====== Atomismo ====== DDATC * Evolução da teoria de Tales aos primeiros Pitagóricos: busca da substância primordial invariante no devir cósmico. * Talete: água como //arche// (ἀρχή), princípio material constitutivo de todas as coisas. * Anaximandro: o //apeiron// (ἄπειρον) como matéria primordial infinita e indefinida, condição para a geração dos opostos. * Anaxímenes: ar como princípio, cuja condensação e rarefação explicam a diversidade dos corpos. * Pitagóricos: transição do ambiente Jônico para o Itálico; a matéria como constituída por unidades pontuais ou mônadas. * Doutrina de que "as coisas são números": aspectos qualitativos derivam do número e da ordem geométrica das partículas unitárias. * Monadismo ou atomismo geométrico: o ponto-monada como centro de condensação da substância infinita, dotado de mínima extensão. * Associação entre número e figura geométrica, base para uma teoria das proporções e da similitude. * Crítica eleática ao pluralismo pitagórico: unidade do ser e negação do devir. * Parmênides de Eleia: oposição radical entre o caminho da verdade (o ser é uno, imóvel, contínuo, eterno) e o caminho da opinião (aparências do devir). * O ser como esfera compacta, homogênea e imutável; exclusão de qualquer geração, corrupção ou movimento real. * Interpretação realista do princípio de identidade: o que é, é; o devir implica uma contradição (ser e não-ser). * Zenão de Eleia: argumentos dialéticos como defesa da unidade parmenídica e refutação da pluralidade e do movimento. * Primeiro argumento (Dicotomia): impossibilidade de percorrer um segmento devido à divisão infinita; pressupõe a negação de pontos com extensão mínima. * Segundo argumento (Aquiles e a tartaruga): o mais rápido nunca alcança o mais lento devido à regressão infinita dos intervalos. * Os argumentos como redução ao absurdo do atomismo geométrico pitagórico, que concebe o ponto como infinitesimal atual. * Antecipação negativa do postulado de Eudoxo-Arquimedes sobre grandezas. * Contribuição implícita ao problema da soma de séries geométricas infinitas. * Consequências paradoxais da doutrina eleática para a filosofia natural. * Impossibilidade de uma explicação racional para a mudança e o movimento no mundo sensível. * Em um continuum homogêneo, falta uma razão suficiente para o devir, pois toda ação requer uma diferença na matéria. * Relatividade do movimento, já pressentida por Zenão em seus argumentos sobre o lugar e a comparação entre fileiras móveis. * Conflito insustentável entre a razão (que afirma a unidade e imobilidade) e as aparências sensíveis (que testemunham a pluralidade e a mudança). * Gênese do atomismo físico de Leucipo e Demócrito como superação da aporia eleática. * Aceitação do postulado eleático da impenetrabilidade e homogeneidade da matéria plena. * Inovação crucial: postulação do vazio (//kenon//, κενόν) como condição de possibilidade para o movimento e a pluralidade. * O vazio é concebido como um "não-ser" que, no entanto, //é// (tem existência), rompendo com a identidade parmenídica entre ser e plenitude. * Permite falar de "movimento em relação ao vazio", solucionando a relatividade eleática. * Teoria da constituição da matéria por átomos (ἄτομα) e vazio. * Átomos: partículas indivisíveis (pela solidez), plenas, eternas, qualitativamente idênticas, distinguindo-se apenas por forma (//rhysmos//, ῥυσμός), ordem (//taxis//, τάξις) e posição (//trope//, τροπή). * A divisibilidade dos corpos macroscópicos é explicada pela existência de poros (vazios) entre os átomos. * Refutação da divisão infinita no sentido físico: levaria à aniquilação da matéria em pontos geométricos sem extensão. * Distinção fundamental entre atomismo //físico// (de Leucipo e Demócrito) e atomismo //geométrico// (dos pitagóricos antigos). * Os átomos físicos são corpóreos, extensos e sólidos; os pontos geométricos são abstrações sem partes. * Confutação da crítica cética de Erik Frank sobre as origens pitagóricas. * Frank nega a existência de uma doutrina monádica ou atomismo geométrico nos primeiros pitagóricos, reduzindo Pitágoras a uma figura apenas religiosa. * Refutação baseada em testemunhos antigos: * Menções explícitas à atividade científica de Pitágoras em Heráclito e Heródoto. * Vínculos de figuras como Hípaso, Alcmeão e o pitagórico Amênias com Parmênides, indicando interesses científicos. * O poema de Parmênides pressupõe doutrinas científicas próprias da escola itálica. * Atribuições matemáticas avançadas a Arquitas, Anaxágoras e Demócrito pressupõem uma geometria elementar prévia, logicamente atribuível aos pitagóricos antigos. * A crítica eleática (de Parmênides e Zenão) só faz sentido como direcionada contra uma concepção empírica dos entes geométricos (como mônadas extensas), corroborando a existência dessa doutrina pré-socrática. * Legado do atomismo antigo para a ciência moderna. * Transmissão da ideia atomística através do Medievo (Epicuro, Lucrécio) até o século XVII. * Adoção do programa mecanicista de explicação dos fenômenos pela figura e movimento das partículas. * Descartes e o ideal de uma física puramente mecanicista, embora com rejeição explícita do vazio democritano. * Compromisso na teoria newtoniana da gravitação, que reintroduz forças atrativas à distância. * Contribuições conceituais específicas: * Noção de massa como "quantidade de matéria", derivada do pressuposto metafísico da identidade substancial de todos os átomos. * Influência na Química de Boyle e na superação dos quatro elementos aristotélicos. * Ceticismo químico: as qualidades sensíveis não têm realidade intrínseca, mas dependem da configuração atômica. * Abertura para o conceito de elemento químico como átomo de forma definida (inspirado em Pitágoras e Platão, não na infinidade democritana). * Base para leis das proporções definidas e múltiplas (Dalton, Berzelius) e para a teoria molecular. * Hipótese de Prout (átomos como agrupamentos de hidrogênio) como retomada moderna da unidade da matéria. * Influência na estereoquímica orgânica (Van't Hoff): as propriedades materiais dependem da ordem e posição relativa dos átomos nas moléculas.