===== Mito no Górgias (Reinhardt) ===== //REINHARDT, Karl. Les Mythes de Platon. Paris: Gallimard, 2007// * Reconhecimento da entelecheia no devir como método interpretativo * A compreensão do desenvolvimento espiritual torna-se mais fecunda quando o momento antigo é elucidado a partir do posterior, e não inversamente. * A alma é concebida como princípio em crescimento orgânico, cuja maturação inicial se expressa em produções míticas. * O diálogo socrático surge como forma originária desse crescimento, não como simples retrato da vida, mas como manifestação do movimento interno da alma. * Emergência do diálogo socrático a partir do conflito da alma * A alma busca inicialmente um adversário no mundo exterior, enfrentando educação, formação, arte e todas as formas do espiritual que a seduzem e aprisionam. * Posteriormente, o adversário é interiorizado, convertendo-se em conflito interno da própria alma. * O ataque generalizado às potências exteriores permite à alma reapropriar-se de tudo o que pode servir como matéria de ciência e de persuasão discursiva. * O reconhecimento das Ideias inaugura a possibilidade de visão, de autodomínio e de ultrapassagem mítica. * A alma passa a ordenar-se ao Estado e, por fim, a estender-se ao cosmos. * Estrutura agônica do desenvolvimento espiritual * O combate contra inimigos exteriores antecede o exercício pleno do domínio próprio. * Defesa, fidelidade e proclamação do novo herói constituem a fase preliminar do reinado da alma. * O assédio do inimigo transforma-se progressivamente em conflito homogêneo e, depois, em combate entre duas potências da alma. * A transição da Apologia ao Górgias marca a elevação da disputa de discursos a uma luta entre almas. * O paralelismo com o Protágoras e com a segunda parte do Górgias anuncia o nível que conduz da abertura da República ao seu desenvolvimento ulterior. * A intensificação da força do adversário cresce em proporção direta à força própria da alma. * A figura do adversário como prova e pedra de toque * O combate assume a forma de luta amorosa ou fraterna, exemplificada pela imagem de Zethos e Amphion. * A verdade passa a depender da consonância com aquilo que a alma crê autenticamente. * A pedra de toque da alma justa exige três condições reunidas no adversário: saber, benevolência e franqueza. * A mudança de adversário corresponde à elevação a um segundo nível espiritual sobreposto ao primeiro. * A alma como critério supremo de valor * A disposição dos agones torna visível a finalidade do devir e sua entelecheia. * A alma converte-se progressivamente na instância perante a qual tudo deve ser avaliado. * O paralelismo entre estados do corpo e estados da alma fundamenta a hierarquia dos males. * A injustiça, o desregramento e o mau estado da alma são afirmados como os maiores males possíveis. * As artes da persuasão são reinterpretadas analogicamente a partir da relação entre corpo e alma. * A retórica e a sofística são desvalorizadas como simulacros, em contraste com as verdadeiras artes ordenadoras. * Despertar do nomos e reintegração da ordem * A lei desperta de sua inércia ao ser novamente animada pelo sopro da alma. * O Górgias contém em germe os desenvolvimentos que se expandirão na obra madura. * A analogia entre casa, navio, corpo e alma fundamenta a noção de ordem como bem. * A ordem do corpo recebe o nome de higiene, enquanto a ordem da alma recebe o nome de conformidade à lei. * Da ordem da alma emergem a justiça e a sophrosyne como efeitos necessários. * Surgimento do eros filosófico * O eros pela filosofia passa a dominar a alma com exigência exclusiva. * O amor filosófico manifesta-se paralelamente à sua elaboração mítica. * A oposição entre o amor pela filosofia e o amor pelo demos explicita o conflito entre verdade e opinião. * O cuidado com o amado torna-se tarefa comum, seja pela contenção, seja pela adulação. * Consolidação da doutrina da alma * A alma, ao expulsar adversários, busca continuamente forças opostas para se afirmar. * O ímpeto argumentativo e a irrupção dialética conduzem à rememoração de si mesma. * Desse movimento nasce a doutrina da alma como exposição explícita do que antes era vivido. * Onde surge força, nasce o mito; onde a alma busca clareza, nasce a especulação. * A especulação psicológica e teológica permanece inseparável da forma mítica. * A especulação da alma sobre si mesma converte-se inevitavelmente em mito das almas. * Critério de distinção entre mito e doutrina * A verdade de uma doutrina não depende da crença pessoal atribuída a Platão. * A distinção decisiva reside no alcance da forma e do meio de auto-reconhecimento da alma. * Mito e doutrina diferenciam-se segundo sua função configuradora da alma. * O Górgias como limiar do novo mito * O diálogo situa-se no momento em que a nova alma manifesta pela primeira vez sua potência. * O novo mito só pode ser compreendido a partir do movimento da alma no diálogo. * No ápice do Górgias, irrompe a paixão por um novo ideal. * A dialética passa a incorporar elementos de exortação e expiação. * A justiça é apresentada como ordem, harmonia e cosmos na alma. * Ressurgimento do cosmos antigo no interior da alma * A proporção geométrica é afirmada como princípio universal entre deuses e homens. * A felicidade é vinculada ao serviço à sophrosyne e à fuga da intemperança. * A punição é reinterpretada como meio de restauração da ordem e da felicidade. * O espírito do antigo cosmos reaparece, associado ao pitagorismo, mas transfigurado. * A antiga organização da polis, do culto e da comunidade renasce interiormente na alma. * O mito torna-se expressão dessa primeira e dolorosa interiorização do antigo mundo. * Relação com o pitagorismo e o orfismo * Os motivos da migração das almas e do além derivam da exigência de pureza e ordem. * Esses sistemas não produzem ainda um mundo interior pleno, mas um mundo secreto e organizado externamente. * Em Platão, tais representações tornam-se formas de autoconfiguração da alma. * Figuras como Empédocles encarnam simultaneamente doutrina e culto. * Os deuses órficos ocupam uma posição intermediária entre os deuses antigos e os platônicos. * O mito do Górgias como protesto * O diálogo representa apenas uma primeira erupção e contestação. * O mito atua como apelo aos condenados e aos mortos. * A alma reconhece-se como única portadora da verdadeira norma e da verdadeira ideia de Estado. * Diante da ausência de lugar no Estado existente, a alma apela a um reino de justiça no além. * Surgem as leis eternas como compensação à exclusão histórica. * A ausência do reino das Ideias provoca uma refração irônica do discurso. * Categorias fundamentais do mito e do diálogo * Estabelece-se a distinção entre exterior e interior. * Corpo e alma são separados como níveis ontológicos e normativos. * Vestimenta e nudez simbolizam aparência e ser. * O além torna-se categoria central do pensamento mítico platônico. * Forma externa e limite do mito * O mito conserva ainda a estrutura da fábula etiológica tradicional. * A narrativa segue o esquema da inversão entre um passado arcaico e a ordem presente. * A alma ainda não penetrou completamente a forma narrativa. * Fábula e ensinamento permanecem exteriormente separados. * O mito do julgamento das almas * A partilha do mundo divino fundamenta a ordem do julgamento. * O erro do julgamento entre os vivos decorre da presença de aparências e testemunhos. * A nudez da alma e do juiz é condição da justiça verdadeira. * O julgamento pós-morte ocorre no cruzamento dos caminhos do além. * A justiça torna-se finalmente independente de qualquer auxílio exterior. * Abertura do reino da morte nos diálogos * Na Apologia, a morte paira como verdadeiro julgamento sobre o herói. * No Criton, o dever de justiça projeta-se no mundo subterrâneo. * No Górgias, a alma nua enfrenta o juiz do além. * Na República, o destino humano e político move-se no cosmos fechado. * Estado e homem participam de um mesmo movimento circular. * Relação final entre mythos e logos * O mythos paira inicialmente sobre os diálogos antes de fixar-se neles. * No Górgias, ocorre pela primeira vez o contato efetivo entre mythos e logos. * Esse contato marca uma nova etapa na autocompreensão da alma filosófica. {{tag>Platão mitologia Górgias}}