-Conversão: Comentários e Fusão de Tradições * Antes da conversão: compôs //comentários a Aristóteles// (Categorias, Analíticos, Física, Geração e Corrupção, Sobre a Alma). * Estes comentários mostram o fruto do trabalho da escola de Alexandria no período, que mantinha no neoplatonismo o gosto pela lógica e o espírito científico (traços da tradição aristotélica). * Tornam Filopono um dos //principais artífices da fusão do pensamento grego no cristianismo//. * O Debate sobre a Eternidade/Criação do Mundo * Retoma tema em voga nas disputas cristão-pagãs: //eternidade ou criação do mundo//. * Obras principais dedicadas ao tema: * //De Aeternitate Mundi// (lado negativo: refutação, desbravamento do terreno). * //De Opificio Mundi// (lado positivo: construção). * //De Aeternitate Mundi// dirigido contra //Proclo//, que reformulara a tese pagã da eternidade, exigindo novas respostas cristãs. * Valor da obra: Filopono //discute como cientista-físico//, não como teólogo. A discussão é regida pela crença no Gênesis, mas segue a problemática tradicional do pensamento grego, utilizando sem escrúpulos cientistas e filósofos gregos. * Estratégia de apropriação: apresenta //Platão como discípulo de Moisés// (ideia já presente em Clemente de Alexandria). Platão teria conhecimento das Escrituras, mas a tradição, o hábito e talvez o medo do destino de Sócrates o levaram ao erro. Também Hiparco e Ptolomeu teriam bebido em Moisés. * Subterfúgio: fazer remontar a Moisés todo conhecimento científico para depois usá-lo livremente. * Argumentos contra a Eternidade do Mundo e sobre a Criação * Princípio otimista: não poderia haver mais coisas nem melhores coisas no mundo. * Argumento contra a eternidade: se o mundo fosse eterno, teríamos //o infinito em ato e numerável//, o que é impossível. * Rejeição da ideia de Proclo de que toda forma de energia (inclusive a criação) pode ser considerada //movimento//. * //Criação ocorre pela simples Vontade de Deus//, manifesta sem necessidade de tempo ou dimensão. * Só a //energia espiritual// (também intemporal) se assemelha a essa criação, e também não é um movimento. * A criatura não completa o criador. Mundo não está com Deus na relação luz-sol. O divino é //autárquico// (autarkes). * Criatura está totalmente //fora da substância divina//, estranha a qualquer relação substancial com ela. * Deus é perfeito mesmo se nenhuma criatura existisse; nele, potência é idêntica ao ato. * Refutação de Ideias Aristotélicas e Defesa do Dualismo Cristão * Criação ocorre no //tempo//; o próprio tempo tem um começo. * Nem tudo que começa no tempo está sujeito a perpétuo devir e mudança (exemplo do triângulo na mente de Platão). * Nem tudo que é feito precisa de matéria pré-existente; pode ser //criado do nada// (ex nihilo). * Refutação da ideia de //matéria sem forma//. * Refutação de outra ideia fundamental de Aristóteles: as almas //não têm ser e substância enquanto princípio de movimento//. * Analogia: o sol, por sua natureza, ilumina e aquece sem querer; da mesma forma, a alma racional, onde aparece, provoca vida e movimento por seu ser, sem querer. * Logo, o //movimento não constitui a substância da alma//. Com isso, Filopono escapa à psicofísica aristotélica e mantém o //dualismo cristão//. * O "De Opificio Mundi": Exegese Científica do Hexaemeron * Após a refutação científica de Proclo, espera-se uma construção igualmente científica. * No entanto, //o teólogo intervém bruscamente//: a obra conduz à solução da Bíblia. * Filopono faz um //comentário do Hexaemeron// (seis dias da criação), guiando o leitor. * Segue a análise de São Basílio, sem novidades teológicas significativas. * Diferença crucial: São Basílio fala como homem inspirado; Filopono, como //cientista-físico//, esforça-se para fazer corresponder os fenômenos às palavras do Gênesis. * Trata-se de uma //acomodação à maneira estoica//, explicando pela luz da ciência o conhecido pela revelação. * Prestígio de Moisés: argumento supremo para rejeitar que os corpos celestes sejam animados: //Moisés nada diz sobre isso.// * Apesar disso, sua atitude nos problemas discutidos permanece //filosófica//. * Posições sobre a Alma, Deus e o Mal * Para provar a incorporalidade da alma, usa //argumentos aristotélicos//: não há intermediário entre incorpóreo e corpóreo; nenhum corpo penetra outro corpo. * Do Gênesis deduz: só o corpo humano é feito de terra; a alma, de outra natureza, //introduz-se no corpo vinda de fora//, após a formação do corpo. * A bênção de Deus ao homem após a criação mostra que a entrada da alma não é uma //queda// (como em Platão). * //Otimismo//: só as almas dos seres irracionais perecem com o corpo; a alma humana, separada, continua sua vida própria. * //Espiritualidade notável na noção de Deus//: termos como //incircunscrito// e //infinito// não devem ser entendidos como atributos de lugar ou quantidade. * Crítica severa a Teodoro de Mopsuéstia e Teodoreto de Ciro por usarem expressões antropomórficas das Escrituras literalmente, chegando a uma ideia material dos anjos e até de Deus. * Anjos são //substâncias incorpóreas//, fora de toda dimensão; não são circunscritos nem incircunscritos (atributo só de Deus); não têm lugar dentro ou fora do universo. * Só a inteligência pura pode apreender os inteligíveis e Deus. * Reflexões Morais: Contra o Maniqueísmo e a Astrologia * Contra os maniqueus: a //escuridão não é uma substância// rival de Deus, mas //privação da luz// (seguindo Aristóteles). * Contra a astrologia: //abole as leis, a justiça, admoestações, etc.//, tudo que deriva da crença no livre-arbítrio. * O cristianismo exige rejeitar a astrologia, que afasta de Deus; essa rejeição é a //maior prova de piedade e fé//. * Superstições, magia e adivinhação (presentes no estoicismo e neoplatonismo) são //estranhas ao cristianismo//. * Este traço mostra a //profunda espiritualidade do cristianismo// e o //alto lugar reservado à pessoa humana//, capaz de se elevar a Deus apenas pelo espírito e pela alma pura. * Método Dialético e Concepção da Evolução Humana * Sua dialética //não conduz do efeito à causa// (como a de Aristótese). Este caminho só é aceitável dentro de certos dogmas, para aceitá-los tal como dados pela revelação, não para explicá-los. * Ao adotar conscientemente os dogmas revelados, o espírito humano entra em //comunhão com o suprassensível//. * Não há caminho do fenômeno ao ser; não é dado ao homem apreender as causas; só sabemos muito pouco; cremos que tudo foi bem criado e ordenado por Deus. * Cada criatura, logo após o gesto divino, existiu em toda sua perfeição. Só o homem tem uma //evolução reservada// (criado à imagem e semelhança de Deus). * Recebeu a ////imagem//// desde a criação; a ////semelhança//// só virtualmente, em potência, para ser atingida em ato pelo conhecimento da verdade e pureza de vida. * Não há evolução física das espécies, mas há //evolução moral e espiritual// baseada no //livre-arbítrio//. * Interpretação da natureza humana é //platonizante//, mas o fim supremo obtém-se pela //colaboração da teoria e da prática//, ambas motivadas pela vontade. * Evolução é comum a ambos os sexos: mesma definição //animal racional mortal//. * Fonte do mal: //mau uso deliberado das faculdades de nossa natureza//; o mal não é realidade positiva, nem substância (posição neoplatônica). * Livre-arbítrio não é um mal. * Relação entre Bem e Belo e Caráter do Aristotelianismo de Filopono * Solução característica: //Tudo que é belo é bom, mas nem tudo que é bom é belo//. Primado estético não vale para a moral cristã. * Geralmente visto como //aristotélico//, dito ter contribuído para o domínio do aristotelismo no Oriente. * Crítica a Proclo e ideias no //De Opificio Mundi// mostram também //conhecedor e amigo de Platão//. * Prova que Proclo deturpou ideias de Platão e Aristóteles; insiste na //diferença entre os dois filósofos// (contrariamente a Simplício e outros neoplatônicos). * Adota e refuta teses de ambos, buscando independência: //ver as coisas, não as hipóteses de Platão.// * Como cientista, adota a //lógica, o método, a problemática e frequentemente a física aristotélicas// – eis seu aristotelismo. * Para problemas além do sensível (Deus, alma, criação), encontra mais elementos em //Platão e nos neoplatônicos// para expressar filosoficamente verdades reveladas. * Diz que Platão imitou Moisés, mas não o diz de Aristóteles. * Conclusão: seu aristotelismo refere-se mais à //forma, ordenação do pensamento e verdades científicas, não à metafísica// (como geralmente ocorre com pensadores cristãos). * Pode ser considerado, com as devidas reservas, o //fundador do aristotelismo cristão//. * Desvios Doutrinais (Heresias) e seus Fundamentos Aristotélicos * Apesar de cristão fervoroso, caiu em heresia. * Num tratado perdido sobre a ressurreição, //negava a identidade do corpo ressuscitado com o corpo antigo//. * Na Trindade, confundindo //natureza e pessoa (hipóstase)// e aplicando a doutrina aristotélica das substâncias, chegou a um //triteísmo//: Pai, Filho e Espírito Santo têm natureza comum, mas cada hipóstase forma uma pessoa à parte (relação análoga à de indivíduos com a espécie). * Esta concepção levou-o também ao //monofisismo// na cristologia. * Leôncio de Bizâncio denunciou suas heresias; Damasceno o classificará entre os jacobitas. * Seu aristotelismo é flagrante nas heresias: erro de aplicar //pura e simplesmente o pensamento aristotélico aos dogmas da Trindade e da Cristologia//. * Contraste com a solução dialética claramente cristã de Leôncio de Bizâncio. * Drama da //razão grega// tentando coordenar e formular a religião cristã: nem sempre feliz. A razão grega, adaptada ao finito, precisava transformar-se em //razão do infinito e do descontínuo//, elementos fundamentais da concepção cristã. * Atividade Científica Original e Legado * Domínio científico extenso e original. * Além dos comentários a Aristóteles: comentário à //Aritmética de Nicômaco de Gerasa// e tratado original sobre o //astrolábio//. * Definição da mônada: //A unidade é uma e faz nascer os números por sua própria revolução.// * Análise dos princípios fundamentais da física: admite que a física pode formular princípios seguros sobre movimentos celestes, mas estes, por serem gerais, não explicam precisamente os fenômenos observados. * O astrônomo recorre a //hipóteses combinatórias//, mas não deve tomá-las como imagens da realidade. * Formula a hipótese do ////impetus//// (ímpeto), precursora da mecânica moderna, adotada séculos depois por Olivi e Buridan. * Ideia original: Deus criou primeiro a luz, depois os luzeiros, porque pode separar o elemento luz do elemento cáustico (calorífero). Há na natureza seres com o primeiro sem o segundo. * Admite a //geração espontânea// como prova de que Deus insere nos elementos as //razões seminais// de tudo o que viria a surgir. * Compilou e comentou obras de Dionísio Trácio, Apolônio Díscolo e Herodiano, servindo de manual para escolas bizantinas e humanistas ocidentais até o século XV. * Erros de afirmação categórica: oceano Sul não comunica com o Mar Vermelho; circum-navegação da África impossível; zona tórrida intransponível. * Influência e Transmissão * Apesar do monofisismo, seus escritos sempre muito estimados em Bizâncio. * Como comentador de Aristóteles, reproduz em grande parte as notas das aulas de seu mestre Amônio (prática comum). * Seu discípulo //Estêvão de Alexandria// fez o mesmo; também os comentadores //David e Elias// foram seus alunos. * A tradição dos comentários desacelerou cedo em Bizâncio, mas //persistiu na Síria com resultados felizes//. * Filopono como //agente precioso na formação da filosofia sírio-árabe//: todos seus escritos traduzidos para o siríaco contribuíram para o desabrochar do pensamento árabe. * Precioso também para o Ocidente: //Guilherme de Moerbeke// traduziu seu comentário sobre o capítulo da ciência do //De Anima// de Aristóteles para o latim (1268). * //São Tomás de Aquino// utilizou-o quase literalmente em seu próprio comentário ao //De Anima// (1270), para combater os averroístas. * Filopono fornecia armas contra a interpretação de //Alexandre de Afrodísias//, próxima à de Averróis.