====== 10. Objeção de Cebes (86e-88b) ====== //PLATON. Phédon. Monique Dixsaut. Paris: GF-Flammarion, 1991.// * Cebès concorda com a preexistência da alma e discorda de Simmias, pois para ele a alma não é mais fraca nem menos duradoura do que o corpo, sendo naturalmente mais vigorosa e por isso existindo antes de entrar nele. * Os dois pontos estão ligados: a alma preexiste ao corpo porque é naturalmente mais vigorosa. * Para explicar sua posição, sem aceitar a tese de Simmias nem recair na de Sócrates, Cebès recorre à imagem de um velho tecelão que acaba de morrer (87a-b). * O paradigma da alma-tecelão e do corpo-vestimenta ilustra uma relação ativa: a alma não se limita a estar presente no corpo, ela o "tece" continuamente, assim como o tecelão usa e repõe vestimentas ao longo da vida. * A morte do tecelão só precede a do último vestido tecido; analogamente, a alma usa e reconstitui incessantemente um corpo em perpétuo escoamento e destruição. * Uma mesma alma pode usar muitos corpos ao longo de uma mesma vida, e pode também animar e desgastar muitos corpos ao longo de várias vidas. * Nada impede, concede Cebès, que a alma percorra uma série de nascimentos e mortes. * O problema é que isso não muda nada para nós, pois é impossível saber qual morte será, por assim dizer, a definitiva. * A maior duração da alma, para Cebès, não se funda na natureza da alma, mas na fraqueza natural do corpo, cujo incessante escoamento a torna naturalmente inferior em vigor e resistência, sem que isso implique superioridade infinita da alma. * A alma pode chegar ao esgotamento após muitas mortes, vidas e nascimentos, e uma dessas mortes pode muito bem significar sua destruição. * O fato de o último vestido tecido poder se conservar por muito tempo não prova que "o homem", isto é, a alma, deva durar ainda mais do que ele. * Cebès combate em duas frentes: ataca o raciocínio de Sócrates, segundo o qual a conservação do corpo implicaria existência ainda mais longa da alma, e corrige Simmias, que errou ao negar a maior duração da alma, embora pela razão errada. * Sócrates e Simmias cometeram o mesmo erro de pensar o corpo como coisa consistente, quando ele está em fluxo perpétuo. * A corrupção do corpo não está ligada ao evento da morte; a separação da alma apenas revela sua fragilidade natural. * Vivo ou morto, o corpo não se conserva, e o pouco de unidade e coesão que apresenta lhe vem da atividade da alma. * É verdade que a alma não perece primeiro, mas ela pode perecer por esgotamento gradual, e a confiança de Sócrates não é afinal razoável (88a-b). * As concepções de Simmias e Cebès são sensivelmente idênticas quanto ao que chamam alma: para ambos, ela é a vida; a diferença está no paradigma adotado. * Simmias mencionou a harmonia presente na obra de todo artesão: uma vez concluída a obra, o artesão pode abandoná-la a seus modos próprios de decomposição. * Cebès retoma a tese: a alma tem uma atividade "artesanal", mas a arte do artesão, do tecelão, permanece de algum modo presente dentro da obra para sustentá-la na existência. * Para Aristóteles, essa concepção equivale a "a arte do carpinteiro descida nas flautas". * Para Simmias, a vida resulta de uma boa proporção entre os componentes corporais; para Cebès, é uma atividade que se opõe incansavelmente à degradação e à corrupção do corpo. * A um paradigma estático de arranjo e composição de relações, o da lira, Cebès prefere um paradigma dinâmico de produção e reconstituição, o do tecelão. * Cada objeção retomou um dos dois membros da alternativa formulada por Sócrates em 78b: Simmias sustenta que a natureza da alma a inclui na espécie das coisas destinadas a perecer mais rapidamente do que o corpo; Cebès não concede essa destinação natural, mas estima que há toda razão de temer que a energia vital chegue ao esgotamento. * A alma pertence, segundo Cebès, à espécie das coisas das quais se pode temer que pereçam e às quais convém experimentar esse temor. * Quando, já desgastada por múltiplos nascimentos, a alma sofre uma morte a mais, ela perece. * A causa não está na natureza da alma nem no poder da morte em si mesma, mas numa longa série de uniões e separações com o corpo. * O efeito dessa repetição é, no sentido estrito, incalculável: nenhum meio de saber se uma dada morte é ou não a última (88b). * A destruição da alma é imprevisível, logo acidental, e é legítimo ter medo.