===== Platão ===== Platão é um autor clássico que se tem prazer em reler, um escritor sem par. Ele, que deu ao termo «filosofia» o sentido que ainda hoje é o seu, permanece, depois de mais de dois milênios, o filósofo por excelência. Após o século XX, que foi o século das ideologias, do pensamento pronto, parece que devemos doravante retomar tudo desde o início: tornamo-nos novamente os contemporâneos de Sócrates que, nas ruas de Atenas e na praça pública, discutia com os que o cercavam sobre o que faz o valor de uma vida humana, sobre o que motiva tal ou tal ação individual ou cívica, sobre os fins que perseguem o indivíduo e a cidade. Para o seu tempo e para o nosso, Platão propõe o exercício de um pensamento autônomo no interior de uma comunidade humana que não deve repousar sobre o conflito permanente. (Luc Brisson) ---- **Segundo o filósofo Jean Brun...** O filósofo que deseja estudar o pensamento dos pré-socráticos, o dos estoicos ou o dos epicuristas depara com o problema da ausência quase total de textos e limita-se a estudar as citações ou os fragmentos transcritos pelos autores posteriores. Com Platão, Aristóteles e Plotino, estamos frente a um problema de certo modo inverso, não temos poucos textos, mas sim, e por vezes, textos demais: quando se estuda Platão ou Aristóteles deve fazer-se a separação, entre as obras que tradições por vezes em desacordo atribuem a esses filósofos, entre as obras suspeitas e as obras apócrifas. Dispomos, para a autenticação da obra de Platão, de critérios externos: uma obra é autenticada se Aristóteles ou Cícero a atribuírem a Platão ou se se encontrar uma citação da obra no interior de outra — e de critérios internos: uma obra é atribuída a Platão se for «conforme» a sua filosofia, mas são visíveis os perigos deste procedimento que consiste em definir primeiro Platão para depois poder ajuizar das suas obras; outros críticos utilizaram o processo estilométrico, que consiste em medir a frequência de certas palavras gregas usuais de modo a definir um «estilo» de Platão que permita autenticar uma obra segundo o modo como foi escrita, mas deve dizer-se também que o estilo não é um dado imutável num homem que viveu perto de 80 anos. O segundo problema é o da cronologia das obras; é certo que o pensamento de Platão evolui e que não é o mesmo nos diálogos de juventude e nos da maturidade; mas os críticos de Platão nunca conseguiram entender-se sobre uma cronologia rigorosa. Resta outro problema: Aristóteles fala-nos das «obras não escritas» de Platão; alguns quiseram separar um ensino exotérico, que estaria nas obras chegadas até nós, e um ensino esotérico que teria sido exclusivo dos estudantes da Academia, mas é muito difícil saber algo) sobre esse ensino esotérico, a não ser que se relacionava com as «ideias-números». Temos duas classificações antigas das obras de Platão: uma classificação trilógica de Aristófanes de Bizâncio e uma classificação tetralógica de Trasilo. Eis a classificação que foi adotada hoje em dia na coleção de G. Budé que editou as obras completas de Platão (texto com aparato crítico, tradução e introduções desenvolvidas) e à qual iremos buscar todas as citações que se seguirão; esta classificação segue uma ordem cronológica provável: * [[platao:alcibiades1:start|Alcibíades]], sobre a natureza do homem, gênero maiêutico (atribuição contestada); * [[platao:apologia:start|Apologia]]; * [[platao:banquete:start|Banquete]], do Amor, gênero moral; * [[platao:carmides:start|Cármides]], sobre a Sabedoria, gênero probatório; * [[platao:cratilo:start|Crátilo]], sobre a Justeza dos nomes; * [[platao:critias:start|Crítias ou da Atlântida]]; * [[platao:criton:start|Críton]], do Dever, gênero ético; * [[platao:epinomes:start|Epinómis]] ou do Filósofo (atribuição contestada); * [[platao:eutidemo:start|Eutidemo]], ou da Erística, gênero anatréptico; * [[platao:eutifron:start|Eutífron]], da Piedade, gênero probatório; * [[platao:fedon:start|Fédon]], da Alma, gênero moral; * [[platao:fedro:start|Fedro]], da Beleza, gênero moral; * [[platao:filebo:start|Filebo]], do Prazer, gênero ético; * [[platao:gorgias:start|Górgias]], sobre a Retórica, gênero refutativo; * [[platao:hipias-maior:start|Hípias maior]], sobre o Belo, gênero anatréptico; * [[platao:hipias-menor:start|Hípias menor]], sobre a Mentira, gênero anatréptico; * [[platao:ion:start|Íon]], sobre a Ilíada, gênero probatório; * [[platao:laques:start|Laques]], sobre a Coragem, gênero maiêutico; * [[platao:leis:start|Leis]]; * [[platao:lisis:start|Lísis]], sobre a Amizade, gênero maiêutico; * [[platao:menexeno:start|Menéxeno]], da Oração fúnebre, gênero moral; * [[platao:menon:start|Ménon]], sobre a Virtude, gênero probatório; * [[platao:parmenides:start|Parmênides]], autocrítica das Ideias; * [[platao:politico:start|Político]], da Realeza ou da Governança; * [[platao:protagoras:start|Protágoras]], sobre os Sofistas, gênero demonstrativo; * [[platao:republica:start|República]], da Justiça, diálogo político; * [[platao:sofista:start|Sofista]], do Ser, gênero lógico; * [[platao:teeteto:start|Teeteto]], sobre a Ciência, gênero peirástico; * [[platao:timeu:start|Timeu]], ou da Natureza; [[platao:cartas:start|Cartas]] (a sua autenticidade é muito contestada, no entanto é provável que a [[platao:cartas:carta7:start|Carta7]], que nos dá muitos detalhes sobre a vida de Platão, seja autêntica); Diálogos suspeitos: [[platao:alcibiades2:start|Alcibiades 2]], [[platao:hiparco:start|Hiparco]], [[platao:minos:start|Minos]], [[platao:rivais:start|Rivais]], [[platao:teages:start|Téages]], [[platao:clitofon:start|Clitofon]]. Diálogos apócrifos: [[platao:da-justica:start|Da Justiça]], [[platao:da-virtude:start|Da Virtude]]; [[platao:demodoco:start|Demódoco]], [[platao:sisifo:start|Sísifo]], [[platao:erixias:start|Eríxias]], [[platao:axioco:start|Axíoco]], [[platao:definicoes:start|Definições]]. Todas estas obras chegaram até nós através de manuscritos, dos quais os mais antigos remontam à Idade Média bizantina. Os dois mais importantes são um manuscrito do século IX que se encontra na Biblioteca Nacional de Paris; a primeira parte perdeu-se mas existe uma boa cópia do século XI que se encontra na Biblioteca de São Marcos em Veneza; o segundo manuscrito data de 895 e encontra-se em Oxford; pode acrescentar-se que escavações empreendidas no Egito permitiram encontrar papiros incompletos ou mutilados dos três primeiros séculos da era cristã (um deles, para o Fédon, remonta ao século III a. C). Deve acrescentar-se que, desde a Antiguidade até a Renascimento, as obras de Platão foram comentadas ou utilizadas por autores mais ou menos prudentes; temos assim comentários de Proclus (sobre o Crátilo, A República, o Parmênides e o Timeu), de Hérmias, de Olimpiodoro, a tradução latina incompleta de um comentário de Calcídio sobre o Timeu. Devemos citar também os textos de Plutarco, de Galiano, de Teão de Esmirna, de Máximo de Tiro, de Albino, que comentaram, citaram ou criticaram Platão. Além das obras citadas acima, temos um [[platao:varia:start|conjunto de excertos destas obras, em destaque]], assim como uma [[https://hyperlogos.info/platon|página com extratos da tradução de Jowett, por termos relevantes]].