====== 1. Prólogo ====== //PLATON. Phédon. Monique Dixsaut. Paris: GF-Flammarion, 1991.// * Platão utiliza desde o prólogo do Fédon termos em sentido corrente que serão progressivamente deslocados e trabalhados ao longo do diálogo, funcionando como fio condutor do tema latente por trás do tema manifesto. * A primeira palavra dirigida por Equécrates a Fédon é autos (tu mesmo), e é também a primeira palavra pronunciada por Fédon. * Essa palavra carrega toda a questão central: a que identificar esse si mesmo — ao corpo, à alma ou à união dos dois? * Nos versos interpolados da descida de Odisseu ao Hades, afirma-se que Héracles não está no Hades, que apenas sua imagem — psyche — aí vegeta, enquanto ele mesmo (autos) se encontra no Olimpo, pois seu corpo (soma) lá foi acolhido. * Nas Leis (XII, 959b), Platão enuncia uma identidade radicalmente diferente: o que constitui cada um de nós não é nada além da alma (psyche). * Essa mudança não é simples inversão semântica de corpo para alma, mas uma mutação radical na maneira como o homem se concebe a si mesmo — mutação que tem início com o Sócrates histórico, mas só se opera plenamente a partir da reflexão filosófica do Fédon. * Na tradição órfico-pitagórica, a alma podia ser mais resistente que o corpo perecível e intercambiável, mas não era de modo algum um si mesmo. * Ao final do diálogo, Sócrates repreende Críton por não compreender que não se queimará Sócrates, mas uma roupa velha — um corpo do qual se poderá fazer o que se julgar conveniente — pois a alma já se terá retirado, e Sócrates com ela. * A pergunta de Equécrates sobre se Fédon estava presente ele mesmo antecipa a alternativa socrática entre descobrir por si mesmo e aprender de outro. * Sócrates enuncia essa alternativa em 99c: descobrir por si mesmo ou aprender de outro. * A identidade entre descobrir por si mesmo, aprender e recordar-se recusa a possibilidade de aprender por tradição. * Entre os pitagóricos, autos designava o próprio mestre Pitágoras, e os ditados eram colocados sob a autoridade do ele mesmo disse (autos epha) — aprender era sempre aprender de outro, nunca descobrir por si mesmo. * Não se é si mesmo da mesma maneira se se é discípulo que apenas empresta o ouvido a uma palavra de verdade, ou se se reconhece a si mesmo a potência de descobrir o verdadeiro e o dever de buscá-lo. * A presença sobre a qual Equécrates interroga Fédon não é presença junto a qualquer pessoa, mas presença junto a Sócrates, que durante toda a sua vida fez precisamente o oposto: remeteu cada um a si mesmo. * O tempo livre de Fédon para narrar a morte de Sócrates prefigura o conflito filosófico entre o tempo tomado pelo corpo e o tempo livre exigido pela filosofia. * Fédon declara que nenhum negócio (askholia) lhe parece mais urgente do que narrar os acontecimentos. * O discurso dos verdadeiros filósofos afirma a necessidade de a alma separar-se do corpo, pois a união revela-se um invasão. * O conflito se aperta entre o afazer (askholia) que a conservação e a satisfação do corpo impõem e o tempo livre (skhole) requerido pelo desejo de aprender — a filosofia (66b, 66d). * O decreto que explica o intervalo entre o julgamento e a morte prefigura o tema recorrente da purificação, e o acaso (tykhe) que rege esse intervalo abre para Sócrates o tempo da composição poética. * Durante o peregrinação a Delos, a cidade devia permanecer pura — pureza institucionalizada que se limita a abster-se temporariamente de crimes de sangue. * O acaso determina que seus poemas tenham por matéria as fábulas de Esopo (61b). * O seu sorte presente (84e) torna-se para Sócrates ocasião de pôr-se a cantar por presciência do invisível. * O Fédon inteiro está colocado sob o signo de Apolo, cujas quatro potências — purificação, medicina e filtros, adivinhação, música e harmonia — se manifestam todas em Sócrates. * Segundo a Apologia (21a), o oráculo de Apolo havia dito que Sócrates era o mais sábio de todos os homens, e Sócrates se considerava um presente do deus à cidade (30d). * No Crátilo, quatro etimologias definem as potências de Apolo: deus da purificação e dos processos purificatórios, da medicina e dos filtros, da adivinhação (405a-b). * Sócrates morre bebendo um filtro (pharmakon) e recordando sua dívida para com o filho de Apolo, Esculápio; Fédon admirará a maneira como Sócrates soube curar os presentes de seu desânimo (89a). * Semelhante aos cisnes que conduziram o deus ao país dos hiperbóreos, Sócrates recebe de seu mestre o dom da adivinhação (mantike, 85b). * Apolo é também deus das Musas, deus músico que preside à harmonia (405a, 405c-d); para obedecer ao sonho enviado pelo deus, Sócrates compõe primeiro um hino em honra de Apolo. * Se Sócrates se opõe à deusa Harmonia tal como a reverencia Símias de Tebas, é provavelmente em razão de sua concepção mais divina e apolínea de uma harmonia presidindo ao acordo entre deuses e homens. * Apolo arqueiro, senhor de seus golpes, atinge sempre seu alvo (Crátilo, 405c): o deus envia um sinal inevitável que transforma uma morte não voluntária em morte necessária, pois chegou o tempo da desatadura e da purificação. * A maioria dos homens se aterroriza com o nome do deus como se indicasse algo terrível, ouvindo nele a perda da vida e o perecer (apollusthai) — verbo que ressoa lugubrement ao longo das objeções de Símias e de Cebes, encerrando cada uma delas (86d, 88b). * Médico, adivinho, músico e arqueiro infalível: Sócrates reúne todos esses atributos recebidos da potência do deus que serve, e o Fédon inteiro mostra que essa unidade se pode significar com uma única palavra — filósofo. * Estar presente a si mesmo pela capacidade de recordar uma outra presença, ter todo o tempo livre e aproveitar assim a duração que o acaso concede antes da morte, empregá-la a buscar o verdadeiro que é o puro e a celebrar Apolo e suas quatro potências — tudo isso se harmoniza também em uma unidade. * Essa unidade se manifesta em Sócrates, e Platão dedica todo o Fédon a mostrar que ela pode ser significada por uma única palavra: filósofo.