====== Escatologia ====== //BRUN, Jean. Platão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.// * A escatologia platônica deve ser compreendida como um momento estrutural da filosofia, no qual se articula de modo indissociável a ética, a ontologia e a teoria do conhecimento, e não como simples apêndice mítico de crenças religiosas. * Os mitos escatológicos não são introduzidos para satisfazer uma curiosidade acerca do além, nem para reforçar externamente a moral por meio de ameaças ou promessas. * Eles desempenham a função de tornar pensável a verdade da alma para além das distorções introduzidas pela vida corporal, social e política. * A escatologia aparece, assim, como condição simbólica para a tematização da responsabilidade, da liberdade e da possibilidade do saber verdadeiro. * A recorrência da metempsicose nos mitos escatológicos indica a inscrição desses relatos numa tradição órfico-pitagórica, mas Platão reinterpreta esse material segundo exigências propriamente filosóficas. * A transmigração das almas fornece um horizonte temporal ampliado no qual a justiça não se esgota numa única vida. * Esse horizonte permite pensar a unidade da alma através de múltiplas existências sem reduzir a responsabilidade a um destino cego. * A metempsicose torna-se, assim, um operador conceitual que permite articular continuidade do sujeito, liberdade e sentido do conhecimento. * No mito do julgamento das almas no Górgias, Platão introduz uma crítica radical às condições ordinárias do juízo humano. * O julgamento exercido pelos vivos sobre os vivos é apresentado como estruturalmente viciado pela aparência. * A riqueza, o prestígio e os sinais exteriores de sucesso ocultam o estado real da alma. * A justiça praticada na cidade revela-se incapaz de alcançar a verdade do ser humano. * A reforma instaurada por Zeus no mito do Górgias institui um novo regime de verdade. * A supressão do conhecimento da hora da morte impede o cálculo estratégico da vida moral. * O julgamento post mortem elimina a mediação do corpo e dos signos sociais. * A nudez das almas e dos juízes simboliza a exigência de uma avaliação que incida exclusivamente sobre o que a alma se tornou. * A substituição dos juízes vivos por juízes mortos desloca o problema da justiça para um plano ontológico. * Minos, Éaco e Radamante não pertencem mais ao domínio das convenções políticas. * O julgamento deixa de ser uma prática social e torna-se um exame do ser. * A verdade da alma é pensada como independente de qualquer reconhecimento público. * O castigo das almas no Górgias possui uma função essencialmente terapêutica e exemplar. * As almas curáveis são punidas para se tornarem melhores. * As almas incuráveis servem como advertência visível para as demais. * A punição não é vingança, mas restauração da ordem do ser. * A conclusão ética do Górgias decorre diretamente dessa concepção escatológica. * Cometer injustiça afeta a estrutura da alma de modo mais grave do que sofrê-la. * A saúde da alma torna-se o critério supremo da vida boa. * A filosofia aparece como preparação para o juízo verdadeiro, isto é, para a verdade do ser da alma. * No mito de Er, apresentado no livro X da República, a escatologia desloca seu foco para o problema da liberdade. * O centro do relato não é mais apenas o julgamento das ações passadas. * O essencial passa a ser a escolha do gênero de vida futuro. * A responsabilidade é situada antes da encarnação, como decisão originária. * A estrutura do mito de Er articula julgamento, purificação e escolha num único processo. * As almas percorrem ciclos de recompensa e punição proporcionais às suas ações. * A duração simbólica das expiações introduz uma medida racional da justiça. * O cosmos é apresentado como uma ordem inteligível na qual a liberdade se exerce. * A escolha das vidas constitui o núcleo conceitual do mito. * Nenhuma vida é atribuída por sorte divina. * Cada alma escolhe livremente seu destino. * A liberdade é apresentada como inseparável da responsabilidade absoluta. * O discurso do hierofanta explicita de modo inequívoco essa responsabilidade. * A virtude não pertence a ninguém por natureza. * Cada um a possui conforme a honre ou a negligencie. * A divindade é explicitamente excluída de qualquer imputação causal. * O erro recorrente das almas revela a dificuldade essencial da liberdade. * A maioria escolhe segundo hábitos e inclinações da vida anterior. * A aparência do poder, da glória ou do prazer engana o juízo. * A liberdade sem reflexão conduz à servidão. * A figura de Ulisses introduz um contraexemplo decisivo. * As provações anteriores dissolvem a ambição. * A escolha de uma vida humilde manifesta discernimento. * A sabedoria consiste em preferir o invisível e o discreto ao espetacular. * A intervenção das Parcas fixa a irreversibilidade da escolha. * A necessidade não anula a liberdade. * Ela confirma a decisão tomada. * O destino aparece como consequência de um ato livre esquecido. * A travessia do Lete introduz o esquecimento como condição da existência humana. * O esquecimento não suprime a responsabilidade. * Ele impede a lembrança explícita da escolha originária. * A vida empírica desenrola-se sob o signo de uma decisão esquecida. * No Fédon, a metempsicose assume uma função ascética e ontológica. * O destino pós-morte depende do modo de vida. * A alma é atraída para corpos conforme seus desejos e hábitos. * A justiça manifesta-se como afinidade ontológica. * A tipologia das reencarnações exprime uma hierarquia dos modos de vida. * Os excessos corporais conduzem a formas de vida inferiores. * A injustiça e a violência conduzem a naturezas predatórias. * A virtude cívica conduz a formas de vida ordenadas. * A alma do filósofo ocupa uma posição singular nessa hierarquia. * A filosofia é descrita como libertação progressiva do apego ao corpo. * O corpo aparece como cárcere produzido pelo desejo. * A ignorância é consequência da submissão aos sentidos. * A filosofia é apresentada como prática terapêutica da alma. * Ela desvela as ilusões da percepção sensível. * Ela reconduz a alma a si mesma. * O conhecimento verdadeiro exige separação e recolhimento. * No Ménon, a escatologia converge explicitamente com a teoria do conhecimento. * A reminiscência articula imortalidade da alma e possibilidade do saber. * Aprender é redefinido como recordar. * O logos torna-se instrumento de provocação do saber latente. * O paradoxo formulado por Ménon explicita a aporia do conhecimento. * Não se pode buscar o que se conhece. * Não se pode buscar o que se ignora totalmente. * O conhecimento pareceria impossível. * A doutrina da reminiscência resolve essa aporia. * A alma já contemplou todas as coisas. * O esquecimento é efeito da encarnação. * O saber atualiza um conhecimento latente. * O episódio do escravo demonstra a eficácia do logos. * Nenhum conteúdo é transmitido positivamente. * O diálogo conduz à descoberta por si mesmo. * A verdade emerge como evidência reencontrada. * A maiêutica define a tarefa própria do filósofo. * O filósofo não ensina no sentido técnico. * Ele provoca o movimento interior da reminiscência. * A verdade nasce da alma, não da imposição externa. * As imagens do torpedo e da varejeira exprimem a ambiguidade da filosofia. * A filosofia paralisa a falsa certeza. * Ela desperta da letargia intelectual. * O desconforto é condição do saber. * A escatologia platônica culmina numa concepção unificada da existência. * Ética, ontologia e epistemologia são inseparáveis. * A responsabilidade atravessa todas as dimensões da vida. * Conhecer é, em última instância, preparar a alma para a verdade de si mesma. {{tag>Brun escatologia}}