====== Identidade ser e pensar ====== //Abel Jeannière// A única razão é o logos comum, e a participação da alma nesse logos pode se aumentar até essa comunhão perfeita que torna familiar da pensamento que governa o todo por meio do todo. * Essa razão funda uma lógica que aparece como a própria lógica do irracional, na medida em que é fundada sobre princípios dinâmicos opostos aos princípios estáticos da razão vulgar. * Jamais foi cavado um fosso mais profundo entre a razão vulgar e a razão filosófica. === O tempo como criança que joga === Um dos aforismos mais obscuros que chegaram até o presente exprime talvez essa distinção: o tempo é uma criança que empurra peões, a realeza de uma criança. * O verdadeiro filósofo é a criança, em face de Homero, o poeta popular. * Em Platão, encontra-se várias vezes a mesma imagem desse jogo que consiste em mover peões sobre linhas ou casas, sendo o deus que empurra peões num contexto que se refere diretamente à providência, onde o jogo do deus obedece a regras complicadas que lhe permitem tomar o melhor cuidado do conjunto. * Aqui, o tempo é uma criança que joga, mas seu jogo obedece às mesmas regras complicadas, essas regras dos jogos infantis onde se perdem os adultos que os acham absurdos, e nenhum peão se move ao acaso. === O sentido de Aion === A palavra Aion, traduzida por tempo, começou por designar a força vital e terminou por tornar-se ele mesmo um deus; entre os dois, designou o tempo de uma vida humana e depois o tempo eterno. * A compreensão desse fragmento pode ser facilitada se se considerar que as imagens que Heráclito utiliza para edificar sua metafísica evocam, de longe mas com frequência, os velhos mitos solares. * O fogo-princípio corresponde ao deus solar; em todos os mitos solares, o esquema comum comporta a intervenção de uma criança, ou de um filho do deus-sol, que, vindo à terra, ignora por muito tempo sua origem celeste, e é justamente essa criança que traz aos homens o fogo e, com o fogo, os benefícios e a própria presença da divindade. === A lógica do jogo infantil === Num sentido intermediário, o logos heraclítico, o devir eterno, exige que se renuncie à inteligência particular, à razão de adulto, para comungar numa atividade que, como um jogo infantil, não tem outra finalidade senão ela mesma. * O devir é um jogo infantil, onde o adulto só vê arbítrio e capricho, porque não sabe excluir todo cálculo pessoal. * O jogo é regulado em seus mínimos detalhes, mas não conhece outra lógica senão aquela que é interior ao jogo mesmo. * Para compreender essas regras, é preciso renunciar a todo modo de conhecimento fixo, a todas as noções determinadas de uma vez por todas, a todos os cálculos enfim de um bom senso demasiado singular. * Então o filósofo pode comungar alegremente, numa atividade gratuita como a da criança, ao entusiasmo criador da razão cósmica. * Nessa união ao logos, ser e pensamento se identificam, o logos da alma se aumenta ele mesmo, e a alma torna-se o uno e o todo, sendo o universo inteligível.