====== 2. Introdução (58e-61c) ====== //PLATON. Phédon. Monique Dixsaut. Paris: GF-Flammarion, 1991.// * Fédon abre seu relato descrevendo o espanto que sentiu ao longo do último dia de Sócrates, cuja maneira de enfrentar a morte não se assemelha a nenhuma outra. * No Banquete (221c-d), Alcibíades já afirmara que Sócrates não se assemelha a ninguém. * Tanto no Banquete (222a) quanto no Fédon (58e), essa diferença é percebida e expressa como presença de uma dimensão sobre-humana e divina. * Os primeiros palavras pronunciadas por Sócrates na prisão remetem Xantipa de volta para casa (60a). * O diálogo começa a propósito de uma sensação física -- o alívio de Sócrates ao ser desacorrentado -- e esse episódio esboça desde o início o tema dos contrários e de sua gênese. * Fédon abrira seu relato analisando um sentimento (pathos): uma estranha combinação (krasis) de prazer e dor (59a), em que o prazer não era o habitual prazer de filosofar na companhia de Sócrates. * Como dirá mais tarde o Filebo (49e-52c), o prazer e a dor experimentados por Fédon são puros: nascem ambos da reflexão, não um do outro; não se misturam, mas se alternam. * Sócrates se espanta (60b) com a sucessão do penoso e do agradável em sua perna, usando apenas adjetivos -- predicados provisórios correspondentes a estados -- enquanto a contrariedade reside mais nas palavras do que nos estados que elas designam. * Sócrates acrescenta que o agradável e o penoso não consentem em coexistir, embora sua sucessão ocorra quase sempre: exclusão da coexistência dos contrários e afirmação de sua sucessão quase sempre necessária. * Sócrates improvisa sobre esse tema uma pequena fábula (mythos) à maneira de Esopo. * A questão de por que Sócrates se pôs a compor poesia na prisão é respondida com referência a um sonho, a um escrúpulo religioso e a uma dívida para com o deus -- mas a resposta levanta dificuldades filosóficas sérias. * Algumas linhas depois de improvisar sua fábula, Sócrates afirma não ser dotado para contar histórias (mythologikos, 61b), mas logo propõe a Cebes narrar (mythologein) como pode ser a viagem para o além (61d). * Ao enviar tão frequentemente um sonho e ao retardar a morte de Sócrates, o deus talvez reclamasse uma música popular, uma obra de arte feita em sua honra (61a-b). * Para um deus da adivinhação, faltaria singular clarividência: não são os poemas que podem recomendar Sócrates à atenção das Musas, mas tudo o que ele fez, disse e não disse. * Se Apolo reclamava de Sócrates que ele se fizesse poeta e renunciasse à filosofia, a renegação exigida pelo deus seria pior do que a cicuta. * Platão joga com a ambiguidade do termo philosophia para mostrar que o sonho não exigia de Sócrates renúncia à filosofia, mas que ele consentisse em pôr seu desejo em obra. * Na República, philosophia designa ao mesmo tempo uma ocupação, uma espécie de saber e o modo de desejo próprio à parte racional da alma. * Sócrates possui a arte da parteira, mas partilha de sua esterilidade: não engendra, não produz, e priva-se assim de toda participação na forma mortal da imortalidade. * Sócrates não se enganou ao crer que a filosofia era a mais alta obra de arte; enganou-se em não fazer de seu desejo de pensar, de sua philosophia, o princípio de composições (poiemata). * A verdadeira obra de arte é a que se acompanha de raciocínios (logoi) e de uma exigência de saber (philosophia) (República VIII, 548b), mas essa exigência não é, em si mesma, obra, e não produz obras no sentido em que todo o mundo entende essa palavra. * Para obedecer ao sonho, Sócrates utilizou o que tinha à mão -- a festa de Apolo e as fábulas de Esopo -- sem jamais poder assumir o conteúdo de uma fábula como seu. * Incapaz de inventar, Sócrates colocou em outras palavras ou em outro ritmo uma história já contada: mesmo para cumprir um dever sagrado, não consegue resolver-se a assumir o conteúdo de uma fábula. * O acaso quis que tivesse à disposição as fábulas inventadas por Esopo, que nada escreveu e por cuja morte injusta e ímpia os delfenses tiveram de pagar o preço de sangue no santuário consagrado a Apolo. * Platão mostra Sócrates fazendo por Esopo o que ele próprio está fazendo por Sócrates: fazer reviver uma palavra, dar-lhe forma, reparar uma injustiça. * Para Sócrates como para Platão, o que é impossível é ser um narrador de mito, servir-se do logos para contar uma história e apresentar-se como seu autor (cf. República II, 378e sq.); o que é possível é que uma história emprestada se torne matéria de um discurso -- que um mythos se rediga em logos. * O mito terminal do Fédon é, na verdade, o contrário de um mito: como na alegoria da Caverna e no relato de Er, o Pamfílio, no final da República, trata-se de uma descrição muito exata da condição humana. * O mito descreve o que os homens fazem de sua alma e de sua vida, os lugares onde se aprisionam por ignorância e loucura, e as torturas que se infligem. * Se isso parece fabuloso, é porque o homem é um ser fabuloso, um animal cuja monstruosidade é capaz de múltiplas variações, todas mais fantásticas umas do que as outras: basta olhar e descrever, não é preciso inventar. * O deus não exigia de Sócrates que renunciasse à filosofia, mas a questão de por que reclamou uma música popular -- e não a mais alta -- abre para uma reflexão sobre os limites do homem e sobre a escrita como forma de participação na imortalidade. * Ao compor o que compôs, Sócrates continuou a celebrar o divino, o longínquo, o puro, e a tomar distância para olhar as coisas e os homens. * Pode bastar a um deus comunicar sua palavra e enviar seus oráculos, mas um homem deve ter o senso de seus limites e a humildade da escrita. * Platão levanta assim, ao mesmo tempo que a desvaloriza, a questão de se está justificando sua própria empresa: escrever, e escrever o Fédon.