===== Benjamin Jowett ===== Veja também: [[https://hyperlogos.info/platon/Coletânea de excertos da obra completa de Platão, na tradução de Jowett, indexados por termos relevantes]] //[[https://en.wikisource.org/wiki/The_Dialogues_of_Plato_(Jowett)/Charmides|TEXTO ONLINE]]// ==== Introdução (resumo) ==== * A temperança (sophrosyne) é um conceito grego central no Cármides, sem equivalente único em português, abrangendo moderação, modéstia, discrição e sabedoria ao mesmo tempo. * A palavra pode ser descrita como mens sana in corpore sano, a harmonia entre os elementos superiores e inferiores da natureza humana. * Na filosofia de Platão, a sophrosyne conserva um elemento intelectual, como também atestou Xenofonte nas Memorabilia, onde Sócrates a identificava com a sophia. * Em Aristóteles (Ética a Nicômaco, livro III), a sophrosyne já foi relegada à esfera da virtude moral, perdendo esse caráter intelectual. * Cármides, interrogado por Sócrates sobre o que é a temperança, oferece três definições progressivamente mais elaboradas, todas rejeitadas. * A primeira definição de Cármides é a quietude, refutada porque a rapidez e a agilidade podem ser tão nobres quanto a calma. * A segunda definição é a modéstia, derrubada por uma aplicação sofística de Homero: a temperança é boa além de nobre, e Homero declarou que a modéstia não é boa para o homem necessitado. * A terceira definição -- fazer o que é seu -- é atribuída por Sócrates a Crítias como seu provável autor, e é refutada porque o artesão que faz o calçado de outro pode ser temperante sem fazer o que é seu. * Crítias substitui Cármides no diálogo e propõe uma quarta definição, distinguindo fazer de agir com base em Hesíodo. * Crítias diferencia os termos gregos para fazer, agir e trabalhar, reservando ao trabalho e ao agir um sentido exclusivamente bom. * A definição resultante é que a temperança consiste em agir bem. * A quinta e sexta definições introduzem o elemento do conhecimento, culminando na ideia de temperança como ciência de si mesmo e do que se sabe e não se sabe. * Crítias, induzido por Sócrates, propõe que a temperança é o autoconhecimento. * Como toda ciência tem um objeto -- a aritmética tem o número, a medicina tem a saúde --, questiona-se qual seria o objeto da temperança. * A sexta definição é que a temperança é o conhecimento do que se sabe e do que não se sabe. * A possibilidade de uma ciência da ciência é questionada por Sócrates com base na analogia das relações reflexivas. * Não há visão da visão, apenas de coisas visíveis; não há amor do amor, apenas de coisas belas. * O que é mais velho, mais pesado ou mais leve o é em relação a outra coisa, não em relação a si mesmo. * Mesmo que tal ciência reflexiva existisse, caberia ao grande metafísico determinar se o conhecimento do que se sabe implica necessariamente o conhecimento do que não se sabe. * Mesmo admitidas todas as concessões anteriores, uma ciência universal do conhecimento não produziria nenhum bem concreto, pois só o conhecimento do bem e do mal é capaz de gerar felicidade. * Crítias responde que a ciência do bem e do mal, assim como todas as demais ciências, seria regulada pela ciência superior do conhecimento. * Sócrates replica separando o abstrato do concreto e pergunta de que modo esse conhecimento conduz à felicidade da mesma maneira definida pela qual a medicina conduz à saúde. * A conclusão prática é que Cármides, por já ter descoberto a temperança, faria melhor em praticá-la do que se perder nas especulações de Sócrates. * O diálogo contém diversos elementos filosóficos e culturais de destaque que antecipam desenvolvimentos posteriores no pensamento de Platão. * O ideal grego da beleza e da bondade unidas -- a bela alma no belo corpo -- está realizado na figura de Cármides. * A medicina é concebida como ciência do todo e não apenas das partes, abrangendo a mente além do corpo, como sugerido na história do médico trácio. * A tendência da época às distinções verbais, atribuída a Pródico, e às interpretações paródicas de Homero e Hesíodo são características de Platão e de seus contemporâneos. * A noção de temperança como fazer o que é seu reaparece na República como definição de justiça, não de temperança. * A impaciência de Sócrates com qualquer definição de temperança que exclua o conhecimento percorre todo o diálogo. * Surgem aqui os primeiros esboços da metafísica e da lógica: a questão de se pode haver uma ciência da ciência, e a distinção entre o que se sabe e o fato de que se sabe algo (em grego, ha oiden e hoti oiden). * Platão já antecipa sua conclusão do Parmênides de que não pode haver uma ciência que seja ciência do nada. * A concepção de uma ciência do bem e do mal aparece aqui pela primeira vez, antecipando o Filebo e a República. * Cármides e Crítias são caracterizados de maneiras opostas, sem qualquer alusão às suas atuações históricas infames. * Cármides apresenta simplicidade e ingenuidade infantis, contrastando com os artifícios dialéticos e retóricos de Crítias. * Crítias é o homem de mundo com verniz filosófico, seguidor tanto de Sócrates quanto dos sofistas, e tem laços familiares com Sólon, como também aparece no Timeu. * O amor de Crítias pela reputação é descrito como tipicamente grego, contrastando com a humildade de Sócrates. * Segundo Xenofonte (Memorabilia, livro III), Cármides foi em certa época tão modesto que evitava falar na Assembleia -- e tanto ele quanto Crítias viriam a se tornar dois dos trinta tiranos, embora nada disso transpareça no diálogo. * Cármides, com ingenuidade juvenil, frui a exposição de Crítias por Sócrates, percebendo que o guardião foi o verdadeiro autor da definição que tanto lhe interessa defender. * As definições de temperança progridem do popular ao filosófico, e nenhuma delas é mero jogo verbal. * As duas primeiras definições são simples e parcialmente verdadeiras, como os primeiros pensamentos de um jovem inteligente. * A terceira é uma contribuição real à filosofia ética, distorcida pela engenhosidade de Sócrates e mal resgatada por Crítias. * As definições restantes buscam introduzir o conhecimento e culminar na união de bem e verdade em uma ciência única -- visão que não se realizará sob o nome de sophrosyne, mas no Filebo e na República. * Cármides já pratica a virtude do autoconhecimento que os filósofos tentam em vão definir com palavras -- situação comparável à de um jovem perturbado por dificuldades teológicas a quem se diz: não se preocupe com essas questões, apenas leve uma vida boa. * O Cármides é situado entre os primeiros diálogos platônicos por razões de brevidade, caráter socrático e ausência de doutrinas maduras. * O Cármides, o Lisis e o Laquetes partilham brevidade, simplicidade e um papel central da juventude. * São diálogos de busca (peirastikai), sem conclusão, de caráter erístico ou socrático. * Neles estão ausentes noções caras a Platão como a doutrina da reminiscência, a teoria das ideias e a questão de se a virtude pode ser ensinada. * Têm uma beleza e graça juvenis que faltam aos diálogos dos períodos médio e tardio. * Nenhuma ordenação dos diálogos platônicos pode ser estritamente cronológica, sendo a ordem adotada destinada principalmente à conveniência do leitor. * A relação entre conhecimento e virtude atravessa outros diálogos platônicos, e a oposição entre conhecimento abstrato e particular no Cármides tem paralelos em obras posteriores. * As relações entre conhecimento e virtude reaparecem no Lisis, no Laquetes, no Protágoras e no Eutidemo. * A oposição entre conhecimento abstrato e particular no Cármides é comparável à oposição entre ideias e fenômenos nos prólogos do Parmênides, embora esta pareça pertencer a uma fase mais tardia da filosofia de Platão.